Leo Dias entrevista Carolina Ferraz: “Amor próprio é ferramenta para evoluir”

A atriz e apresentadora se abriu em um papo sincero no qual falou de trabalho, maternidade e dos projetos para o futuro

Aos 52 anos, Carolina Ferraz está, cada vez mais, dona de si mesma. E esta entrevista cheia de boas energias dá grande medida disso. Primeiro, pelos seus novos desafios na televisão. Ao aceitar tornar-se apresentadora do Domingo Espetacular, da Record, Carola não quis apenas repetir uma experiência do passado — ela já esteve à frente do Fantástico, por exemplo —, mas construir algo novo.

“Uma das coisas que mais me animou nesse projeto de ser novamente apresentadora é poder ter minhas matérias dentro do programa. Porque eu queria ter voz, eu não quero chegar e simplesmente ler o teleprompter. Eu quero me envolver, quero participar das pautas, quero sair a campo”, disse ela a Leo Dias. Além disso, Ferraz fala das vivências maternais — a atriz é mãe de Valentina, de 25 anos, e Izabel, de 5 anos — e de como se tornou uma youtuber à convite do Google (diferentemente de como dissemos no vídeo, ela foi convidada pela empresa e não contratada). Carolina diz até quando pretende se aposentar!

Leo Dias – Nossa entrevista de hoje é com uma goiana chamada Maria Carolina Álvares Ferraz, que dispensa apresentações. Carolina Ferraz, muito obrigado por participar da nossa entrevista.

Carolina Ferraz – Eu que agradeço, Leo. Você tá o maior gato, moreno, lindo de morrer.

É um momento muito especial da sua vida e eu queria que você sintetizasse. Você está à frente do Domingo Espetacular, que a gente já percebe uma mudança não só por você estar apresentando, mas uma mudança editorial, né?

Eu estou super feliz. Eu vou pra lá. Além do fato de estar trabalhando, poder sair de casa desse isolamento em função da quarentena, eu tava sem sair há quase quatro meses. Encontrar pessoas, estar ali com meus pares, entrar no estúdio de televisão. Eu to amarradona, to super contente. Eu to sendo muito acolhida lá dentro por todos eles. A gente ficou muito tempo namorando até esse namoro dar em casamento e finalmente a gente acertar tudo. Uma das coisas que mais me animou nesse projeto de ser novamente apresentadora, eu acho que eu já tava meio que me encaminhando para essa direção, é poder ter minhas matérias dentro do programa. Porque eu queria ter voz, eu não quero chegar e simplesmente ler o teleprompter. Eu quero me envolver, quero participar das pautas, quero sair a campo. Então isso tá sendo muito bacana, eu to muito feliz.

Isso foi um pedido seu na hora da negociação?

Foi um pedido meu e eu acho que eles nem imaginavam. Queriam uma apresentadora e de quebra levaram uma repórter

O combo inclui reportagens.

Se não puder fazer reportagens, eu não quero. Eu quero consolidar esse momento mesmo como apresentadora, eu já tenho esse projeto de estar apresentando, estar a frente de um programa há muito tempo. Eu acho que o YouTube me deu essa possibilidade, abriu muitas portas para mim, no sentido que eu pude me posicionar 360 graus. Eu cozinho, eu faço matérias, eu falo sobre moda. Então isso é muito legal. E quando veio o convite da Record eu falei: deixa eu pôr a mão na massa de uma outra maneira porque essa Carolina apresentadora as pessoas já conhecem. Essa que vai a rua, que faz matérias, que tem um corpo a corpo direto com as pessoas, eu acho que isso aproxima também com o público, essa as pessoas ainda não conhecem. Mas vamos levar ela junto? E eles graças a Deus gostaram da ideia e me deram essa possibilidade.

E quais são as pautas que você sugere para essas reportagens que você faz na rua? As sugestões vêm de onde? Qual a sua inspiração?

