Agronegócio pode tirar Goiás da crise já no próximo ano, dizem economistas

Economista e membros de associações e sindicatos destacam capacidade de recuperação do Estado, impactos do dólar alto, além da Reforma Tributária

Segundo pesquisa realizada pela Tendências Consultoria Integrada, publicada no Estadão, somente cinco Estados brasileiros devem encerrar 2021 com o Produto Interno Bruto (PIB) maior que o nível pré-pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Goiás é um deles.

A projeção positiva se deve, segundo a consultoria, ao otimismo em torno do preço das commodities agrícolas e minerais. O crescimento, em Goiás, é previsto para 0,5% em 2021, se comparado com o resultado de 2019 – que teve o PIB de R$ 191,899 bi (IBGE). Economista da Tendências, Lucas Assis afirma que o Estado será beneficiado por sua estrutura produtiva de região, pouco sensível à dinâmica nacional, assim como Mato Grosso (vai crescer 1,4%, neste mesmo período).

Os três Estados que também terão crescimento são: Mato Grosso do Sul (2,7%), Pará (1,5%) e Rio de Janeiro (0,5%).

Economista

Para o economista e coordenador do Centro de Pesquisa de Mestrado da Unialfa, Aurélio Troncoso, a previsão de 0,5% do PIB goiano é o mínimo. A expectativa é de quase 2%, na visão do acadêmico.

Aurélio afirma que Goiás tem praticamente todo setor industrial voltado para alimentos e bebidas, que dependem do agronegócio. “A agroindústria praticamente não parou e o agronegócio não parou, mesmo – não só em Goiás, mas no Brasil. Inclusive, teve um aumento no PIB, este ano, de 12% para 22% [desse segmento]. Alimentos e bebidas são essenciais e tudo relacionado, continuou, mesmo com a pandemia.”

Ele afirma, ainda, que Goiás é um dos maiores produtores de soja, milho e carne no País. “E estes são os maiores responsáveis pelo nosso PIB.” A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO) confirma a informação.

 

Consumo

Para Aurélio, não só em Goiás, mas em todo o País, a área de consumo deve contribuir para o PIB. “A ajuda assistencial de R$ 600, do governo federal, injetou muito na economia. Há pessoas que não tinham esse valor antes da pandemia. Esse dinheiro vai para o consumo.”

Ele exemplifica, em Goiânia, a região da 44. De acordo com o economista, a reação com a abertura tem sido positiva. “Tenho um amigo que está fretando caminhão para mandar produtos para fora, em vez de receber as caravanas. O consumo voltou com tudo.”

Questionado sobre um possível fim do auxílio emergencial, ele diz não saber se o consumo continuará em alta, caso isso ocorra. Porém, ele vê Goiás como um Estado beneficiado durante a pandemia, uma vez que teve menores gastos que outros entes federativos. “Não colocou tanto a mão no bolso, comprando respiradores, por exemplo. Então, tudo indica que o Estado vai continuar a fomentar o consumo.”

Consumo

Para Aurélio, não só em Goiás, mas em todo o País, a área de consumo deve contribuir para o PIB. “A ajuda assistencial de R$ 600, do governo federal, injetou muito na economia. Há pessoas que não tinham esse valor antes da pandemia. Esse dinheiro vai para o consumo.”

Ele exemplifica, em Goiânia, a região da 44. De acordo com o economista, a reação com a abertura tem sido positiva. “Tenho um amigo que está fretando caminhão para mandar produtos para fora, em vez de receber as caravanas. O consumo voltou com tudo.”

Questionado sobre um possível fim do auxílio emergencial, ele diz não saber se o consumo continuará em alta, caso isso ocorra. Porém, ele vê Goiás como um Estado beneficiado durante a pandemia, uma vez que teve menores gastos que outros entes federativos. “Não colocou tanto a mão no bolso, comprando respiradores, por exemplo. Então, tudo indica que o Estado vai continuar a fomentar o consumo.”

Porém, Aurélio aponta que mais de 60% da área de serviços foi prejudicada, como lojas de departamentos, escolas, etc. “Terão menor participação no PIB.” Apesar disso, ele argumenta que estas conseguem se recuperar brevemente, após a crise. “A economia poderia estar melhor se o fechamento tivesse ocorrido mais tarde, em junho ou julho.”

Colheita de soja (Foto: Reprodução)

0,5% é pouco ou é suficiente?

Para o economista, diante deste cenário, Goiás tem que crescer mais. “O Estado tem capacidade para isso, mas depende do governador e do grupo empresarial. É o momento do governo arrecadar e do empresário investir”, aponta.

