País trocou uma recuperação mais forte no 3º trimestre por problemas à frente, diz Marcos Lisboa

O presidente do Insper, Marcos Lisboa, avalia que o Brasil herdou um problema para o futuro com as medidas de auxílio adotadas pelo governo para mitigar os impactos da crise provocada pelo coronavírus.

Na avaliação de Lisboa, que foi secretário de Política Econômica no primeiro governo Lula, o país se endividou e perdeu a oportunidade de colocar de pé uma agenda de reformas no momento em que a crise começou a arrefecer.

“Até agora, há uma inação do governo que não diz como é que vai enfrentar esse problema (de piora fiscal). O governo está paralisado. Com esses preços de juros, câmbio, volatilidade, a economia rateia, e as perspectivas para 2021 ficam mais difíceis”, diz Lisboa.

G1 e a GloboNews ouviram economistas sobre os desafios para 2021. A seguir, os principais trechos da entrevista com Marcos Lisboa, presidente do Insper.

Leia também as entrevistas com José Roberto Mendonça de Barros, sócio da MB Associados; e Solange Srour, economista-chefe do banco Credit Suisse.

  • Como avalia o quadro da economia?

 

Houve uma grave recessão no segundo trimestre, e o governo adotou uma série de medidas com o Congresso. Na época, já tinha tido o alerta de que as medidas estavam um pouco descalibradas. Isso teve um impacto positivo e um custo negativo.

No curto prazo, o impacto positivo foi uma recuperação mais forte no terceiro trimestre. Vários estados e municípios, por exemplo, recuperaram caixa. O custo disso tudo é que ficou uma dívida e um custo grande para a frente. O país trocou uma recuperação mais forte no terceiro trimestre por problemas à frente.

  • Quais problemas?

 

A grande questão é como o Brasil vai enfrentar a dívida e as restrições que tem. É a parte um do problema. Isso já está prejudicando o país.

O Tesouro não está conseguindo vender papéis da dívida por prazos longos e, portanto, tem de encurtar a dívida. No ano que vem, vai ter um grande problema para rolar essa dívida. E, até agora, há uma inação do governo, que não diz como é que vai enfrentar esse problema. O governo está paralisado. Com esses preços de juros, câmbio, volatilidade, a economia rateia, e as perspectivas para 2021 ficam mais difíceis.

  • O cenário é ruim para 2021, então?

 

O cenário para 2021 e 2022 é de extremos. Um dos cenários é o governo vir com uma proposta consistente para enfrentar o problema fiscal, de não aumentar gastos. E isso vai dar tranquilidade para os mercados, para o dólar e os juros recuarem. Isso permite a recuperação da economia da grave crise, mas não garante o crescimento de longo prazo.

O segundo cenário é o governo tentar algum atalho para permitir aumento dos gastos e não enfrentar os problemas que nós temos hoje. Nesse caso, o câmbio sobe mais ainda, os juros sobem mais ainda e nós teremos problemas graves na economia em 2021.

  • Como o país sai da encruzilhada do Auxílio Emergencial? É possível um programa social efetivo e que seja fiscalmente responsável?

 

No meio do ano, uma vez que a recessão estava arrefecendo, o país poderia ter aprovado uma agenda de reformas para começar a enfrentar o problema dos gastos obrigatórios no Brasil. O país gasta muito, e o dinheiro não chega na sociedade. O primeiro problema é enfrentar a questão dos gastos obrigatórios, senão não tem de onde tirar dinheiro.

Segundo, uma agenda de reformas para a economia voltar a crescer. Temos muitos problemas, uma economia fechada, protegida, com distorções setoriais, que desestimula o empreendedorismo, o crédito. Enfrentando esses problemas, a economia se recuperaria da grave recessão, os preços de juros e câmbio não iriam subir como subiram, destoando do resto do mundo.

Com isso, você poderia substituir parte do Auxílio Emergencial pelo emprego, que é a maneira saudável, e desenhar, com os programas sociais já existentes, um Bolsa Família muito mais eficaz e amplo, ajustando o dinheiro que hoje é muito mal focalizado.

 

  • Criou-se uma armadilha, então?

 

Essa oportunidade nós perdemos. Não fizemos as reformas necessárias. O cenário para o futuro – a continuar assim – não está bom. Se continuar essa inação, é um cenário ruim. Se o governo tentar aumentar muito o gasto público, sem ter reduzido o gasto obrigatório, vai piorar (a situação do país) no futuro, vai piorar a renda e o emprego. Se o governo tira o Auxílio Emergencial, sem fazer as reformas, é uma economia andando de lado com pessoas desassistidas.

Marcos Lisboa — Foto: Marcelo Brandt/G1

Marcos Lisboa — Foto: Marcelo Brandt/G1

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