São coisas que vem deles e vem de mim. A gente resolve as coisas juntos. Eu gosto muito de fazer matérias sobre comportamento. Todas as matérias que tenham um cunho de comportamento são matérias que me interessam. A gente fez uma matéria em que eu vou na feira no horário da xepa e pego todos os alimentos que estavam em caixas para serem descartados. Levei comigo para uma cozinha e a minha obrigação é fazer uma refeição com esses alimentos que seriam descartados e depois eu saí distribuindo essas marmitas pela rua para falar de desperdício, de conscientização social. Isso engloba tudo. A gente gravou outra matéria conversando sobre esse novo conceito que está surgindo, o movimento que se chama minimalismo, onde as pessoas buscam uma vida que elas se relacionam só com o que é essencial. E é claro que cada um tem um essencial. O que é essencial pra mim pode não ser pra você. Tem gente que não abre mão de morar numa casa, num apartamento. Mas já tem gente morando nessas tiny houses, que são casinhas sobre rodas, que são verdadeiras casas, tem o maior conforto, tem tudo, tudo é utilitário, inteligente. E essas pessoas vivem aí, a vida delas é muito mais simplificada em função desse modo de viver, que inclui o que eles comem, o que fazem com o lixo. Todas essas coisas de tendência de comportamento social eu gosto muito. Mas eu gosto de fazer entrevista, gosto de fazer um monte de coisa. São só três semanas que eu tô lá, daqui a pouco a gente vai fazer mais coisas.

Mas é interessante isso, principalmente nesse momento de pandemia, que até os valores estão mudando. O que era essencial antigamente talvez não seja mais tão importante na nossa vida não é isso?

Sem dúvidas. Quando a gente tá se relacionando com um fato objetivo como salvar vidas nossa escala de valores no mínimo a gente para pra pensar sobre ela. Eu acho que muita coisa mudou, muita coisa ainda vai mudar, muita coisa também vai permanecer. Mas cabe a cada um de nós individualmente procurar uma conexão com coisas que vão contribuir. Porque tá muito nítido que o lifestyle que a gente vivia tá fora de ordem. A gente tem que repensar um pouco a nossa relação com o meio ambiente, com a natureza, com o próximo, dentro do próprio local de trabalho, em todas as esferas. Eu acho que muita coisa pode sair disso sim. Pena que é um preço alto.

É um preço alto. São muitas vidas sendo perdidas. Mas fazendo uma pergunta fora do script, a sua vida é muito impressionante. Dá um livro. A impressão que a gente tem sua das novelas, do mundo artístico, talvez seja uma impressão errada. Você vem de uma família simples de Goiânia, correto?

Não. Eu nunca fui rica. Mas minha família era classe média alta. Eu fui criada em bons colégios, eu tive acesso a educação, a gente viajava. Éramos uma família de classe média alta estabelecida dentro do círculo social de Goiânia, nós fazíamos parte. Minha mãe fazia parte do Lions, do Rotary, tinha todo esse parangolé que na época existia.

São clubes?

Sim, são clubes, coisas de antigamente. Você não tem obrigação de saber o que é. É coisa de gente bem velha que meus pais participavam. Meu pai, sim, foi um rapaz muito humilde, ele era bem pobre, foi entregador de leite quando pequeno. É um cara que se fez na vida em uma época em que ainda havia oportunidades para pessoas em nível de pobreza. Ele conta que ganhava cabo de vassoura no Natal e achava lindo para brincar de cavalinho. Isso era o que o pai dele podia proporcionar para ele. E ele conseguiu estudar, se formou, venceu, trabalhou, conseguiu ganhar muito dinheiro. Sempre foi uma pessoas muito capaz, muito criativa. Minha mãe já era uma donzela. Minha mãe era uma menina de uma família tradicional mineira, tinha mais dinheiro que meu pai, minha mãe foi Miss Uberlândia. Eu sou filha de Miss! Minha mãe é uma mulher muito bonita. Eles se apaixonaram e viveram 27 anos juntos até que meu pai faleceu. Essa é minha história.

Você foi para São Paulo jovem?

Eu cheguei em São porque as famílias tanto do meu quanto da minha mãe moram em São Paulo. Eu tenho só dois tios que moram em Belo Horizonte, todos os outros moram ou moravam em São Paulo. Então, quando o meu pai morreu, eu não tinha parentes em Goiânia. Inclusive, dos irmãos, eu sou a única que nasceu em Goiânia. Aí a gente voltou para São Paulo. Meu pai faleceu eu tinha 14 anos, aos 15 a gente já estava aqui em São Paulo. E aí eu acho que a história já fica um pouco mais pública porque foi quando eu comecei a modelar, a dar aula de balé. Aí eu coloquei meu bloco na rua.

Esse seu porte é graças ao balé?

Tenho certeza, o balé dá essa postura.

