Com aprovação em alta, Bolsonaro vai tratar teto de gastos como morto-vivo

Jair Bolsonaro, que já havia decidido torturar a regra do teto de gastos públicos até que ela gritasse “reeleição!”,teve na pesquisa Datafolha,divulgada nesta quinta (13), uma evidência de que emergencial foi o auxílio.

Sua taxa de bom e ótimo foi de 32% para 37% e a de ruim e péssimo despencou de 44% para 34% de junho para cá. O presidente vive xingando o instituto de pesquisas, mas o naco terrabolista de seus assessores diretos deve ter traduzido para ele o que esses números significam.

Estadistas em tempos de guerra costumam ver crescer sua popularidade. Como ele não é um estadista e, nesta pandemia, faz tudo pelo bem-estar do inimigo, dou mais crédito ao cálculo pragmático e racional de uma parcela das famílias pobres que foi aceita no programa de transferência de renda durante a pandemia, que está pagando R$ 600 ou R$ 1200 por cinco meses.

Além disso, dizer que o aumento da aprovação é porque ele está mais sensato desde que o inquérito das fake news chegou a seus aliados próximos e desde que começou a pipocar depósito, chocolate e imóveis envolvendo Fabrício Queiroz é, do meu ponto de vista, forçar um pouco a barra. O homem acabou de fazer um discurso ultrajante dizendo que se os mais de 100 mil mortos por covid-19 tivessem tomado cloroquina estariam vivos. Até uma morsa com problemas de cognição sabe que Jair Messias é uma das explicações para a montanha de mortos da covid no Brasil.

De acordo com Mauro Paulino e Alessandro Janoni, do Datafolha, dos cinco pontos de crescimento da taxa de avaliação positiva do presidente, pelo menos três vêm dos informais e dos desempregados com renda de até três salários mínimos – grupo alvo do auxílio emergencial.

Se ele conseguir manter parte disso, chegará com boas chances de continuar após 2022. A questão, como venho dizendo nos últimos meses neste espaço, é saber qual o valor mínimo do benefício e a quantidade mínima de pessoas beneficiadas que garantirão a ele manutenção de parte dessa vantagem de aprovação. Hoje, o Bolsa Família envolve mais de 14 milhões de famílias com valor médio de pouco mais de R$ 190.

Como o governo não vai segurar o valor do auxílio emergencial, isso terá impacto negativo em sua popularidade – diretamente, pela queda no consumo familiar, e indiretamente, pela perda de um viagra econômico.

O ministro da Economia, Paulo Guedes, o Robin Hood às avessas, quer tirar dos pobres da CLT para dar aos muitos pobres da informalidade através do Renda Brasil – o bolsa do bolsonarismo. Ou seja, fazer com que o abono salarial, a grana paga aos pescadores em épocas de peixes-magros, o salário-família, entre outros benefícios, ajudem a custeá-lo. Mas essas merrecas a mais não vão ser suficientes para fazer a diferença que o chefe dele precisa.

Vai ter que taxar patrimônio e renda de super-rico. E flexibilizar o teto dos gastos públicos, o que será útil tanto para um projeto de renda mínima quanto para a própria geração de emprego. Vão chamar de populismo, que é como muita gente do mercado chama qualquer coisa que ajude pobre mesmo não sendo populismo. Quase um programa de esquerda.

Qualquer marmota, amiga da morsa, também sabia, desde que a emenda do teto de gastos foi aprovada durante do governo Michel Temer (símbolo da “antiga política”, novo BFF do presidente) que ela ia esgarçar mais cedo ou mais tarde. Foi mais cedo, pela pandemia.

Agora, Bolsonaro não vai ter pudor nenhum de rebolar o teto no mato na hora que lhe for conveniente. Até lá, vai jogando com as diferentes plataformas de comunicação que tem à disposição. Na quarta, ele faz um teatrinho canastrão ao lado de Rodrigo Maia e David Alcolumbre, alimentando o mercado com um afaga-guedes e dizendo que respeita o teto.

Apenas quem acreditou, em 2018, que nossas instituições eram fortes o bastante para aguentar o seu governo também deve ter posto fé nessas palavras. No dia seguinte, em sua live semanal, já tacou um “a ideia de furar o teto existe, o pessoal debate, qual o problema?”

Na verdade, o Datafolha mostrou que o teto é um morto-vivo. “Ah, mas o Congresso não vai deixar.” Qual, aquele comprado por ele em 29 prestações mensais até 2022? Ahã, Claudia, senta lá. Na hora H, é botar “I Will Survive” na vitrola e sobe som.

Como disse no último texto que tratei desse assunto, Bolsonaro deveria acender uma vela para os deputados e senadores que ignoraram sua proposta original de auxílio de míseros R$ 200.

Por um lado, salvaram a vida de milhões – coisa que não é prioridade do presidente. E, como efeito colateral, mostrou a ele o caminho da própria salvação.

Fonte: Notícias Uol

print

Seja o primeiro a comentar

Faça um comentário

Seu e-mail não será publicado.


*