“Não tivemos um dia de lockdown. Apenas uma quarentena meia-boca que ninguém respeita”, afirma pesquisador da UFG

Responsável por modelo de projeção do aumento de casos e mortes em Goiás, Thiago Rangel diz que ataques nas redes sociais são risíveis de tão infantis

Desde o início da pandemia da Covid-19 no Brasil, os gestores públicos são cobrados a apresentar o embasamento técnico que foi utilizado na hora de tomar decisões sobre ampliar as restrições nos Estados e municípios. Até mesmo na hora de retomar as atividades econômicas não essenciais, o presidente da República, governadores e prefeitos precisam explicar como chegaram à conclusão de que aquele era o momento de incentivar a ida de mais pessoa às ruas.

Doutor em Ecologia e Evolução, o professor Thiago Rangel, da Universidade Federal de Goiás (UFG), se juntou aos colegas de UFG José Alexandre Felizola Diniz Filho e Cristiana Maria Toscano Soares para criar projeções de cenários da evolução dos casos e aumento do número de óbitos causados pela Covid-19 no Estado. Até aqui, o pior cenário apresentado nos estudos dos três cientistas tem se confirmado a cada crescimento de pessoas que testaram positivo para o novo coronavírus e a subida da curva de vítimas da doença.

Mas, de repente, começaram a colocar a culpa de tudo nas costas do Rangel. Ou ao menos tentaram nas redes sociais. O pesquisador, que não tem contas em sites como Facebook, Twitter e Instagram, soube por amigos das críticas e memes com seu nome e foto. “Quando chegam para mim através dos meus amigos, acabamos até por dar muita risada. Os ataques são muito infantis. Não são acompanhados de argumentos ou críticas construtivas. Ninguém mostra onde estamos errados.”

Depois da reunião virtual do dia 29 de junho, o sr. sofreu vários ataques nas redes sociais. Como o sr. reagiu às informações que circularam na internet? Por que o sr. acredita que tantas pessoas tiveram uma reação tão negativa após a apresentação das projeções de avanço da Covid-19 em Goiás?
Recebo com relativa tranquilidade. Não tenho rede social. Então não vejo os ataques. Não chegam diretamente a mim. Os que chegam já são atenuados por meus amigos. Alguém me dá notícia de que houve esses ataques. Quando chegam para mim através dos meus amigos, acabamos até por dar muita risada. Os ataques são muito infantis. Não são acompanhados de argumentos ou críticas construtivas. Ninguém mostra onde estamos errados.

Às vezes acredito que quem faz esse tipo de comentário, ataque, não tem qualificação para fazer críticas construtivas ou realmente desejaria que a realidade fosse diferente. Sem considerar o que fazemos, essa pessoa queria que a pandemia não existisse. Nesse ponto, até concordo. Mas infelizmente desejar não é suficiente para mudarmos a realidade.

Na semana retrasada, até tirei um pouco o meu rosto da TV para ver se esse tipo de ataque passava. Já voltei a dar entrevista, principalmente depois de publicarmos a última nota técnica, que inclui todo o detalhamento das projeções que foram apresentadas ao governador e que embasaram o último decreto do fechamento intermitente.

Tem duas coisas que gostaria de destacar. A primeira delas é que disseram que eu sou o responsável pelo lockdown em Goiás. O que é ridículo. Não ganhei voto na última eleição, não ocupo posição de decisão no Executivo. Do ponto de vista formal, não sou responsável por nada. Nem sequer fiz uma sugestão ou uma recomendação ao governador.

Apresentei o resultado de um modelo científico. Quem tomou a decisão foi o governador. A responsabilidade é inteiramente do governador.

Mas a população não entendeu, até de forma equivocada, ao ver os trechos daquela reunião que o sr. diz que o ideal seria um lockdown em Goiás. Mesmo que fosse o ideal, até o sr. demonstrou na ocasião que obrigar as pessoas a ficarem em casa não seria possível. Talvez isso não tenha impactado quem não compreendeu direito os trechos da reunião que foram divulgados?
É verdade. Eu falaria isso de maneira natural. Quando digo lockdown, falo sobre o que os outros países fizeram. Se pegarmos Espanha, Itália, França, a cidade de Nova York, ou mesmo China, Coreia, todos fizeram um lockdown de três meses. Mas aqui não tivemos um dia de lockdown, apenas uma quarentena meia-boca que ninguém respeita. O lockdown nos outros países significa não poder colocar o nariz para fora de casa. É um lockdown parecido com prisão domiciliar.

