Corrida por vacina nacional contra a Covid tem Butantan, Fiocruz, USP, UFMG e UFPR em 11 projetos na fase inicial de estudos

O Brasil tem, ao menos, 11 projetos de candidatas a vacina contra a Covid-19, de acordo com levantamento do G1. Todos estão sendo desenvolvidos em universidades e instituições de pesquisa públicas do país.

Os projetos para criar um imunizante nacional contra a doença causada pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2) ainda estão em fases iniciais de pesquisa. Não há previsão de que entrem em testes com humanos ou de que tenham seus estudos concluídos antes das candidatas estrangeiras que já passam por ensaios clínicos no país.

Os entraves são vários: desde a dificuldade do acesso a parte da tecnologia necessária até a falta de vontade política, segundo os pesquisadores que lideram os projetos mapeados pelo G1. Outro fator é a a falta de parcerias com a iniciativa privada – em parte por causa do risco da empreitada, já que potenciais investidores não têm como prever se os estudos vão dar certo.

Se uma das candidatas funcionar, será a primeira vacina desenvolvida totalmente do zero no Brasil.

 

Nesta reportagem, você lerá sobre:

  1. Os projetos: quais são e onde estão os centros de pesquisa?
  2. As candidatas: como são os projetos de pesquisa?
  3. Os obstáculos: que cenário os cientistas precisam enfrentar para obter avanços?

 

Abaixo, você verá detalhes sobre as pesquisas em andamento no país. Ao final da reportagem, poderá ler mais informações sobre os entraves que elas precisam encarar.

Butantan

 

Foto mostra o Instituto Butantan, em São Paulo — Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Foto mostra o Instituto Butantan, em São Paulo — Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Dos 4 projetos do Butantan, 2 são baseados em ovo – um dos quais está mais adiantado e é feito em parceria com a rede de hospitais Mount Sinai, nos Estados Unidos, com apoio do governo americano e da fundação Bill e Melinda Gates. Essa versão usa o vírus inativado.

“É o mesmo princípio da vacina da gripe – você inocula uma cepa viral no ovo, que cresce no ovo embrionado e, depois, ele [o vírus] é purificado a partir desse ovo. Então, na verdade, a fábrica da vacina é o ovo – o embrião da ave, o pintinho, que produz os vírus que depois são transformados em vacina”, explica Dimas Covas, diretor do Butantan.

 

No momento, o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP faz testes de proteção com o Sars-CoV-2 em camundongos, que têm um gene alterado para que possam ser infectados com o novo coronavírus. A Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, também da universidade paulista, testa o imunizante em roedores com comorbidades pulmonares.

Os testes são necessários para que os pesquisadores definam a melhor forma de aplicar a vacina, o melhor vírus e o melhor regime de vacinação – em uma ou duas doses.

Nas próximas semanas, a candidata será enviada para o Butantan para testes de farmacocinética e segurança.

Instituto de Ciências Biomédicas da USP

 

Prédio do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) no campus Cidade Universitária, em São Paulo  — Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Prédio do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) no campus Cidade Universitária, em São Paulo — Foto: Marcos Santos/USP Imagens

O ICB tem 3 estratégias, todas em condição experimental e que estão sendo testadas em camundongos, segundo o diretor, Luís Carlos Ferreira:

  1. Os pesquisadores colocam a informação genética do Sars-CoV-2 em bactérias para que elas produzam três proteínas do vírus: A, S e N. A vacina é combinada com adjuvantes (que reforçam o efeito imunizante) e testada nos animais.
  2. As nanovacinas: as proteínas são organizadas em nanopartículas – em vez de ser a proteína “pura”, é como se fosse um complexo – e testadas em animais.
  3. As vacinas genéticas: com material genético. São duas plataformas: uma usa DNA (de plasmídeos, uma molécula que ocorre normalmente em bactérias) e a outra, um tipo de RNA (mensageiro).

 

“Todas foram testadas em camundongos e são seguras e geram uma resposta imunológica”, afirma Luís Carlos Ferreira. “A próxima etapa é mostrar que a vacina confere proteção”.

 

Fiocruz/Manguinhos (RJ)

 

Castelo da Fiocruz, em Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro — Foto: Reprodução
Castelo da Fiocruz, em Manguinhos, Zona Norte do Rio de Janeiro — Foto: Reprodução

Em Manguinhos, há duas propostas:

  1. Uma é a de uma vacina sintética, com base em pequenas moléculas sintéticas de proteínas do Sars-CoV-2 capazes de induzir a produção de anticorpos específicos e ativar as células T, um tipo de célula de defesa do corpo, contra o coronavírus.
  2. A outra é uma vacina de subunidades, que utiliza (outros) pedaços de proteínas capazes de estimular a resposta imune. Essa versão testa diferentes construções da proteína S, que é a que o novo coronavírus usa para infectar as células do paciente. A ideia é que o corpo crie os anticorpos necessários para se defender quando tem contato com essa proteína.