Segundo ele, é preciso ter dinheiro barato no mercado, com linhas de financiamento e créditos com juros baixos, principalmente para micro, pequenos e médios empresários. “O Estado pode reduzir o ICMS para alguns produtos. Da energia, por exemplo.”

Aurélio explica que com uma energia mais baixa a economia gira de uma forma diferente. “Energia move o País, então tem que ser barata. Aí o empresário atua com custo menor.” Isso, para ele, motiva o investimento com segurança, que gera empregabilidade. “Reduzir o ICMS da energia impacta toda a rede.”

Dólar

Por volta das 16h desta quinta-feira (27), o dólar estava em R$ 5,57. Segundo o economista, a moeda dos Estados Unidos estando com um “bom valor” deixa o produto mais atrativo para a exportação. Sobre este “bom valor”, ele diz que o ideal seria em torno de R$ 4,80. “Nesse número atual exporta-se bem, mas o empresário ganha menos.”

Mas quem importa não é beneficiado. A respeito do brasileiro assalariado, a influência maior fica em alguns alimentos, que dependem de importados como trigo (e de insumos importados para a produção, como a soja), e também daqueles que utilizam peças de fora, como eletrônicos. “Para algumas produções, como feijão, não influencia tanto. Verduras também não. Mas é possível ver algumas diferenças de preços na prateleira.”

Economista Aurélio Troncoso (Foto: Reproduçã)

Não tão bem

Se só cinco estados apresentaram projeções do PIB positivas para 2021 em relação a 2019, outros 22 não foram tão bem, obviamente. Os dados previstos são estes: Tocantins (-1,3%); Paraná (-2,3%); Minas Gerais (-3,1%); Santa Catarina (-3,4%); Roraima (-3,6%); Bahia (-3,7%); Alagoas (-4,2%); Piauí (-4,3%); Maranhão (-4,3%); Pernambuco (-4,8%); São Paulo (-5,0%); Paraíba (-5,2%); Rio Grande do Norte (-5,2%); Espírito Santo (-6,3%); Rondônia (-6,4%); Acre (-6,9%), Amapá (-6,9%); Amazonas (-7,0%); Distrito Federal (-7,1%); Rio Grande do Sul (7,3%); Sergipe (-7,8%); e Ceará (-8,9%).

O coordenador do Centro de Pesquisa de Mestrado da Unialfa explica que o Sul e o Sudeste, por exemplo, têm algumas particularidades. “São Estados que dependem do setor industrial como maior parte do PIB e a indústria parou. São Paulo é metal, produção de máquinas”, exemplifica.

Já o Nordeste, segundo ele, possui produção para subsistência. Além disso, um dos principais recursos vem do turismo, nos casos de regiões litorâneas. “Há também as festas, como carnaval, festa junina, que movimentam meses.”

Ao ser perguntado sobre como minimizar esta situação, ele aponta algumas coisas que o Governo Federal pode fazer: “Disponibilizar mais dinheiro para a educação, além do obrigatório, e investir em infraestrutura de escoamento de produção, o que irá ajudar muitos Estados a reagirem.” Ele sugere, ainda, abertura de crédito para o setor produtivo (com dinheiro barato, como sugeriu das linhas de créditos por parte do Estado). “Com dinheiro barato (baixos juros), o empresário contrata mais e a gente poderá sair mais rápido da crise. O Brasil tem boa reação, um povo trabalhador.”

E complementa: “Então, tem que desburocratizar as linhas de crédito. Os empresários não conseguem atender às garantias pedidas e, assim, o dinheiro não chega na ponta. Micro, médio e pequenos empresários empregam 60% da população brasileira. Eles têm que ser ajudados e rápido.”

Faeg

Leonardo Machado, o coordenador institucional do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (Ifag), que é um instituto de pesquisa da Federação de Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), destaca a valorização cambial como principal ponto do relatório que mostra o PIB positivo do Estado. “As commodities agrícolas (produtos que funcionam como matéria-prima) fazem com que seja potencializado produto do agronegócio e beneficiam as exportações.”

Ele relata que, atualmente, a demanda está muito aquecida com a China, “o que faz com que avancemos”. “A parceria com a China continua muito boa, não houve qualquer empecilho”, comentou sobre o recente caso de carne bovina brasileira com Covid-19, naquele País.

Sobre os insumos importados, ele declara que, apesar de aumentarem o custo de produção, até o momento o lado positivo tem prevalecido. “Soja, pecuária de carne, etanol e milho são os produtos com maior participação no PIB goiano”, avalia. “Para 2020 a expectativa é de ainda ter um bom resultado no PIB”, diz, mas sem falar em números.