No Brasil, nos fixamos muito na história de fechar ou abrir o comércio. Na prática, temos arrastado uma luta que não tem como ganharmos desse jeito. Estamos a usar a arma errada. Quando digo que o ideal seria um lockdown, repito: o ideal seria um isolamento de 60% durante um mês. Desocuparíamos hospital rapidamente. Só que precisaria ser decretado um toque de recolher, com um fechamento marcial da cidade, que não ocorreu até agora.

Algo que ficou bem distante de 60% no último final de semana em Goiânia. O nível de isolamento ficou abaixo de 45% nos sete primeiros dias da quarentena intermitente.
Ficou muito distante porque várias prefeituras não adotaram, ninguém vê o risco da mesma maneira e, além disso – não sou da área de políticas públicas nem de ciências políticas -, estamos em um ano eleitoral. Os prefeitos, que são os que tomam as decisões em última instância, estão em campanha. Ficam nesta de não querer desagradar a população porque há uma parcela da população que nem enxerga o risco. Isso é muito ruim. Isso dificulta muito a coordenação em níveis hierárquicos do Estado de combate à pandemia.

Uma das notas mais recentes publicadas aponta para 30% a mais de mortes por Covid-19 em Goiás do que as que constam nos dados confirmados. Na terça-feira, 7, [quando a entrevista foi concedida] a Secretaria Estadual de Saúde confirmou 715 óbitos. O cenário é de fato pior do que aquele apresentado pelos dados confirmados?
É preciso entender que entender que existe uma defasagem natural. Isso não é culpa de ninguém. É culpa da pandemia. Não é possível apontar o dedo para um gestor. Existe uma defasagem entre o evento óbito e o evento notificação do óbito. Essa defasagem tende a aumentar na medida em que a pandemia avança para prefeituras do interior com cada vez menos recursos.

A estimativa atual [de terça-feira] é que enquanto falamos já ocorreram entre 950 e 1.050 óbitos [considerando que a defasagem seria de 30%, podemos estar com até 1.101 mortes, já que os dados oficiais da noite de sábado, 11, davam conta de 847 vítimas confirmadas]. Provavelmente cruzamos a linha dos mil óbitos na terça-feira. Ainda levaremos de dez a 20 dias para que os óbitos ocorridos na semana retrasada sejam computados naquela estimativa oficial.

Quando olhamos para trás e são computados os óbitos, não pela data da notificação, mas pela data do evento óbito, fica muito clara a diferença, a defasagem, o atraso de tempo entre o que ocorre no momento e o que é notificado. Posso dar exemplo, porque tenho compilado as publicações há muito tempo.

No dia 26 de junho, as notificações informavam que tínhamos cruzado o número de 400 óbitos. Chegamos ao final da noite de 26 de junho em 406 óbitos reportados pela secretaria. Dez dias depois, em 6 de julho, quando olhamos os dados pela data do evento óbito, no dia 26 de junho tínhamos cruzado 500 óbitos. Fechamos o dia com 525.

Enquanto a secretaria reportava 406 óbitos, já tinham morrido até o final da noite de 26 de junho 525 pessoas em Goiás. Isso se não forem notificados novos óbitos, que podem até elevar aquele número. Porque notei recentemente que, de tempos em tempos, notifica-se óbitos de abril, notifica-se óbitos de maio que ainda não entraram para a estatística oficial. Quando acompanhamos em que data cada óbito ocorreu e é notificado, podemos entender melhor a defasagem.

Parte das críticas feitas na internet trouxe questionamentos sobre a competência dos três pesquisadores responsáveis pelas projeções em Goiás, tanto direcionadas ao sr. quanto ao José Alexandre Felizola Diniz Filho, que foi seu orientador na graduação e no mestrado, e à professora Cristiana Maria Toscano Soares. Mas a sua área de atuação é modelagem e distribuição de espécies, estatística espacial, métodos de estatística e simulações computacionais, que tem ligação direta com o trabalho realizado. O que distancia as pessoas do que de fato é feito?
Tem dois problemas. O primeiro é um problema de má-fé, de tentativa de desqualificação, que é um efeito avestruz: enfiarei a minha cara no buraco porque a realidade desaparecerá e o mundo voltará a ser cor-de-rosa, como eu gostaria. É uma tentativa de desqualificação para levantar um descrédito ou uma desconfiança no trabalho que é feito.

