Jovem que lutava há 20 anos contra doença pulmonar partiu deixando lição

Ao som do hino do Palmeiras, muitos aplausos e fogos de artifício, a despedida de Lucas Neres lotou o cemitério de Planaltina, ontem. Ao longo do dia, centenas de amigos e familiares marcaram presença no velório do jovem que travou uma verdadeira batalha contra uma grave doença durante 20 anos, o mesmo tempo que teve de vida. Coroas de flores, orações e palavras de ordem marcaram o momento do enterro, exatamente às 17h. Em seguida, integrantes da torcida organizada Mancha Verde Brasília deram as mãos ao redor do túmulo e prestaram homenagem ao palmeirense.

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Agarrada a uma bandeira do time do filho, Irani Neres chorou a cerimônia inteira, mas ainda arrumou forças para contar os últimos momentos que viveu com o garoto. Minutos depois de ter sepultado Lucas, Irani deu uma lição de garra e lucidez. “Só tenho que agradecer a Deus por ter sido mãe dele e ter permitido que a nossa relação durasse duas décadas”, declarou.

O palmeirense morreu na madrugada do último domingo, em Porto Alegre (RS), onde estava internado há mais de um mês. Desde o nascimento, Lucas lutava contra uma bronquiolite obliterante. “Ele recebeu os melhores tratamentos no Sul. Os médicos me diziam para confiar mais em Deus do que neles porque a equipe não estava medindo esforços. A doença teve uma reviravolta e meu filho não respondia mais”, afirmou Irani.

Ainda no cemitério, ela lembrou da última vez que o filho esteve consciente. “Ele teve um momento de lucidez e disse para o médico seu nome e idade e que era de Brasília. Depois, pediu ajuda, pediu oxigênio e perguntou ao doutor se ia conseguir um pulmão”, contou. Assim que o médico respondeu positivamente, Lucas disse ‘vai dar tudo certo’ e teve uma parada. Desde então, não teve melhora”, contou.

Nascido em Planaltina, Lucas começou a sentir dificuldade para respirar no primeiro mês de vida. Ao longo dos anos, o menino perdeu todo o pulmão esquerdo e tinha o funcionamento do direito comprometido. A esperança da família era um transplante, mas a operação nunca saiu.

Uma campanha para conseguir a verba necessária para levá-lo ao Canadá, onde o procedimento poderia ser realizado, ganhou força, mas o dinheiro não foi alcançado. Nesse meio tempo, o aparelho para a realização do transplante chegou a Porto Alegre no ano passado. Desde então, Lucas se mudou para a capital gaúcha.

Integrante da Mancha Verde, o analista de TI Rogério Amorim, 30, contou como a torcida conheceu o jovem. “Dentro do texto de uma matéria de jornal tinha uma notinha solta dizendo que ele era palmeirense roxo. Há sete ou oito anos, Lucas chegou como uma ideia de projeto social, mas virou família de todos nós. Estamos consternados com a perda”, lamentou.

Emocionado, o diretor do Centro de Ensino Fundamental Arapoanga – onde Lucas estudou –, Jordenes Silva, detalhou o perfil do aluno. “A vontade de estudar dele era impressionante. Queria se formar para cuidar da mãe. Tinha o direito de ter um acompanhamento domiciliar, mas fazia questão de ir à escola, de estar com os colegas. Ele humanizou nosso colégio. Hoje, conseguimos receber outras crianças especiais porque ele proporcionou isso”, concluiu.

“Impossível” fora do vocabulário

Pediatra pneumologista, Cristina Reis Moreira acompanhou Lucas Neres desde a infância e o surgimento dos primeiros sintomas da doença. “Antes de um ano de idade, ele precisou de oxigênio. O quadro era grave, com comprometimento pulmonar importante.

A convivência dele com a mãe era fantástica, não tem como pensar neles separadamente. Os dois nunca faltaram a uma consulta, nunca chegaram atrasados e nunca usaram a palavra ‘impossível’”, afirmou a médica, que lamenta toda a burocracia do governo ao oferecer um tratamento digno para o paciente.

A dona de casa Tamaia Maiara de Oliveira, 32, compartilha da mesma dor da família de Lucas. Ela tem um filho com a mesma doença. “Os dois se conheceram no hospital. Com a morte de Lucas, meu filho disse que não tem mais vontade de lutar. Ele está arrasado”, acrescentou Tamaia.

 

FONTE: JORNAL DE BRASÍLIA

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