Projeto do HUB faz doação de próteses à população de baixa renda

Antonio Cunha/CB/D.A Press A voluntária Lorena Vieira ao lado de Dierlan Araújo: "A gente conhece a história dos nossos pacientes e fica feliz de poder ajudar de alguma forma"

Projeto do Hospital Universitário de Brasília, ligado à criação de próteses faciais, ajuda a melhorar a qualidade de vida de pacientes.

Um projeto desenvolvido pelo Hospital Universitário de Brasília (HUB) está ajudando os moradores do Distrito Federal a ganhar qualidade de vida e melhorar a autoestima. Alunos do curso de odontologia das instituições de ensino da capital estão produzindo próteses faciais para a população. Pacientes que tiveram algum problema de saúde ou lesão conseguem receber os itens na unidade gratuitamente. Este ano, de abril até junho, 22 próteses foram fornecidas pelo hospital e ainda restam 21 pessoas na lista de espera para serem atendidas. Além do tratamento dentário, outras partes do corpo humano que ficam acima do pescoço são produzidas. Narizes, olhos e bochechas artificiais são confeccionados pelos estudantes da capital.

O programa começou com apenas uma pessoa. Formada em odontologia, a professora Aline Úrsula viajou até São Paulo para realizar especialização buco-maxilo-facial. Quando voltou para Brasília, decidiu implementar a modalidade no HUB. “Tudo começou em 2004. Eu atendia sozinha num projeto de câncer bucal, mas não dava conta de tanta demanda. Foi aí que os alunos começaram a se interessar”, lembra. A professora conta que, no início, os estudantes só observavam, mas depois começaram a participar dos atendimentos. “Era professora voluntária, depois virei substituta. Só em 2010 que o projeto foi oficializado pela Universidade de Brasília (UnB)”, afirma.

Avaliação

Crédito: Antonio Cunha/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia – DF. Reconstrução facial de pacientes vitimas de cancer e lesões. Maria de Araújo, paciente.

Maria de Araújo: “Nunca tinha pensado em procurar atendimento. Tudo aconteceu por acaso e mudou muito a minha vida”
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Hoje, 30 alunos participam dos atendimentos, tanto da UnB quanto de faculdades privadas. As consultas são realizadas todas as sextas-feiras, das 14h às 18h. Para receber a prótese, os interessados devem passar por uma avaliação de um médico, que emitirá o encaminhamento até o hospital. Lá, com o auxílio da professora, a avaliação do quadro do paciente é realizada para assim começar o procedimento. “A partir do primeiro semestre, os alunos podem começar. Também temos profissionais formados que participam como voluntários”, explica Aline. Para ela, a gratificação em realizar o trabalho está na satisfação das pessoas que recebem o tratamento. “Muitos não têm condição financeira. Atendemos quem precisa e não tem onde procurar atendimento. Mas, pra mim, é o melhor dia”, destaca.

Natural da Paraíba, Maria de Araújo, 69 anos, veio com duas filhas viver no Distrito Federal. Moradora do Jardins Mangueiral, ela descobriu o câncer de pele após três anos na capital, em 2003. A doença atacou o olho esquerdo de Maria, que precisou passar por uma cirurgia para remover toda a região. Após dois anos do procedimento, em uma conversa informal com funcionários do Hospital de Base de Brasília (HBB), ela ficou sabendo sobre o projeto desenvolvido no HUB. “Nunca tinha pensado em procurar atendimento. Tudo aconteceu por acaso e mudou muito a minha vida”, afirma. De acordo com a paraibana, utilizar um olho artificial virou parte da rotina diária. “Com a prótese, o povo ainda fica me olhando e eu fico encabulada, mas eu me sinto bem com ela. É o jeito que tem, né? Eu não me sinto bem saindo sem, me acostumei”, conta.