Eu comecei a trabalhar muito jovem no jornalismo de celebridades, bem no auge dos paparazzi. Eu era repórter iniciante da revista Contigo e eu lidava diariamente com os paparazzis. Tinha um amigo meu que era motoboy da Contigo, ele entregava revista, e ele acabou virando paparazzi por causa da moto, porque era fácil se deslocar. E você foi alvo dos paparazzi.

É uma coisa louca a gente contar isso hoje. As pessoas não fazem ideia. Teve fase da minha vida que eu tinha cinco carros parados na porta da minha casa. Em que eu ia levar minha filha na escola e as pessoas perguntavam o que aconteceu comigo, o que aconteceu com a Ana Paula Arósio.

Eu lembro da Giovanna Antonelli ser muito perseguida também. E alguns momentos específicos era uma vida infernal.

Sempre em momentos dramáticos, quando morre alguém, ou alguém se separa. Quando alguma coisa violenta ou agressiva acontecia, as pessoas ficavam muito em cima da gente. O que diria hoje em dia em que todo mundo tem um celular? Foi uma profissão que caiu por terra. Hoje em dia isso não existe.

Eu me lembro perfeitamente que na redação o pessoal reclamava que você morava onde era muito difícil parar o carro, uma curva perto do Morro do Vidigal. Você já teve algum confronto de ir lá falar ou chamar a polícia para pedir ajuda depois de se sentir perseguida?

Eu sou uma pessoa muito transparente. Uma vez eu estava me separando, é um momento complexo, eu tava com minha filha dentro do carro. Eu disse: eu entendo que vocês estão trabalhando, mas eu to com minha filha no carro, vou levar ela na escola, não vou fazer nada. Então houveram vários momentos que eu confrontei. Não adiantou, mas eu fiz mesmo assim.

É mostrar que não é inatingível, dizer vou ali e já volto.

Eu vou ali, vocês já devem saber onde é a escola dela, não to escondendo nada. Mas eu não quero que ela seja vítima disso. Ela não tem nada a ver com isso. Nos Estados Unidos existem leis que protegem as crianças, aqui não existe. Essas leis não foram implantadas aqui no Brasil. Mas hoje com a internet as pessoas podem falar o que elas quiserem, do jeito que elas quiserem, e aí o estrago já tá feito. Por isso que hoje é muito mais importante como você se comporta, o que você fala, se tem responsabilidade, porque as pessoas podem interpretar qualquer coisa de um modo errado e aquilo virar alguma coisa que não tem nada a ver. Então eu acho que todo mundo tem que ser mais responsável, tanto a parte de cá quanto a parte de lá, do jornalista também.

E o público tem que procurar veículos de credibilidade para confiar naquilo que está sendo falado.

Exatamente.

Você é contratada do Google. Como é essa relação que pouca gente sabe? Quando você criou o seu canal foi uma criação com o próprio Google?