 

Segundo o vice-diretor de desenvolvimento tecnológico de Manguinhos, Sotiris Missailidis, ambas já passaram por uma primeira etapa de estudos pré-clínicos, com camundongos, e foram seguras para os animais.

Agora, os cientistas avaliam a geração de anticorpos e as respostas das células de defesa dos animais. A melhor das construções e das doses testadas vai para estudo de desafio – quando cientistas infectam os animais com o vírus e verificam se a vacina conferiu proteção.

O próximo teste será em hamsters, previsto para novembro, e depois vêm, possivelmente, os macacos.

“Se a gente conseguir achar laboratório que faça, seria já em dezembro [o teste] em macacos. No final do ano ou em janeiro podia completar a fase pré-clínica”, diz Missailidis. Ele avalia que é difícil dizer quando seriam os testes clínicos, porque pode haver atrasos.

 

O composto ainda está sendo testado em camundongos para que os pesquisadores cheguem ao melhor protótipo. Depois, eles pretendem desenvolver uma versão nasal da vacina – ao invés de intramuscular – que Kalil pretende que seja a definitiva contra a doença.

“A gente quer desencadear uma resposta bem forte, além de para todo o orgnanismo, para o sistema respiratório, tanto na produção de anticorpos que são específicos da resposta de mucosa – o tecido aveludado que forma todo o sistema respiratório – como também para estimular a resposta das células de defesa que estão no sistema respiratório”, explica.

“Buscamos uma vacina que dê uma grande cobertura – que tenha uma eficácia muito grande em muitas pessoas e que seja muito eficaz porque tem uma resposta local muito importante”, afirma.

Quais os obstáculos?

 

Ricardo Tostes Gazzinelli avalia que o problema é estrutural: quem investe em vacinas – as farmacêuticas, os empresários, o Estado – não quer correr riscos, e, por isso, aposta em países que já têm experiência e expertise para desenvolver vacinas do zero. Ele afirma que esse temor é um erro.

“Se tiver um investimento e sair com um produto seu, você vai ter um retorno grande. O empresário brasileiro não quer ter risco, quer garantia. Ninguém sabe se essas vacinas [de fora] vão funcionar e quão bem vão funcionar – por que não investir numa ideia brasileira?”, questiona.

O investimento é caro: o projeto de Gazzinelli, por exemplo, já recebeu financiamento de R$ 4,6 milhões – vindos do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), da própria Fiocruz e das fundações estaduais de apoio à pesquisa de Minas (Fapemig) e São Paulo (Fapesp). Outros R$ 4,5 milhões, também do MCTI, foram destinados à pesquisa no Incor, e, no Paraná, o aporte do ministério foi de R$ 2,4 milhões. Em Manguinhos, são mais R$ 2 milhões.

(A importação da tecnologia também sai cara: ao anunciar a compra da vacina da CoronaVac, o Ministério da Saúde previa um gasto de R$ 2,6 bilhões).

Outro gargalo é a tecnologia, aponta Luís Carlos Ferreira, diretor do ICB-USP.

“Por isso tanto Butantan como Fiocruz são totalmente dependentes de transferência de tecnologia: ou compram de fora ou licenciam e tentam produzir a vacina aqui. Todas as vacinas que nós produzimos são assim – ou compra ou importa tecnologia. Não tem condições de fazer a cadeia completa”, afirma o diretor do ICB.

 

Ele aponta como exemplo a falta de capacidade de produzir antígenos com o grau de pureza necessário para fazer testes da vacina. Segundo o diretor, apenas Butantan e Fiocruz têm condições de fazer isso – mas ambos estão comprometidos com a produção de vacinas de fora.

Sotiris Missailidis, da Fiocruz, entende que é importante que o Brasil apareça na corrida pela vacina como um ator importante.

“O Brasil tem cientistas de peso, com conhecimento tecnológico para levar esses produtos. Eu acho que é muito importante chegar, registrar, produzir nosso produto e ficar no mapa mundial como um dos grandes players que podem dar esse tipo de resposta para apoiar a saúde publica do país e da América Latina ou mundial nesse acordo de fornecimento”, opina.

Por Lara Pinheiro, G1

 

print