Duração

As próteses não são definitivas, segundo Aline, com o tempo, elas vão perdendo a cor e devem ser refeitas. O próprio HUB recebe os usuários para o retorno. “Pacientes que começam na infância, a gente acompanha até a fase adulta. A medida em que a criança vai crescendo, nós temos que ir trocando. As próteses de olho costumam durar cerca de cinco anos e as demais uma média de dois”, explica.

O aposentado Francisco de Assis Silva Oliveira, 49, não consegue esconder a felicidade ao ser atendido pelo projeto. Ele foi vítima de uma facada no olho direito em 1978. Desde então, passou por três cirurgias até ser encaminhado para receber uma prótese. “Faço acompanhamento com os meninos (estudantes) há oito anos. Aqui, me sinto no céu”, se diverte. Além da prótese ocular, Francisco também recebeu as dentárias. “Eles refizeram quatro dentes da parte de baixo e todos de cima. Foi uma grande mudança de vida”, relata.

Francisco mora no Paranoá com a mãe. Ele ressalta que não teria condições financeiras de arcar com os tratamentos que recebeu no HUB. “Na época, fiz um orçamento só dos dentes, e ficou em R$ 7 mil. O do olho ficou em R$ 3,5 mil. Esse encaminhamento que recebi foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, destaca. Até ser atendido, ele relata que só teve que esperar a recuperação das cirurgias para começar a produção da prótese. “Foi tudo muito rápido. Hoje em dia, não tiro elas nem pra dormir”, brinca.

Crédito: Antonio Cunha/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia – DF. Reconstrução facial de pacientes vitimas de cancer e lesões. Aline Ursula, doutora.

A professora Aline Úrsula: “Atendemos quem precisa e não tem onde procurar atendimento. Mas, pra mim, é o melhor dia”

Gratidão

O atendimento é realizado em dupla pelos alunos, como os estudantes Dierlan Araújo do Nascimento, 36 anos, e Lorena Vieira, 24, contam que assim que souberam da existência do projeto, se apaixonaram pela ideia. “O mais gratificante é quando a gente vê a satisfação dos pacientes”, relata Dierlan. Ele cursa odontologia em uma faculdade privada e ficou sabendo do projeto por uma palestra ministrada pela professora Aline. Lorena estuda na UnB e soube do programa nas próprias aulas. “A gente conhece a história dos nossos pacientes e fica feliz de poder ajudar de alguma forma. Não tem nada mais prazeroso”, afirma.

Passar a utilizar uma prótese causa impactos na vida das pessoas. Aqueles que vivem essa realidade, passam por um processo de adaptação que envolve questões cotidianas, de locomoção e até mesmo de higiene pessoal. Segundo o psicólogo Luís Fernando Resende Arantes, especialista em psicologia clínica, o ser humano tem dificuldade em separar o psíquico do corpo. “Uma prótese pode proporcionar que uma pessoa consiga manter as próprias atividades diárias, sem auxílio de ninguém. A partir dela, elas tendem a manter uma saúde mental mais estável”, explica. Arantes ainda ressalta que uma prótese pode significar a reinserção social, e, no caso das faciais, influencia até mesmo na identidade da pessoa.

* Estagiário sob supervisão de José Carlos Vieira

Atendimento

Segundo a Secretaria de Saúde, o sistema público DF conta com fornecimento de próteses. Os interessados devem passar por um médico que elaborará um relatório e encaminhará o paciente ao Programa de Órteses e Próteses. Após conseguir o encaminhamento do profissional, é necessário comparecer ao Núcleo Ambulatorial de Órteses e Próteses na estação do Metrô da 114 Sul para dar entrada no pedido. A pasta também ressalta que 30 mil órteses, próteses e materiais especiais (OPMEs) foram distribuídas em 2016. Entre janeiro e abril deste ano, foram cerca de 10 mil.

O que é

Especialidade buco-maxilo-facial
Trata de problemas de nascença, traumatismos, anormalidades do crescimento craniofacial, tumores, deformidades estéticas da boca, dentes, maxilar e face.

Do Correio Brasiliense

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