Eu fui convidada. Fiquei tão contente também. Quando eu estava fazendo O Astro, eu conversava muito com a Alinne Moraes, que dizia para eu ter Instagram. E aquilo ficou na minha cabeça. Eu comecei a prestar atenção como a relação das pessoas com o meio de trabalho mudou a partir do momento que você tem a sua plataforma digital aqui na sua mão. Comecei a ver coisas que eu fiquei impressionada. Tem uma história que eu acho muito emblemática. Eu vi um tapete vermelho de Hollywood que estava passando a Sarah Jessica Parker. De repente para uma blogueira chamada Chiara Ferragni, que é a mãe das blogueiras. Elas se conheciam, pararam para tirar uma foto juntas. Não satisfeitas, vem a Nicole Kidman e se junta para a foto. Isso mudou minha relação com a coisa. Não tem nada a ver com prestígio, com notoriedade. A gente trabalha para ser respeitado, para ter prestígio. Nada é fácil. Hoje em dia com meu celular eu posso mandar uma mensagem por Will Smith. Ele pode não responder, mas ele vai receber. Chega até ele. Horizontalizou. Eu acho que nunca foi mais importante do que agora ter um conteúdo. Eu sou aquariana, sou antenada, tem 500 assuntos que eu quero falar. E comecei a trabalhar no meu Instagram de uma maneira mais comunicativa. Eu sou uma atriz, tenho 52 anos, estou em outro momento. Não sou uma pessoa que vou ficar coordenando cinto com sapato. Mas eu quero mostrar minha vida, apresentar meu lifestyle. Eu acho que eu posso fazer coisas que se comunicam com a minha verdadeira essência. Também descobri que quanto mais honesto a gente for, mais chance a gente tem de ter êxito, porque a gente não consegue enganar as pessoas. O que me diferencia de qualquer pessoa é o que eu sou. Tem sempre alguém mais bonito, mais inteligente, mas o que eu tenho só eu tenho. Então isso me deu um hello e eu comecei a trabalhar com a plataforma digital de um jeito um pouco mais profissional na minha cabeça. Sempre fiz tudo sozinha, nunca tive equipe comigo. Então quando veio o convite do Google eu pensei: eu não tenho o perfil, não tenho esse público, que é uma galera muito nova. Mas eles falaram: a gente fez uma pesquisa no Brasil com 200 nomes de todas as áreas e você é um dele, a gente quer você, a gente acha que seu conteúdo é interessante. Eu fui para casa e pensei “Por que não?”. Eu vou fazer o que eu faço, o que gosto de fazer, vai que dá certo. E a gente começou o canal em outubro, ou novembro. E desde maio pra cá o canal já cresceu mais de 70%. Estamos acertando. Não é um canal onde eu fico fazendo tutorial, ou o que eu acho que a maior parte dos youtubers fazem. Mas é aí que eu acho que entra a questão geracional mesmo. Eu to fazendo as coisas que eu gosto de fazer com a maior liberdade democrática possível. Eu gosto de cozinhar, de fazer essas matérias. Aí eu misturo tudo lá e deu super certo, estou amarradona, amo meu canal no YouTube.

Você representa a mulher moderna. Eu queria que você desse umas dicas, como mãe, como mulher, que mora em um centro urbano. O que você diria nesse momento de pandemia, em que a gente pensa um pouco mais sobre si próprio e sobre o outro também.

Eu vou falar uma coisa que você pode achar meio piegas, mas eu tenho conversado com muitas pessoas sobre o que é espiritualidade, tenho feito várias lives sobre o assunto, é porque eu to pensando muito sobre isso. No início dessa pandemia eu tive uma crise de conteúdo muito grande. Eu não quero ser a pessoa que vai fazer a diferença, mas eu quero pelo menos acrescentar alguma coisa. Eu sofri. Há dias melhores, dias piores, dias que eu fico mais triste, dias que bate uma ansiedade. Mas eu sou uma pessoa solar. Eu jogo o negócio pra cima, me conecto com as coisas legais, eu tenho isso como um comprometimento meu. Eu acho que o que pode fazer a diferença e de fato faz a diferença é a gente achar uma maneira de se encontrar com o nosso amor próprio. Eu acho que ter amor próprio é a única ferramenta pra gente evoluir, seja espiritualmente, seja profissionalmente. Hoje em dia, onde todos nós somos criadores de conteúdo, todo mundo tem acesso às mesmas ferramentas que eu tenho. Se eu não partir de coisas que eu de fato acredito, de fato acho bacanas, não vai ter diferença nenhuma entre o que eu crio e o que qualquer um cria. E você tem que ter amor próprio sim, porque você tá com os flancos abertos, as pessoas vão te atacar também. As pessoas são anônimas, tem os haters. Quem são os haters? A gente não sabe, é o poder da massa. Ninguém é um indivíduo. Coisas muito boas acontecem, mas eu sei que coisas muito ruins também podem acontecer. Graças a Deus as pessoas me tratam muito bem. Eu tenho muito carinho pelas pessoas e as pessoas por mim.

Alguma opinião do outro te abala?

Isso é uma coisa que eu trabalho pra caramba. Eu posto uma foto. 399 comentários de beijo, coração, linda. Uma pessoa que diz: ah, você tá com uma espinha no nariz. Você só lembra da mulher que falou da espinha. Olha a cabeça da gente. Aí vem o amor próprio, é por isso que eu to falando, nao é a troco de nada. Tudo bem que eu tenho uma espinha, vamos nessa.

Mas você responde a quem fala da espinha ou você ignora ou deleta?

Depende. Coisas que eu acho pertinente eu respondo, o que eu acho que não merece eu não respondo. Mas eu converso com todo mundo. Às vezes eu demoro porque sou eu que faço tudo sozinha, mas eu tento falar com todo mundo e dar atenção. Mas algumas contas você vê na hora que é um robô, tem duas fotos publicadas, segue 350 pessoas e tem 3 seguidores.

