Agnes Nunes busca ‘estética diferenciada’ em clipes ao misturar MPB e R&B

Cantora também fala sobre racismo na infância: ‘Escutava tudo que você imaginar do povo xingando meu cabelo’. G1 mostra carreira e histórias de artistas nascidos nos anos 2000.

Agnes Nunes começou a gravar vídeos pelo celular em Campina Grande, na Paraíba. Era uma forma de esquecer do racismo que sofria a caminho da escola durante a infância por usar cabelo black power.

Ela queria um celular no dia das crianças aos 12 anos, mas ganhou um teclado da mãe. E ele mudou a vida dela. Agnes aprendeu a tocar sozinha e começou a gravar covers de MPB, R&B e rap na janela de casa em 2015.

“Eu ia a pé para escola em Souza então no caminho eu escutava tudo que você imaginar do povo xingando meu cabelo. Só que detalhe eu era só uma criança de 12 anos”, diz ao G1.

“Eu ficava muito triste como bullying com tudo que eu sofria, mas quando eu chegava em casa uma das formas de eu esquecer isso era tentando aprender música”, continua.

Três anos depois os vídeos viralizaram e artistas como Iza, Caetano Veloso e Alok começaram a comentar e seguir Agnes. Ela conversa com os famosos, mas diz que ainda não se acostumou com a proximidade.

“Até hoje é uma surpresa para mim cada pessoa que eu admiro e me segue eu fico muito surpresa e acima de tudo fico muito grata, porque é a minha música, a minha voz chegando a lugares que eu nunca pensei que poderia chegar.”

Agnes lança nesta sexta (11), “Hiroshima”, música que encerra o EP “Romaria”. “Eu sonhei com Hiroshima quando o EP já estava pronto. Fiz na semana de turbulência da quarentena, que foi quando toda parada do George Floyd, do movimento Black Lives Matter. Aquilo me chocou de uma forma que eu só sabia chorar praticamente.”

“Na hora de dormir eu ficava pensando em muitas coisas e veio ‘Hiroshima’ que fala sobre ressurgir das cinzas. Eu acho que todo mundo está fazendo isso todos os dias praticamente.”

Preconceito até hoje

Por conta dos episódios de racismo que Agnes sofreu na infância, ela passou a se aproximar de pessoas mais velhas em um centro cultural em Souza, cidade do sertão da Paraíba em que morava.

Foi com esses amigos e com a mãe que encontrou forças para combater o preconceito que sofria e entender que era bonita com black power, sem black power, do jeito que quisesse estar.

“Eu tinha 12 anos e estava no meio de uma roda feminista”, lembra. “Minha mãe foi a principal chave da minha autoestima, principal chave de tudo de bom. Com o tempo foram surgindo outras coisas que me fizeram ser essa menina forte, né?”

Agnes diz que o preconceito não acabou na infância, recebeu muitos comentários maldosos falando do seu sotaque no começo e que até hoje as mensagens não pararam.

Ela nasceu em Feira de Santana, na Bahia, mas com 9 meses foi viver na Paraíba. Em janeiro, ela se mudou para o Rio de Janeiro sem a família.

“Querendo ou não todos os dias têm lá uma mensagenzinha de ódio, machista, racista, tem todo dia.” Ela prefere responder com carinho e não absorver a energia por trás dos comentários.

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