Sobre o socorro aos demais Estados, com maior dependência de segmentos afetados pela Covid-19 (indústria, comércio e serviços), Leonardo espera pela manutenção dos auxílios às indústrias e, principalmente, às pessoas mais vulneráveis. “Esperamos que continue para sairmos mais fortes da crise que outros países.”

Leonardo Machado, do Ifag (Foto: Faeg)

Aprosoja

Segundo a Aprosoja-GO, a soja é o maior produto de exportação de Goiás e do Brasil. Consultor técnico da instituição, Cristiano Palavro informa que, só no Estado, foram exportados (só de soja em grão) U$ 1,6 bilhão, em 2019. “Em 2020, de janeiro a julho, U$ 2,1 bi”, revela otimista. No País, nos mesmos períodos, os valores foram, respectivamente, R$ 26 bi e 23,8 bi. “Somos 10% da produção nacional”, ressalta.

Ainda assim, para ele, 2020 deve ter um número negativo no PIB, mas melhor que as expectativas iniciais da associação. “Goiás tem uma economia forte e boa recuperação, por ser dependente do agronegócio.” Para 2021, a espera é por melhora, mas ele não aponta um número. “A expectativa de 2021 é de ter crescimento, pois a produção aumentou este ano. A área plantada deve crescer, mas vamos depender de clima, uma vez que safra vai até março. Mas a expectativa é boa.”

Depois da soja, Palavro destaca – na ordem de exportação – o milho, a carne bovina, a suína e aves. Em relação a valor total de produção, ele aponta a soja, carne bovina, cana-de-açúcar e milho.

Agronegócio

A participação do agronegócio no PIB, segundo Cristiano, é algo difícil mensurar. Ele informa, contudo, que, contando toda a cadeia (que envolve serviço de alimentação, insumos, mão de obra, agroindústria, etc.), o agronegócio representa de 50% a 60% do Produto Interno Bruto de Goiás. “No Brasil, algo em torno de 23% a 24%. O Rio, por exemplo, tem o segundo maior PIB, mas agronegócio fraco”, explica os valores acima da média nacional por parte do Estado.

Inclusive, isso reflete no PIB geral. Segundo Instituto Mauro Borges de Estatísticas e Estudos Socieconômicos, em publicação de junho, a estimativa do PIB goiano para o primeiro trimestre era de um crescimento de 3,4%, graças ao crescimento nos setores da Agropecuária (18,0%) e dos Serviços (0,2%).

Sobre como a União beneficia esse segmento, ele diz que há isenções tributárias para o produto na ponta (a soja, milho e outros produtos primários) para facilitar a competição lá fora. “Não tem isenção em relação aos insumos, serviços e máquinas, mas nos primários, sim.”

Já sobre a posição de destaque do segmento na retomada do crescimento, Cristiano menciona dois fatores: “Primeiro, os produtos agrícolas são majoritariamente alimentos, apesar de ligados a outras cadeias. E se tem restrição de renda na população, o último item a cortar é alimento. Se tem renda afetada, deixa de comer carne de primeira, mas continua consumindo produtos do agronegócio. A demanda não sofreu impactos significativos, como outros setores.”

Em segundo lugar, ele ressalta que o agronegócio “é extremamente inserido no mercado externo e tivemos compradores com grande apetite, como a China, que teve problemas com seu rebanho de suínos e precisaram comprar muita soja brasileira [para o rebanho em formação] e muita carne (suína, bovina e de frango). A demanda externa cresceu por conta da China (que compra em dólar) e a interna se manteve, praticamente”.

Lógica do câmbio

Assim como o economista Aurélio Troncoso e o coordenador do Ifag, Leonardo Machado, o consultor da Aprosoja afirma que, comparando exportação e a importação, a “balança está compensando”. “100% do valor da soja exportada é em dólar. Porém, para produzir nem todos são baseados na moeda dos Estados Unidos. Além disso, o preço dos insumos não subiu tanto em dólar quanto o do grão.”

Apesar disso, ele avalia que o patamar da moeda hoje é um pouco acima do que poderia. “Temos uma taxa de juros que vem caindo, que afasta os investidores, pois rende pouco. Como o Brasil é um País que apresenta risco, deveria ter uma taxa de juros maior – para compensar o investimento.”

Ele explica que a taxa de juros elevou o dólar, o que foi ainda mais impactado com a pandemia. “Mas tendo uma vacina no começo de 2021, a moeda deve começar a perder força. Não diria um patamar que vimos no passado, mas penso que deva ficar em cerca de R$ 4,50. Para o setor exportador é bom. Pode impactar, também, no turismo nacional. Mas entendo que não é bom para todos. Para a indústria que depende muito de insumos não é bom”, descreve.

