Em um ano, Covid-19 tem mais de 950 casos só nas grandes ligas europeias

Futebol mundial ainda sofre com a pandemia que paralisou o calendário em março de 2020

Por Allan Caldas e Daniel Mundim – Rio de Janeiro

Há um ano, o futebol mundial parou. Com a chegada da pandemia da Covid-19 a todos os continentes, as principais competições do planeta foram interrompidas, um impacto sem precedentes na história do esporte.

Ainda hoje, mesmo com as competições em andamento, a situação é muito distante da normalidade pré-pandemia. Os estádios seguem sem torcida na maior parte do mundo, os protocolos sanitários regem o dia a dia dos clubes e novos casos continuam surgindo entre jogadores, apesar dos cuidados com a segurança, por vezes forçando o adiamento de partidas.

O futebol, assim como a vida em geral, ainda sente os efeitos da pandemia de Covid-19, na esperança de que 2021 marque o início das vitórias contra a doença. No entanto, um ano depois da paralisação, o futebol mundial se vê novamente diante de impactos importantes, como o adiamento do início das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa de 2022, e encara incertezas sobre a realização e o formato de torneios como a Eurocopa. No Brasil, os governos de São Paulo e Ceará decretaram a paralisação dos respectivos campeonatos estaduais.

Bola é desinfetada antes de jogo do Campeonato Mexicano, em julho de 2020. Pandemia de Covid-19 fez o futebol mundial se adaptar aos protocolos sanitários - Ulises Ruiz / AFP

Bola é desinfetada antes de jogo do Campeonato Mexicano, em julho de 2020. Pandemia de Covid-19 fez o futebol mundial se adaptar aos protocolos sanitários – Ulises Ruiz / AFP

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu o primeiro alerta sobre uma misteriosa pneumonia notificada em Wuhan, na China, posteriormente relacionada ao então chamado novo coronavírus. Primeiros a sentir os efeitos da doença, os países asiáticos se anteciparam às medidas de prevenção, entre elas os cancelamentos das competições esportivas. A temporada de futebol na China foi suspensa no fim de janeiro, e um mês depois medidas semelhantes foram tomadas no Japão e na Coreia do Sul.

Com a expansão da doença para a Europa e, posteriormente, para as Américas e a África, foi questão de tempo para o mundo interromper, até o meio de março, toda a atividade esportiva de alto rendimento, em efeito cascata: dos primeiros jogos sem público na Europa, passando pelos adiamentos de partidas e suspensões provisórias de campeonatos até a paralisação total, que durou até maio.

O alerta chegou tarde para muitos dos 44 mil torcedores que foram ao estádio San Siro, em Milão, no dia 19 de fevereiro, assistir à goleada da Atalanta sobre o Valencia por 4 a 1, pelas oitavas de final da Liga dos Campeões da Uefa. O Norte da Itália foi o primeiro epicentro da doença na Europa, e aquela partida foi posteriormente considerada uma “bomba biológica”, pela possibilidade de alta disseminação do novo coronavírus.

GRANDES LIGAS: MAIS DE 950 CASOS

O impacto da pandemia no futebol pode ser medido em números: levantamento do ge mostra que as seis principais ligas da Europa – Inglaterra, Espanha, Alemanha, Itália, França e Portugal – tiveram pelo menos 978 casos de Covid-19 em um ano de pandemia, média de 163 positivos por campeonato, e oito casos por clube. Sem fazer distinção de fama, talento ou títulos, o vírus alcançou dos jogadores menos conhecidos nos pequenos clubes a astros globais como Neymar, Cristiano Ronaldo, Luis Suárez e Zlatan Ibrahimovic.

Para registrar os números, o ge entrou em contato com os clubes, as seis ligas, e considerou os comunicados nos portais oficiais e registros na imprensa de casos de coronavírus nas equipes profissionais. Na comparação com o Brasil, o efeito da Covid-19 nos países analisados foi menor: o Campeonato Brasileiro registrou 320 jogadores contaminados, média de 16 por time da primeira divisão.