O que as pessoas não entendem é que desde que Galileu comandou a revolução científica, argumento de autoridade não tem valor em ciência. Não importa a minha titulação. O que importa é o modelo que construímos. Você não precisa atacar a pessoa, basta atacar o trabalho.

Isso me leva à segunda questão que tem por trás: as pessoas não compreendem o que é e como funciona a ciência. Que diferença faz se um dia na vida fiz um trabalho que usa dados de beija-flor? Fiz mesmo, até mais de um. Tenho muito orgulho desses trabalhos. Não sou ornitólogo. Até teria o prazer em ser. Não sei identificar espécie de beija-flor. Não entendo quase nada sobre beija-flor. Mas as mesmas técnicas científicas que uso para estudar Covid-19 são as que usei para estudar beija-flor.

De que maneira? Eu estudei linhagens de beija-flor. São exatamente as mesmas técnicas computacionais e estatísticas que são usadas para mapear as linhagens do vírus Sars-CoV-2. “Mas tem uma cepa do vírus diferente no Sul em relação ao que está na Europa e na comparação com a que está nos Estados Unidos.” Se estuda isso com as mesmas técnicas que eu domino.

Desde a minha graduação, já acumulo mais de 20 anos de experiência em estatística, modelagem e simulação computacional. Essa é a minha formação do ponto de vista de ferramenta de trabalho e especialidade. Como objeto de estudo, já trabalhei com espécies e com línguas humanas. Onde se tem mais línguas, onde se fala línguas mais diferentes. Não conseguiram pegar esse trabalho porque o título está em inglês.

Na verdade, pegaram o beija-flor – acho até muito engraçado – porque abriram meu currículo Lattes e talvez a única coisa que esteja escrita em português seja os beija-flores. Não conseguiram sequer traduzir o resto. Senão teriam até encontrado alguns mais exóticos. Já trabalhei com bactéria, com dinossauro. Nada disso é o foco da minha pesquisa. Já trabalhei com simulação de dados de arqueologia.

É uma incompreensão de como funciona a ciência misturada com uma tentativa de desqualificação baseada em argumento de autoridade. Será que se fosse um médico existiria esse tipo de argumento? Provavelmente não. Arranjariam outro. Mas significa que um médico teria a mesma capacidade de simulação e modelagem computacional que eu tenho? Provavelmente não. No Brasil, em geral, os médicos não têm esse tipo de formação.

“É um efeito avestruz: enfiarei a minha cara no buraco porque a realidade desaparecerá e o mundo voltará a ser cor-de-rosa, como eu gostaria”

Feira Garavelo - Aparecida de Goiânia - Foto: Reprodução

“O que as pessoas não entendem é que desde que Galileu comandou a revolução científica, argumento de autoridade não tem valor em ciência” | Foto: Reprodução

Outra questão que chama atenção em relação às criticas feitas ao sr. é o questionamento aos resultados das projeções apresentadas. Até o momento, o cenário crítico apresentado nos dados se tornou realidade. Mesmo com essa precisão, cabe a crítica? Se sim, a que ponto do trabalho?
Justificaria as críticas na má-fé. São pessoas que gostariam que a realidade fosse diferente. E estou junto com essas pessoas no desejo. Mentalmente, o que sei que não ajuda muito, também queria que a realidade fosse diferente. Como cientista, estou apegado à realidade e preciso de evidências.

Há também a falta de compreensão do que significa um modelo. Um modelo para um sistema dinâmico e complexo como uma sociedade de 7 milhões de pessoas não tem uma precisão matemática que teria um modelo físico, um modelo mecânico ou até um sistema eletrônico. Não temos essa capacidade em uma sociedade com tantos agentes independentes.

Fizemos projeções. Fomos absolutamente claros, explícitos e transparentes nas nossas projeções. Sabemos que chegará um momento em que o modelo perderá a tendência. Sabemos disso como cientistas, que o nosso modelo não é perfeito. Isso não é uma bola de cristal.