Ela usa aquele Instagram só para disseminar o ódio, a raiva, e causar um incômodo no outro. Usa aquilo só para isso.

Aí eu não respondo. Eu estava conversando com o dr. Álvaro Avezum, que é um cardiologista super bacana aqui de São Paulo, ele é diretor do Centro de Pesquisas Internacionais do Oswaldo Cruz e ele trabalha a medicina junto com a espiritualidade. Ele acredita que é muito mais provável que um paciente adoeça ou que tenha uma recuperação sofrida se ele carregar rancor, mágoa, raiva, inveja, e que isso interfere diretamente na sua saúde. Então quer dizer que ser gente fina é bom pra saúde? Então vamos ficar de bem um com outro. Embasado em fatos científicos.

Você é assim o tempo todo? Uma pessoa que tá sempre pra cima, sempre animada?

Eu sou super animada. Mas eu também fico chateada, eu choro até em cena de novela. Eu me emociono. É quase cafona. Mas eu diria que eu sou uma pessoa que tem muita energia, eu sou muito solar e eu procuro isso mesmo. Eu acho que isso me salva. Eu não acho que eu procuro isso só porque é um traço da minha natureza. Eu entendi que isso me ajuda muito. Talvez nem todas as pessoas saibam, mas eu já passei por situações de perdas muito difíceis, já passei por histórias muito barra pesadas na minha vida e eu entendi que é esse amor próprio, esse calor humano, que primeiro é o que me mantém íntegra, e eu pretendo seguir íntegra até o final, e é o que me salva, faz bem pra mim.

Vamos falar sobre a criação de filhas, de criar meninas.

Nem sei o que seria criar meninos, só tenho mulher.

Mas você lida bem com um ambiente com mais homens?

Eu tenho muitos amigos homens, mas também tenho muitas amigas mulheres. Eu adoro mulher, me dou bem, trabalho bem com mulheres. Eu entendo muito rapidamente o que é característica de mulher, o que é característica de homem. Acho que tenho muito yang também. Eu tenho sorte. A Valentina é uma menina super bacana, é uma menina de ouro. Ela é formada em Economia Analítica e Matemática Avançada. Conseguiu se formar um ano antes na faculdade, tão boas eram as notas dela. Ela já recebeu convites de três universidades da liga americana para fazer pós lá fora. E eu até acho bom que ela preferiu ficar agora aqui comigo, ela já ficou nove anos morando fora. Ela é uma fofa, brilhante, divertida, um presente. Nunca me deu trabalho. Aí veio a Isabel que é essa espoleta. Eu até brinco que a Valentina é uma lady e a Isabel é uma rapper. A Isabel é animada, é da pá virada, se estivesse aqui ia querer sentar no meu colo, falar com você. Eu acho que a Isabel vai ser artista. A Valentina não quer nada com isso. A Isabel canta, dança, é muito bonitinho de ver. E são todas muito conectadas comigo e eu a elas. A gente vive uma vida de mulherzinhas aqui todas nós. É uma delícia. Que bom que eu tive a Isabel mais velha. Eu nem pensava mais em ter filhos, mas eu me casei e o pai da Isabel nunca tinha tido filhos. Quando você casa com alguém, você espera passar o resto da sua vida com aquela pessoa, daí o mínimo que deveria fazer era tentar ter um filho com ele, era o que ele queria. E foi ótimo porque que presente é a Isabel na vida da gente.

Ser mãe mais velha é outra história, né?