O campeonato mais afetado no Big-6 da Europa foi a Premier League, com 246 casos. Entre os clubes, o mais atingido foi o francês Saint-Étienne, com 28 casos ao longo do ano. Em Portugal, o Benfica também teve quase todo o elenco comprometido, com 25 jogadores diagnosticados durante a temporada.

Casos de Covid-19 nas seis principais ligas nacionais da Europa - Arte: Infoesporte
Casos de Covid-19 nas seis principais ligas nacionais da Europa – Arte: Infoesporte

A LINHA DO TEMPO DO IMPACTO

NA ÁSIA, AS PRIMEIRAS MEDIDAS

O futebol começou a sentir o impacto da pandemia de Covid-19 quando a China, primeiro epicentro da doença, anunciou que a Supercopa Chinesa não seria realizada no dia 5 de fevereiro. Também foi adiado o início do Campeonato Chinês, previsto para o dia 22. No fim de fevereiro, Japão e Coreia do Sul também interromperam o futebol como medida de prevenção.
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FUTEBOL EUROPEU PARALISADO

No início de março, o futebol europeu passou do estágio de atenção, com medidas preventivas como realização de jogos sem público e adiamento de partidas, à rendição total diante do risco da pandemia de Covid-19. Pouco a pouco, os campeonatos nacionais e torneios da Uefa foram suspensos .No meio de março, praticamente não havia mais bola rolando na Europa.
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RUGANI, PRIMEIRO CASO NA ELITE EUROPEIA

O zagueiro Daniele Rugani, da Juventus, foi o primeiro jogador das grandes ligas europeias a testar positivo para Covid-19, no dia 11 de março. No mesmo dia, o Hannover, da segunda divisão alemã, também confirmou o caso do zagueiro Timo Hübers. Um dia depois, foram divulgados outros casos na Europa, como o técnico do Arsenal, Mikel Arteta, o atacante do Chelsea Callum Hudson-Odoi e o atacante da Sampdoria Manolo Gabbiadini. O primeiro diagnóstico da doença em um jogador profissional, registrado no dia 27 de fevereiro, foi do atacante italiano de origem nigeriana King Udoh, do Pianese, da terceira divisão da Itália.
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PARALISAÇÃO CHEGA AO BRASIL

No dia 15 de março, a CBF suspendeu todos os seus campeonatos nacionais. No dia seguinte, as principais federações seguiram o caminho e paralisaram os Estaduais. Flamengo x Portuguesa-RJ, no dia 14 de março, foi um dos últimos jogos antes da paralisação.
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EUROCOPA E COPA AMÉRICA ADIADAS

No mesmo dia, Uefa e Conmebol adiaram em um ano as disputas da Eurocopa e Copa América, que ocorreriam entre junho e julho de 2020. Os dois torneios estão previstos para o mesmo período, mas em 2021. No entanto, ainda não há garantia da presença de público nos dois torneios, e se a Euro manterá suas 12 sedes.
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BELARUS MANTÉM FUTEBOL

Na Europa, uma única liga nacional seguiu em atividade: Belarus. O presidente do país, Aleksander Lukashenko, está no poder desde 1994 e afirmou que “uma sauna, beber muita vodca e trabalhar duro” é o bastante para “matar o vírus no organismo”. A falta de futebol nos demais países aumentou a atenção sobre a liga, que ganhou 10 novos contratos de TV. Outros quatro países no mundo também seguiram com o calendário: Tadjiquistão, Turcomenistão, Burundi e Nicarágua.
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JUNIOR SAMBIA PASSA DOIS DIAS EM COMA

Primeiro jogador do futebol francês diagnosticado com Covid-19, o volante Salomon “Junior” Sambia, do Montpellier, foi internado no dia 23 de abril, e chegou a ficar dois dias em coma induzido. Sambia, então com 23 anos, se recuperou e voltou a jogar pelo Montpellier no fim de agosto, na segunda rodada do Campeonato Francês 2020/21.
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CAMPEONATO FRANCÊS ENCERRADO

