O Brasil piora se o populismo ganhar

Desabastecimento, filas, mortes em protestos e nos hospitais: o caos na Venezuela com o populismo de Hugo Chávez e Nicolás Maduro; no Brasil, Bolsonaro e Lula (no detalhe, à direita) são os que mais encarnam o populismo

Dificuldades econômicas e crise ética na política levam candidatos a prometer soluções fáceis, que podem agravar os problemas do País, como aconteceu na vizinha Venezuela

 

As duas fotos maiores que encimam este texto são flagrantes recentes da situação na Venezuela. Mostram o resultado de 20 anos de populismo, rebatizado de “bolivarianismo”, com a assunção de Hugo Chávez ao poder, depois herdado por Nicolás Maduro. Lembrando que tanto Chávez quanto Maduro foram eleitos pelo voto direto, mas ambos trabalharam para implodir as instituições como o Judiciário, o Congresso e a imprensa livre.

O resultado do bolivarianismo na Venezuela é o que vê nas fotos: desabastecimento, fome, filas, protestos, violência, sofrimento do povo. Por isso, é dramático o fato de que no Brasil atualmente pré-candidatos com chances de ganhar a eleição sinalizem com propostas populistas.

Há algo extremamente fora de lugar e perigoso no processo sucessório, quando o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL-RJ) e o ex-presidente Lula da Silva (PT-SP), este condenado e preso por corrupção, polarizam pesquisas de intenção de voto para a Presidência da República. Ambos são políticos populistas, que acenam com propostas demagógicas para um eleitorado desiludido com a classe política e impactado pelo alto grau de corrupção que põe sob suspeita até membros do Judiciário.

Exemplo de populismo em Bolso­naro está no discurso simplista de resolver a segurança pública com o armamento da população. E ele se apresenta como o político que vai combater a corrupção com mão de ferro. Parcela do eleitorado fica seduzido por esse discurso radical. A ele até pode-se dar algum benefício de dúvida quanto ao que poderá fazer efetivamente se ganhar a eleição.

Donald Trump (EUA), Recep Erdogan (Turquia) e Nicolás Maduro (Venezuela): populistas no poder atualmente

Com Lula — se ele, ficha suja, não puder disputar, pedirá votos a algum interposto substituto, no momento o mais citado sendo o ex-prefeito Fernando Haddad —, no entanto, há certezas. De volta ao poder, ele mesmo ou por trás de um “poste”, repetiria a prática populista do discurso demagógico recheado de metáforas simplistas e medidas econômicas como a oferta de crédito fácil, que levou milhões de famílias ao endividamento.

Foi este um dos fatores que empurraram o país para o caos econômico e político que vivemos atualmente com Michel Temer, um subproduto do lulopetismo via coalizão MDB-PT. Após herdar o governo com a impeachment de Dilma Rousseff, Temer até tentou consertar os estragos petistas na área econômica. Com Henrique Meirelles na Ministério da Fazenda, foi estancado o desastre dilmista, a inflação refluiu e houve alguma retomada do crescimento, mas as baixas condições políticas de Temer vêm minando esse esforço.

Para piorar o quadro, Ciro Gomes (PDT), também com chances de chegar ao segundo turno, acena com propostas populistas — a mais recente, há poucos dias: “Em meu governo, o litro da gasolina vai custar 3 reais”. Tabelamento de preços não combina com economia funcional. A promessa de Ciro configura o populismo em seu grau máximo: falar aquilo que o eleitor quer ouvir, não interessa se no futuro isso causará danos a esse próprio eleitor.

Populistas vicejam em qualquer país. Podem ser de esquerda ou de direita. O populismo pode imperar em democracias e em ditaduras. Aliás, quase sempre o populismo acaba levando o país que optou por ele a tornar-se uma ditadura assumida ou disfarçada. Podemos citar três países hoje que têm governos populistas: Estados Unidos, o bastião mundial da democracia, com Donald Trump, e as semiditaduras Turquia, com Recep Tayyip Erdogan, e Venezuela, com Chávez (sim, este morreu, mas seu “ectoplasma” encarnou no títere Nicolás Maduro e continua governando o país).

“Bolsonaro na Presidência seria retrocesso”

O ex-deputado federal Vilmar Rocha (PSD) é um estudioso do tema populismo. Em 2007, ele lançou “Fascínio do Neo-populismo”, livro em que analisa o tema. Ele classifica populismo como o grande “câncer da democracia”, sem conteúdo ideológico e que pode ser de esquerda ou direita. Configura-se, diz, mais uma estratégia para chegar e manter o poder.

“O populismo é muito comum quando a sociedade está indignada, carente, revoltada contra os políticos. Nessa época aparece o político com o perfil de ‘salvador da pátria’ prometendo soluções fáceis para problemas complexos. Isso pode levar ao desastre e à instabilidade”, afirmou Vilmar Rocha em recente entrevista.

O ex-deputado volta à presente pré-campanha à Presidência da República, referindo-se concretamente a Jair Bolsonaro, um dos líderes das pesquisas. “O Brasil não pode ter um presidente com o seu perfil. A população não pode votar com ódio, mas com esperança. Fui 20 anos colega de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Ele não está qualificado e será um enorme retrocesso sua eleição. E falo isso corajosamente, pois muita gente do meu ciclo político está fascinado pela candidatura dele.”

