Colegas descrevem aluno encontrado morto na UnB como ‘gênio e talentoso’

Jiwago Miranda, aluno da Unb - Reprodução Facebook

Jiwago Henrique de Jesus Miranda, 33 anos, era estudante do curso de filosofia e foi encontrado morto no câmpus Darcy Ribeiro, na Asa Norte, no sábado. A suspeita é de que ele tenha sido assassinado a pedradas

A morte de um estudante de filosofia da Universidade de Brasília (UnB) despertou comoção e revolta entre os alunos. Jiwago Henrique de Jesus Miranda, 33 anos, foi encontrado morto no sábado, em um matagal próximo à Colina, região de apartamentos funcionais da instituição de ensino. A suspeita é de que ele tenha sido assassinado a pedradas, devido às marcas encontradas na cabeça. O corpo será velado hoje, no Campo da Esperança, na Asa Sul, às 13h. O enterro está marcado para as 16h.
Ontem, o Correio entrou em contato com a 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), onde a ocorrência foi registrada, mas os agentes afirmaram que o caso está a cargo da 2ª DP (Asa Norte). A Divisão de Comunicação (Divicom) da corporação informou que a delegacia responsável “iniciou a investigação colhendo informações e realizando diligências”. No entanto, não deu detalhes sobre o caso. Até o fechamento desta edição, nenhum suspeito havia sido identificado ou preso e o mistério continuava.
Jiwago estudava na UnB há, ao menos, nove anos. Nesse período, formou-se em antropologia, foi internado por transtornos mentais, morou na rua, mas nunca desistiu de estudar. Nos últimos anos, vivia nas intermediações da universidade e era conhecido por boa parte dos estudantes e querido por muitos, que o descrevem com uma pessoa inteligente e talentosa.
“Ele gostava de animes e de música. Como muitos jovens de Brasília ele teve uma banda de rock”, destacou uma amiga no Facebook. “Um gênio que não recebia o suporte e a assistência adequada para seus problemas”, comentou outro colega na rede social. O Departamento de Filosofia, onde completaria a segunda graduação, também se pronunciou e lamentou a morte do estudante.
Nas redes sociais, Jiwago demonstrava o amor pela música. Não indicava preferência por estilo e compartilhava canções com ritmos variados, como MPB, funk, rock e até pagode. A foto principal do seu perfil, a logomarca da UnB, mostrava o orgulho de ser aluno da instituição.
A Secretaria de Comunicação da universidade emitiu nota lamentando a morte de Jiwago e diz aguardar esclarecimento das circunstâncias por parte das autoridades policiais. Garante ainda que está prestando assistência aos amigos e familiares do estudante e decretou luto de três dias, a partir de hoje.
O corpo de Jiwago foi encontrado por um pedestre por volta das 13h30. O homem acionou a Polícia Militar e, por volta das 17h30, a Polícia Civil começou a perícia no local. Poucos minutos depois, a ex-mulher da vítima, Vanice Silva Dantas, 47, chegou. Ela afirma ter sido alertada por um colega sobre o crime. Desesperada, pediu respostas aos agentes, que impediram que ela visse o corpo. Apenas no fim da noite, já no Instituto de Medicina Legal (IML), a mulher reconheceu o ex-marido, o que auxiliou os investigadores na identificação.

Vida conturbada

Jiwago é natural da Bahia e cresceu no município de Bom Jesus da Lapa. Ele é pai de dois filhos, gêmeos, com 6 anos de idade. De acordo com familiares e colegas, sofria de esquizofrenia e bipolaridade e não tinha condições de tomar os remédios, o que ocasionava surtos frequentes. Contra ele, constam dois processos no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios (TJDFT): um por furto, em 2017, e outro por violência doméstica, em 2016.
Vanice viveu ao lado de Jiwago por 13 anos. Eles moravam em Taguatinga, mas, há dois anos e meio, após um surto, ele agrediu a companheira, que precisou sair de casa. “Deixei tudo para trás e passei a viver na rua. Fiquei assim por mais de três meses, não quis voltar, não era pra mim”, lamenta.
Hoje, Vanice mora de favor na casa de uma colega na Asa Sul e trabalha como chefe de cozinha. Ela conta que amigos em comum do ex-casal sempre ligavam para ela alertando sobre o estado de Jiwago. “Eu não podia fazer nada. O que uma mulher de 1,53m vai fazer contra um homem de 1,80m?”, questiona. Ela conta que o ex-marido era bastante estudioso e inteligente. Além da formação em antropologia, concluiria o curso de filosofia este ano e era fluente em cinco idiomas.
Vanice reclama da insegurança no câmpus e da assistência da UnB. A Secretaria de Comunicação informou que a vítima recebia auxílio socioeconômico e acompanhamento psicossocial. “Ele vivia jogado. Ninguém dava assistência”, rebate,  emocionada.
Em nota, a UnB destacou que o corpo do estudante foi encontrado em “área não edificada, um corredor ecológico entre a L3  e a L4 Norte”, mas que, mesmo assim, “é alvo de rondas diurnas”.  “Apesar das dificuldades orçamentárias, a UnB tem investido na melhoria da iluminação e instalação de 350 câmeras”, continua o texto, que reforça ainda a instalação de postes e asfalto em estrada antes de terra na região da Colina.
Do Correio Braziliense.
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