Cristiano Palavro, da Aprosoja

Reforma tributária

Cristiano Palavro pensa que as reformastambém são cruciais na depreciação do dólar. Segundo ele, a reforma tributária, que está no Congresso, preocupa bastante todos os setores (indústria, agro e serviços). “Na nossa visão, como representantes do agro, primeiro deveria ser discutida a reforma administrativa, o custo do Estado.”

Porém, ele acredita que a Tributária, sendo bem feita, pode ajudar a destravar a economia com a simplificação de imposto. “Não imagino que vai ficar menor [tributos], mas trazendo mais clareza e dando mais dinheiro para Estados e municípios pode incentivar o crescimento mais rápido. Mas para nós, a administrativa seria prioridade.”

Além disso, ele defende que o governo federal avance nas pautas de privatização, conclusão de obras ferroviárias, melhoria da malha viária, enfim, “garantir melhores condições de escoamento para indústrias e portos. E não criar novas regras burocráticas”.

Sindicarne

Leandro Luiz Stival Ferreira, presidente do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados do Estado de Goiás (Sindicarne), também expõe uma das preocupações do segmento agropecuário com a Reforma Tributária. “A preocupação das frigoríficas, por exemplo, é desoneração da folha. Parece contraditório, mas vou explicar”, faz uma pausa.

“O faturamento da indústria frigorífica é alto (volume de dinheiro dentro da empresa com margem pequena, o que acontece com todos as commodities mundiais). Vamos supor que uma empresa com 600 funcionários fature R$ 30 milhões por mês e tenha folha em torno de R$ 1 milhão. Pagando os impostos sobre a folha, seriam R$ 200 mil. Eles querem cobrar sobre o faturamento, na margem de 1,5%, o que daria cerca de R$ 550 mil, mais que o dobro.”

Desta forma, Leandro afirma que, na verdade, desonerar a folha de impostos não ajuda. “É uma preocupação”, alerta. Segundo ele, atualmente as indústrias de agricultara e pecuária podem optar por pagar pela folha ou pelo faturamento. Assim, os setores estão se organizando para manter dessa forma.

Leandro Stival, presidente do Sindicarne (Foto: Sindicarne)

Um dos destaques

A exportação de carne é um dos destaques de Goiás e do País. Segundo Leandro, perdendo apenas para a soja e mineração, no Estado. “O agronegócio, principalmente pecuária e agricultura, é essencial. O mundo precisa de alimentos. Apesar de tudo, o setor de carne manteve seu o ritmo.” De acordo com ele, até 2030 o agronegócio precisará crescer 50% para atender a demanda. “Precisa e vai crescer.” Segundo ele, o Brasil – e Goiás – tem condição de se destacar globalmente. “Tem condição, tem terra disponível e clima favorável para atender essa demanda”, pontua.

Leandro Stival diz, porém, que podemos nos preparar para críticas ao agronegócio e tentativas de travamento (por parte da Europa). “Outros players falam mal do concorrente. Isso é natural. Mas o Brasil será líder mundial na produção de grãos e proteína animal.”

Exportação

Segundo o presidente do Sindicarne, o dólar contribui para o Brasil bater recordes de exportação, mas não é fator preponderante. Ele afirma que, anteriormente, 80% da produção nacional era destinada ao mercado interno. Contudo, houve uma recessão interna e o produtor precisou levar para fora um maior volume de carnes.

“Está exportando mais para dar vazão ao que está sobrando”, disse sem fechar a proporção atual. “O PIB do Brasil deve fechar em -6%, neste ano. O de Goiás, talvez, já fique positivo, algo em torno de 0,5% (mesma cifra prevista para 2021).”

Com esse bom momento de exportação, seria esperado um reinvestimento no segmento. Mas Leandro explica que, de dois anos para cá, a indústria passou por situações críticas e operou no vermelho. Com uma margem positiva, o momento é de melhorar o fluxo de caixa. “Dependendo da economia, em dois ou três anos falaremos de ampliação de produção e contratação”, revela.

Por fim, ele acredita que, para as previsões mais otimistas se concretizarem, basta o governo não atrapalhar. “Não vir com aumento de impostos, nem com redução de incentivos fiscais ou travamento de linhas de crédito… Se o governo deixar como está a empresa se adéqua e se vira”, brinca.

(Foto: Sindicarne-GO)

 

Por Francisco Costa – Mais Goiás

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