Manifesto

Mesmo sem mandato, Vilmar Rocha tem trabalhado no sentido de barrar o populismo no Brasil. Ele é um dos signatários do “Manifesto Por um Polo Democrático e Reformista”, lançado no início de maio, em São Paulo, que propõe em concerto político pelo centro, em repúdio a propostas populistas. Vilmar faz uma análise do cenário atual e dá informações desse movimento nacional do qual participa.

— Chamo a atenção para o momento nacional, que é muito parecido com o que tivemos em 1989, nas eleições presidenciais. Tivemos um número grande de candidatos, e foram para o segundo turno o petista Lula e Fernando Collor, então num partido nanico, o PTN. E os dois tiveram menos de 30% dos votos em razão da pulverização. Naquela época, candidatos como Mario Covas, Leonel Brizola e Ulisses Guimarães não foram para o segundo turno. E o resultado foi a eleição do Collor. E deu no que deu.

“Pois bem. No dia 5 de maio, um grupo de 30 políticos e intelectuais lançaram o ‘Manifesto por um Polo Democrático e Reformista’. O documento foi encabeçado pelo senador Cristovam Buarque (PPS¬-DF) e pelo deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG) e contou com a assinatura de políticos como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB-SP), cientistas políticos e intelectuais. Entendemos neste grupo que o centro é o perfil que representa a maioria do sentimento do povo brasileiro.

Muitos em circulação

Igualmente signatário do “Ma­nifesto Por um Polo Democrático e Reformista”, Marco Aurélio Nogueira, cientista social, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor de teoria política na Universidade Estadual Paulista (Unesp), também vê perigo no populismo. Marco Aurélio afirma que, de fato, no quadro atual de desencanto da população, corremos o risco de eleger alguém que venha com propostas populistas.

Lembra que, no mundo atual, e não só no Brasil, a eleição de um populista é sempre uma possibilidade. Há muitos deles em circulação, diz, e no Brasil, em particular, seria preciso qualificar bem o que se entende por populista, expressão um tanto quanto vaga e imprecisa.

“Podemos ficar só com a ideia de que o populista superpõe sua liderança às instituições e às regras do jogo democrático, e, ao fazer isso, tende a dar menor importância aos ritos políticos e ao equilíbrio fiscal do Estado. Gasta mais, de forma menos responsável. Deste ponto de vista, e levando em conta as carências existentes no país, o risco existe sim. Outra face do populista é a demagogia, que faz com que o líder estabeleça uma relação passional com a população. Esse é um traço da política nos dias correntes, mesmo entre os que não querem ser chamados de populistas”, coloca Marco Aurélio Nogueira.

E quais são as consequências mais nefastas, no caso de os brasileiros elegerem um populista?

Marco Aurélio responde: “O país poderá ficar sem avançar em algumas reformas importantes (a educação, a saúde, a política, a Previdência), prolongando a situação de crise em que nos encontramos. Se isso vier a ser feito de modo ‘inflamado’, agravará por extensão a polarização política, a fragmentação social, a falta de coesão e ‘projeto nacional’, com consequências danosas para o conjunto do país”, finaliza.

Cientista político, consultor e professor na Universidade de Brasília (UnB), Paulo Kramer volta na história para melhor situar o populismo. Ele diz que o desajuste entre sistema político e sociedade começa com a proclamação da República (1889). “A República foi obra de oligarcas paulistas positivistas, pessoal que não gosta do sistema representativo. Esse desajuste, de tempos em tempos, em ciclos aí de 30 anos, se manifesta na forma de candidaturas carismáticas ou pseudocarismáticas, populistas, portanto.”

Esgotamento

Kramer lembra que, nos ciclos mais recentes, temos Jânio Quadros, em 1960; Fernando Collor, em 1989; e agora, com o que ele chama de esgotamento do presidencialismo de coalizão — “esgotamento não apenas fiscal, mas também ético, moral e político” —, há candidatura populistas acreditando que têm chances.

“E não me refiro apenas ao Jair Bolsonaro, o mais bem posicionado (nas pesquisas), mas também ao Ciro Gomes. O próprio fato de que os dois nomes mais populares nas pesquisas serem Lula, que está preso e provavelmente não concorrerá, e Bolsonaro, mostra por si só que existe uma enorme demanda por messianismo populista no mercado político brasileiro. Isso por conta de questões não resolvidas de desajuste entre o sistema político de um lado e a economia e sociedade de outro”, diz Kramer.

O cientista político lembra que os economistas são unânimes em dizer que não dá mais para fazer mágica, por que acabou o dinheiro. O Brasil tem um enorme problema fiscal, que precisa ser enfrentado com medidas duras, como as reformas da Previdência e tributária.

Como o País chegou ao limite fiscal, a eleição de um populista vai agravar um quadro já muito complicado na economia. “Se não temos mais dinheiro para gastar, uma política de orientação populista pode acabar produzindo inflação e levando ao engavetamento de vez da Lei de Responsabilidade Fiscal. Seria um desastre!”

 

 

 

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