Eu acho que é. Tem uma coisa que é pior, verdade seja dita, a gente foi feita para parir mais cedo. Ninguém foi feita para parir mais velha. Ai que luta para emagrecer, é celulite até na orelha. E eu fiz inseminação, então eu tomei hormônio pra caramba, não foi fácil. Embora eu não tenha tido nada, passei muito bem a gestação. Um dia antes do parto eu saí pra jantar com meus sogros que foram acompanhar o parto no Rio, jantamos, tomei meu copinho de vinho, no dia seguinte foi tudo certinho. Mas nós definitivamente fomos feitas para parir cedo e cada vez nós postergamos mais por causa das nossas vidas profissionais. É uma consequência da vida e do momento que a gente tá vivendo. É diferente, mas é igual porque eu sou a mesma Carolina que viveu 20 anos a mais. Eu diria que eu sou mais permissiva com a Isabel. Com a Valentina fui um pouco mais rígida. Você acredita que se algumas coisas forem praticadas elas farão de fato diferença e que não fazem. Então eu sou bem mais permissiva com a Isabel e eu acho que quem ganha com isso somos nós duas. Nesse período de pandemia é outra coisa interessante porque a Valentina tá tirando de letra, ela entende, a Isabel tem cinco anos, ela não entende. Imagina de uma hora pra outra parou de ir para a escola, parou de ver as coleguinhas, não tem mais rotina, e criança precisa de rotina, de horário para comer, dormir, e isso tudo mudou. É como se ela estivesse de férias e vai ficar até o final do ano, porque dificilmente as coisas vão reabrir. Eu sinto que a Isabel sofre.

A vida de Carolina Ferraz é cheia de surpresas, você está sempre aberta ao novo. Eu queria só que você sintetizasse o que você quer para o futuro. O que você pensa para o futuro da sua vida profissional, pessoal, pra sua família?

Eu sou muito trabalhadeira, eu adoro trabalhar. Do meu trabalho vem as minhas relações pessoais, vem o meu sustento, vem minha segurança financeira, o meu crescimento como profissional. Eu acho que eu vou trabalhar, trabalhar e trabalhar até morrer. Mas eu tenho um projeto de aos 65 me aposentar. Mas vai saber se esse projeto rola. Eu faço de tudo pra ele acontecer. Aí eu vou aproveitar a vida de outra forma, eu vou trabalhar de outra forma. Hoje eu vejo que eu tô começando uma nova fase. Eu estou me reposicionando no mercado de uma outra maneira, eu quero mesmo ser apresentadora, eu quero mesmo ter um programa meu, eu estou aqui para poder comunicar uma série de coisas que são pensamentos que eu tenho, filosofias que eu acredito, eu quero estar em primeira pessoa em contato com esse público. Hoje eu estou totalmente focada para isso. Eu não vou abandonar minha vida de atriz porque eu amo e é o meu ofício. Eu vou lançar uma websérie no meu canal de 8 capítulos agora no final de setembro. A gente começa a gravar na segunda quinzena de agosto.

Como é a história?

É uma comédia. A gente vai falar sobre a pandemia. São dois casais que acabam em função das circunstâncias sendo obrigados a passar a quarentena juntos e aí as coisas mais engraçadas acontecem com essas quatro pessoas que estão dentro deste apartamento. Tem uma cena só na rua que é a pessoa chegando para se estabelecer. Eu to super animada. É uma produção minha em conjunto com outras pessoas, um elenco super legal. A gente tá super animado. E é isso que eu to dizendo. Dá pra produzir coisas. Eu tenho um outro projeto de música. Eu comprei os direitos autorais de músicas dos anos 80, que são músicas que falam com a minha geração e eu vou usar a fonografia original dessas músicas, como elas foram gravadas originalmente e vou fazer um videoclipe novo em cima e vou postar no meu canal do YouTube. A gente tá com muitas ideias. Somos um coletivo nesse. Sou eu, um artista plástico e um amigo DJ transformista. Gustavo von Ha, Johnny Luxo e eu, somos esse coletivo.

São músicas que não tinham videoclipes?

Tem, mas eu vou fazer a minha versão. Tem Tempos Modernos, do Lulu Santos, tem Beat Acelerado, do Metrô, tem Vital e sua Moto, dos Paralamas, tem Fullgás, da Marina Lima, tem Só Você. Eu demorei quase 8 meses pra conseguir comprar essas músicas porque eu to fazendo sem patrocinador. É desejo de realização artística mesmo. E através do Youtube eu to conseguindo toda essa possibilidade e agora uma coisa completa a outra. Eu to me sentindo completa e acho que as pessoas conseguem ver que eu to feliz, to amarradona, to cheia de ideias, com projetos que eu gosto com pessoas que eu gosto. Eu diria que é um momento muito bacana. Que bom chegar aqui. São 9 músicas que eu vou usar a gravação original e a gente vai fazer um clipe maluco em cima.

O clipe vai ser só gráfico ou vai ter um filme?