A Ligue 1 foi a única das grandes ligas europeias a não finalizar a temporada 2019/20. No dia 30 de abril, formalizou o fim do campeonato, e o PSG foi declarado campeão com 28 rodadas disputadas. Lyon, Toulouse e Amiens questionaram a decisão na Justiça, mas não foram atendidos.
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RETORNO DO FUTEBOL

Depois de aproximadamente dois meses paralisado, o futebol recomeçou em maio. O primeiro país a retornar foi a Coreia do Sul, no dia 8, com o jogo entre Jeonbuk Motors e Suwon Bluewings. Era o início do “novo normal” no mundo da bola: testagem constante dos jogadores, rígidos protocolos sanitários e, claro, nenhum torcedor na arquibancada. Na Europa, o Campeonato Alemão foi o primeiro a recomeçar, no dia 16 de maio, com a disputa da 26ª rodada.
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SUPER CHAMPIONS EM LISBOA

Muitos ajustes precisaram ser feitos no calendário para a Europa encerrar a temporada 2019/20. Um deles foi a criação da Super Champions. Devido à escassez de datas disponíveis e dificuldades de logística, a Uefa decidiu realizar a reta decisiva da Liga dos Campeões – quartas de final, semifinais e decisão – em uma só cidade, com confrontos em jogo único nas três fases, entre 12 e 23 de agosto. Sem torcida, claro. Lisboa foi escolhida porque vivia a melhor situação no combate à pandemia. Na final, o Bayern de Munique venceu o PSG por 1 a 0 e conquistou a Champions no Estádio da Luz.
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RECOMEÇA A TEMPORADA NA EUROPA

A temporada 2020/21 começou oficialmente, entre as grandes ligas europeias, com Bordeaux 0 x 0 Nantes, no dia 21 de agosto, com presença limitada de público – novidade que logo seria abolida, devido ao aumento de casos. Como foi a única a encerrar prematuramente o campeonato, a França se antecipou aos demais países, que só finalizaram suas ligas nacionais em julho.
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ENSAIO DE RETORNO DO PÚBLICO

A 11ª rodada do Campeonato Inglês, no início de dezembro, marcou o retorno gradual do público aos jogos. Quatro partidas, em regiões com números mais reduzidos de casos de Covid-19, puderam receber dois mil torcedores nas arquibandas, entre eles Liverpool 4 x 0 Wolverhampton. A medida durou pouco tempo, devido ao aumento da pandemia na Inglaterra, e logo os estádios ficaram vazios novamente.
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SEGUNDA ONDA ATINGE A EUROPA

A esperança de um retorno à normalidade nos estádios de futebol se dissipou no final de 2020, quando a Europa começou a sofrer com a segunda onda de Covid-19. O aumento de casos nos clubes forçou o adiamento de inúmeros jogos, como Tottenham x Fulham, pelo Campeonato Inglês, no dia 30 de dezembro.
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AINDA UMA AMEAÇA EM 2021

Um ano depois, a pandemia de Covid-19 ainda obriga o futebol a fazer novas adaptações, como a mudança de jogos das oitavas de final da Champions League para estádios neutros, em Bucareste e Budapeste, devido às restrições de viagens na Europa, e o adiamento do início das Eliminatórias na América do Sul. Há mais dúvidas que respostas por enquanto. Quando haverá público novamente nos estádios? Existe risco de uma nova interrupção dos jogos em alguns países? Grandes torneios internacionais poderão ser realizados nas datas previstas e nos formatos originais? Até que o mundo esteja finalmente imune ao novo coronavírus, o futebol em 2021 continuará regido pelos cuidados sanitários necessários para que a bola possa rolar com a máxima segurança possível.
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Fonte: Globo Esporte
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