Apagão completa uma semana e amapaenses protestam: “Trocamos o dia pela noite”

Enviados especiais a Macapá (AP) – Dormir parte do dia e passar a noite em claro. Esse tem sido o “novo normal” para os amapaenses atingidos pelo apagão que prejudicou quase 90% da população do estado e completa uma semana na noite desta terça-feira (10/11).

A rotina dos moradores de vários municípios não é mais a mesma. O governo estadual estabeleceu um cronograma para fornecer energia elétrica para a população por meio de um esquema de rodízio – cada cidade recebe luz de seis em seis horas. Nada além disso.

No atual cenário, moradores de algumas cidades relataram ao Metrópoles as dificuldades que têm enfrentado.

Ana Lobato Melo, 58 anos, divide a casa de três quartos, cozinha, sala e banheiro com três famílias. No total, são sete crianças e 13 adultos que habitam a residência, localizada no bairro de Provedor II, no município de Santana, Região Metropolitana de Macapá.

Ela explica que fecha as janelas assim que escurece para evitar mosquitos e pernilongos, o que faz com que não haja ventilação e, consequentemente, faça calor.

“É complicado porque a gente chega do serviço e já vai dormir. Não tem o que fazer. A gente não vê o rosto de quem mora com a gente”, afirma, acrescentando que, por muitas noites, no entanto, não consegue dormir.

“Aqui no bairro não temos luz de meia-noite às 6 da manhã. Apesar de ficar tudo escuro, a gente fica muito ansioso, sabe? Mas as coisas vão melhorar. A gente vai vivendo…”, torce Ana.

Lena Almeida, 27, é moradora do mesmo bairro. Mãe de quatro filhos pequenos, ela conta que coloca todos para dormir assim que escurece. Ela, o marido e a mãe permanecem acordados.

“Parece o fim do mundo”

“Eu aproveito quando está de dia para dormir porque de noite é quando a energia chega [de 18h à 0h] e eu aproveito para resolver as coisas da casa – lavar louça, lavar roupa, congelar os alimentos e congelar água”, conta Lena. “Acabo dormindo só de manhã”.

“A gente ficou quatro dias totalmente sem luz e água. Minha sobrinha de 7 anos que comentou: ‘Parece o fim do mundo’”, diz Mariane Barieli, moradora do bairro. “A coisa mais comum é escurecer e o povo ficar na varanda, na rede”.

Já no bairro de São Lázaro, em Macapá, a energia passou a chegar à meia-noite desde sábado (7/11), quando o governo estadual implementou o esquema de rodízio. Antes disso, no entanto, nos primeiros três dias do apagão, Aldeci da Silva Pinheiro, 37, foi obrigado a dormir na sacada em frente da casa.

Aldeci é cadeirante e possui necessidades especiais. Segundo ele e a mãe, Josidete da Silva, 56, é impossível suportar o calor sem ventilador ou ar-condicionado.

“É a única forma da gente sentir o vento, né? Porque dentro da residência não tem como ficar. Faz muito calor”, explica o amapaense.

Perseguições policiais

Populares do bairro comentam que a região é constantemente alvo de perseguições policiais. Somada ao sofrimento diário de Aldeci, a questão de segurança pública se torna um agravante para ele.

“É um constrangimento… A gente não consegue dormir. É uma ansiedade, um desespero, de não saber quando é que vai voltar tudo isso ao normal”, desabafa.

No mesmo bairro de Aldeci, mora Andressa Suany, 22, a irmã, Anielly, 28, a mãe, Creuza, 82, e mais cinco crianças em uma residência de apenas um cômodo. Todos dividem uma única cama ao dormir.

Andressa conta que por volta das 19h o bairro já está completamente escuro e as crianças são colocadas para dormir mesmo que não queiram.

“Não tem o que fazer. A gente sabe que de noite elas [as crianças] ficam mais agitadas, mas tem sido assim desde o rodízio. É horrível, mas a gente vai fazendo como pode”, diz.

Fonte: Metrópoles

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