Vai ter de tudo. De lip sync a patinação online. Vai dar uma enlouquecida. A gente vai fazer tudo. Primeiro pra homenagear esses artistas que a gente adora e foram fundamentais na minha época, no meu crescimento. Aquele momento específico do Brasil, a gente saindo de uma ditadura, todo mundo compondo, criando loucamente. As músicas todas eram muito alegres. As bandas eram muito alegres. A gente quer passar isso, passar um hino de alegria por aí.

Quem você ouve, quem você vê? Quais são as artes que você admira hoje e pelas quais você se interessa?

Eu tenho seguido muitas pessoas que dançam. Eu me reconectei com a dança de um jeito super sério. Eu tenho barra de balé em casa e usava pouco, agora eu to dando um pegadão.

Você tem uma barra de balé em casa?

Tenho, vou te mostrar. Eu amo. Olha que cena linda, tem um carrinho da isabel. Aqui é a minha barra de balé.

Você tinha deixado o balé de lado e você voltou?

Eu sempre dancei, me formei pela Royal, no Rio eu fazia aulas de balé em casa. Mas desde que eu me mudei pra São Paulo eu fiquei fora disso. Aí na pandemia eu to sem fazer absolutamente nada. Eu to bem sedentária. Nunca pensei que eu fosse dizer isso, mas to com vontade de malhar. Aí eu to vendo umas coisas. Desde que eu cheguei aqui eu fiz um vídeo em homenagem ao corpo de balé municipal. O Ismael Ribas assumiu o balé, eu tenho ido lá assistir as coreografias. Eu sei o que um bailarino passa para atingir o nível técnico. As pessoas não imaginam, mas um bailarino treina mais do que qualquer atleta olímpico em termos de carga horária, de peso de treinamento. Além de ter sido bailarina de formação, eu sou uma apaixonada por balé. Eu sou sponsor junior do New York Theater Ballet. A minha contribuição anual lá me dá direito a uns descontos nos ingressos.

É um momento complicado para quem exerce o balé. Os teatros não devem voltar nem tão cedo.

Nem tão cedo. E aí você vê com o artista que o que ele precisa é de se expressar. Eu tenho seguido bailarinos no Instagram, no Youtube, e eles estão postando umas coisas de uma beleza. É um cara sozinho com um música. E a dança é realmente muito emocionante. A maneira como você consegue ser transcendental, expressar um sentimento usando o seu corpo como instrumento. Eu acho uma coisa maravilhosa. Eu sou muito apaixonada por dança de todas as maneiras. E eu vejo todas as séries do planeta. Vejo as melhores e as piores. Eu tenho um super amigo que é crítico de cinema que é o Márcio Salem e a gente troca dicas de um pro outro e é impressionante. O cara é crítico, vive disso, e a gente vê tudo ao mesmo tempo.

Você quer indicar alguma série que você tenha adorado?

Tem algumas. Eu sou muito fã. Se alguém gosta do gênero ficção suspense, com o pézinho no terror, eu acho que Penny Dreadful dessas mais recentes é uma das melhores. Eu amo Penny Dreadful, e tem aquela linda da Eva Green, que é uma mulher maravilhosa, ótima atriz. Dessas mais recentes, eu gosto muito de Mindhunter, que é uma história real. Conta como o FBI chegou a desenvolver esse departamento de análise psicológico do perfil de assassinos e porque os assassinos tem essa ou aquela característica. É muito interessante. E eu to muito na onda das séries dinamarquesas, suecas. Tem uma muito boa, The Bridge, que deu origem depois a série americana. É uma série muito interessante, é sueca. As dinamarquesas também são ótimas. Depois se você quiser eu te passo uma lista e você publica junto.

Carolina, foi tudo incrível. Você é uma mulher incrível. Quero te dar parabéns por essa sua nova empreitada. Você deu uma nova cara ao Domingo Espetacular. Parabéns para a Record por ter te contratado. Eu te desejo um futuro brilhante. Tomara que você tenha um novo programa se você quiser. Eu só desejo tudo de bom para você. Saia bem dessa pandemia. Um 2020 maravilhoso para você.

Muito obrigada pela acolhida. Você tá um gatão aí. Essa sua qualidade de vida também tá transparecendo. Siga aí também com saúde. E não há mal que dure pra sempre, uma hora a gente vai sair dessa. E aí vamos nos conhecer pessoalmente. Amigos em comum não falta.

Fonte: Metrópoles 

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