A maior falta de compreensão em relação a como a ciência funciona diz respeito à origem das incertezas. É claro que existe incerteza nos parâmetros epidemiológicos: quantas pessoas ficarão doentes, quantos leitos são necessários, quanto tempo leva a incubação, se o isolamento social é uma medida perfeita para capturar a velocidade de transmissão. Todas são incertezas pertinentes e inerentes ao modelo.

Mas a maior fonte de incerteza não está no modelo. Está em como a sociedade se comportará. Em abril, quando criamos dois cenários, um em que o isolamento era baixo e tendia a cair e outro cenário no qual o isolamento permanecia constante, não tínhamos bola de cristal para saber quanto a população iria se convencer da necessidade de se isolar.

Até mesmo nas últimas notas técnicas, continuamos com as mesmas incertezas. Não sabemos se o decreto do governador irá funcionar, se as pessoas serão convencidas, se o prefeito do interior adotará uma medida de 14 por 14. Se existe uma incerteza muito maior do que a incerteza científica é a incerteza sobre o futuro e como a sociedade responderá ao isolamento. Essa é a nossa maior fonte de incerteza.

E como lidamos com essa incerteza? Não fazemos previsão. Não dizemos o que irá ocorrer. Fazemos uma projeção de cenários alternativos. Não temos um único cenário porque não sabemos como a população irá responder. Temos um cenário superior, um cenário inferior, que são o pior e o melhor cenários, servem para estabelecermos limites dentro do que é possível ou mais provável.

As pessoas fazem a crítica específica aos 18 mil óbitos do cenário vermelho. Mas a notícia não é que a UFG ou o modelo prevê 18 mil óbitos. Isso não é uma previsão, é uma projeção. A notícia é: o modelo da UFG projeta que, no pior cenário, morreriam 18 mil pessoas em Goiás até setembro. Ou, se quiser simplificar: a Universidade Federal de Goiás projeta que devem morrer menos de 18 mil pessoas até setembro.

Da mesma maneira, temos um cenário ideal, no qual todas as pessoas obedecem o isolamento e morrem 4 mil até setembro. Esse não deu muita notícia. Mas a manchete seria: UFG projeta que devem morrer mais de 4 mil pessoas. Entre 4 mil e 18 mil, quem decidirá o que irá ocorrer é a sociedade. Não é o modelo.

A maior preocupação veio porque as projeções de cenário mais crítico se tornaram realidade.
Verdade. Até agora. Eu realmente nunca acreditei que o cenário vermelho, o pior dos três cenários, seja plausível. Plausível no sentido de que existe maior chance de ocorrer daquela maneira. Apesar disso, o pior cenário tem ocorrido até agora. A sociedade não aceitaria aquele número de 18 mil mortos. Principalmente com o colapso hospitalar.

O sensacionalismo e o alarmismo não vêm da nossa parte. Viria da nossa parte se tivéssemos proposto uma previsão do número de óbitos com o pior cenário. Isso nós não fazemos. Dessa maneira, nós apresentamos uma faixa, um intervalo da possibilidade de crescimento de casos, para que a sociedade esteja ciente tome a decisão de qual é o número de mortes aceitável em Goiás, que deve estar entre 18 mil e 4 mil.

O grupo de pesquisadores se viu em uma situação de ter de rebater informações dadas por presidentes de entidades sindicais. Como é lidar com o resultado das projeções elaboradas a partir do modelo criado, a frustração da sociedade, que gostaria de sair de casa para correr no parque ou passear no shopping e o empresário que quer abrir sua loja e joga a culpa no governante e no pesquisador?
É um conflito muito grande de perspectivas e expectativas. Nos países que conseguiram lidar melhor com a pandemia, principalmente os países europeus, existe um alto grau de confiança nos governantes e nos cientistas. Quando um cientista de uma agência governamental diz alguma coisa, as pessoas prestam atenção porque confiam. Ainda que exista incerteza, sabe-se que aquele cientista ou grupo de pessoas tenta proteger a sociedade.

No Brasil, existe uma desconfiança endêmica, sistêmica, nas autoridades. Isso é cultural. É causada por uma onda contínua de escândalos de corrupção, de desmandos e de judicialização das tomadas de decisão. Na nossa sociedade, quando um governante toma uma decisão ou é aconselhado por alguma entidade científica, as pessoas, quase que automaticamente, desconfiam daquela ação de maneira cega.

Você não precisa de argumentos. Como você já não tinha razão para confiar, aquilo segue o padrão. Nas sociedades mais organizadas nos países europeus, as pessoas confiam na tomada de decisão e reagem de maneira unificada e organizada. Aqui, quando um governante toma uma decisão, tudo é muito polarizado, tudo é muito politico. As pessoas têm razão para propor teorias conspiratórias, duvidar, achar que existem interesses escusos.

Isso resvala no comportamento das pessoas em relação aos cientistas. Se um governante toma uma decisão com base em um modelo ou informação científico, aquele dado deve ser igualmente suspeito. As pessoas não duvidam da previsão do tempo da mesma maneira que duvidam da projeção da Covid-19. Porque aquilo tem um contexto político, irá afetar as pessoas.

Na terça-feira, ao anunciar que o teste deu positivo para Covid-19, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) convocou a imprensa e tirou a máscara ao dar a notícia de que está com sintomas leves da doença e depois falou, mesmo que com máscara, muito perto dos repórteres. Que tipo de interferência comportamentos assim têm na atitude da população?
Esse mau exemplo é bem representativo daquilo que acabei de dizer sobre as teorias conspiratórias e a politização de um fenômeno natural. O presidente talvez seja uma das maiores fontes do ruído de politização de absolutamente tudo. Da politização, inclusive, de um vírus. Como se um vírus tivesse interesses.

A posição do Bolsonaro de negação do sistema, das instituições e da ciência é muito antiga. O presidente foi um dos deputados que votou a favor da pílula do câncer [projeto de lei que liberava o uso da fosfoetanolamina no Brasil tinha como autor Jair Bolsonaro]. O presidente tem esse comportamento histórico, que é causado por um defeito, uma falha, na formação educacional e cientifica de Bolsonaro.

O presidente não faz a menor ideia de como funciona a ciência. Bolsonaro propaga as fake news a respeito de cloroquina e todos os outros tratamentos não reconhecidos cientificamente com o argumento de que se não fizer bem, pelo menos mal não faz.

Mas o que Bolsonaro não entende é que temos 200 anos de história no desenvolvimento da medicina, quando a medicina se tornou mais científica, que mostra que, de fato, se uma coisa não tem efeito e é tratada como se tivesse, aquilo faz um mal para o coletivo. Porque as pessoas irão tomar aquilo e acharão que estão protegidas, quando, na verdade, não estão. Em uma pandemia, essa era a última sugestão que queríamos, que as pessoas acreditassem em um medicamento que não tem eficácia.

Outra coisa que Bolsonaro não entende é a diferença entre um medicamento que não tem confirmação da sua eficácia e um que tem a confirmação da não eficácia. A cloroquina está na segunda categoria. Existe confirmação da não eficácia. Não é que não existe a confirmação da eficácia e pode ser que funcione. Não. Já foi confirmado que não funciona. Toda esta rede de espalhamento de notícias falsas e as pessoas suspeitarem de absolutamente tudo que as autoridades falam e determinam gera esse ruído e essa ação destoante na sociedade.

Qual é a principal vítima disso? Vários estudos mostram qual é a principal vítima. No nosso País, extremamente estratificado em classes sociais e raciais, a Covid-19 afeta muito mais os menos confortáveis economicamente e socialmente. Esses não estão exatamente no foco do radar de Brasília. Não estão preocupados com as classes C e D, que são mais vítimas. Os empresários também não estão preocupados com as classes C e D. Os empresários não estão preocupados com o ônibus lotado.

Se você fizer um mapeamento do efeito da Covid-19 no País, há um grande ente de Norte para Sul, onde o Norte foi mais afetado e locais com menos IDH são mais afetados. Se você olhar a estratificação por raça, verá a mesma coisa. Pretos e pardos são mais afetados por Covid-19. Ficamos aqui nessa discussão intelectual e que, por sinal, eu adoro, mas a principal vítima deste tipo de ruído no comportamento da população são as tradicionais classes menos privilegiadas do Brasil.

Por Jornal Opção

A Covid-19 vem para escancarar as discrepâncias sociais que temos. A classe A quer a abertura imediata de tudo porque tem hospital privado e UTI aérea. É muito fácil querer proteger a economia quando você não pensa em quem são as reais vítimas.

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