Ao Jornal Opção, médica goiana cotada para Ministério da Saúde diz que Brasil paga preço por fazer “tudo errado” na pandemia

Médica cardiologista e intensivista lamenta que presidente e governadores se mantenham em briga quando esforços deveriam estar voltados ao combate da Covid-19 no Brasil, a aquisição de vacinas e a necessidade de adotar medidas protetivas

Foto: Reprodução

Após a notícia de que o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, comunicou ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) que deverá deixar o comando do ministério para tratar de problemas de saúde, o nome da médica anapolina Ludhmila Abrahão Hajjar tem sido cotado como o favorito para assumir a Pasta;

Ludhmila teria o apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e de deputados do Centrão para assumir a vaga.

Confira abaixo o que pensa a médica que atua na linha de frente no tratamento de pacientes com Covid-19 desde o início da pandemia no Brasil, entre fevereiro e março de 2020 em entrevista ao Jornal Opção no dia 7 deste mês.

Ludhmila é médica cardiologista e intensivista que atua em São Paulo, e se tornoi uma das referências na doença. Professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM/USP), a goiana diz que o Brasil apresentou avanços no tratamento da Covid-19 em um ano, mas apresentou retrocessos nas medidas sanitárias e sociais de contenção do avanço do coronavírus (Sars-CoV-2).

“Foi uma ineficiência na adoção de medidas que poderiam ter minimizado muito a prevalência da doença”, lamenta a médica supervisora da Cardio-Oncologia do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas (HC-FM/USP). Coordenadora da Cardiologia do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), Ludhmila Hajjar critica o momento que vivemos na pandemia. “Hoje temos um número muito pequeno da população vacinada. Isso tudo tem um resultado hoje catastrófico, que estamos, infelizmente, assistindo no nosso dia a dia.”

Para a vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Cardiologia da FM/USP e diretora de Ciência, Inovação e Tecnologia da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), o Brasil perde muito em gastar energia e assistir a presidente e governadores em guerra para discutir quem deu mais ou menos dinheiro para combater a Covid-19. “Tem de haver um plano organizado e sistemático. O que já deveria ter sido feito. O Brasil deveria estar hoje com cinco ou seis vacinas disponíveis”, observa Hajjar, que atua na Rede D’Or e já foi coordenadora da UTI Cardio Covid do Instituto Central do HC da Faculdade de Medicina da USP.

“A questão de fazer lockdown e toque de recolher tem de ser tratado Estado por Estado, semana a semana, pelos técnicos e cientistas locais. Não acredito que deve haver uma medida nacional única que sirva para todo o Brasil. Tem de ser tratado individualmente”, avalia a cardiologista e intensivista goiana. Formada pela Universidade de Brasília (UnB), com residência em Clínica Médica no HC-FM/USP e em Cardiologia no InCor da Universidade de São Paulo, Hajjar diz que, mesmo com todo o cenário catastrófico vivido pelo Brasil com combate à pandemia, ainda confia que a situação pode mudar. “Eu sempre acredito. Não digo reverter, mas minimizar a gravidade, reduzir o tamanho da perda. Tem de haver uma transformação da sociedade como um todo.”

Especialista em Clínica Médica, Cardiologia, Terapia Intensiva, Medicina de Emergência e Livre-Docência em Cardiologia Crítica pela Faculdade de Medicina da USP, a anapolina não pouca crítica aos médicos que defende o ineficaz tratamento precoce contra a doença. “Imagine, Augusto, se só o Brasil teria a cura dessa doença! Só os instagrammers, tuiteiros e os youtubers brasileiros saberiam como tratar a fase precoce. Isso é uma vergonha internacionalmente discutida.” Para Hajjar, defender e propagar o uso de medicamentos já descartados pela ciência contra a Covid-19 é um ato de ignorância. “É uma conjunção de fatores – o não conhecimento e a não adoção de práticas baseadas em evidências científicas – que só coloca a vida das pessoas em risco”, alerta.

O que mudou passado um ano de pandemia da Covid-19 no Brasil? O que enfrentamos de desconhecido em 2020 e o que estamos enfrentando em 2021?
Tivemos avanços nos tratamentos, mas tivemos retrocessos nas medidas sanitárias e nas medidas sociais. O que estamos assistindo agora é realmente uma onda de aceleração no número de casos e do número de mortes com, mais uma vez, o colapso do sistema de saúde. Ao mesmo tempo que avançou a terapia e avançou o diagnóstico, melhorou o rastreio dos casos, a desaceleração e a incongruência nas medidas sanitárias foram, infelizmente, responsáveis pelo o que estamos vivendo hoje.

Quando a sra. cita incongruências e relaxamento nas medidas sanitárias, quais foram especificamente os erros cometidos?
Foi uma ineficiência na adoção de medidas que poderiam ter minimizado muito a prevalência da doença. Ao mesmo tempo, não tivemos uma liderança nas três esferas que pudesse falar a língua do povo, que pudesse organizar a resposta das pessoas e da população. Não tivemos medidas sociais para tentar adequar todas as medidas protetivas que são orientadas.

E, ao mesmo tempo, não tivemos uma política de adoção das vacinas que pudesse ter atendido a população de uma maneira geral. Hoje temos um número muito pequeno da população vacinada. Isso tudo tem um resultado hoje catastrófico, que estamos, infelizmente, assistindo no nosso dia a dia.

Como podemos avançar na vacinação? O básico seria a compra de mais vacinas? Há algo mais a ser feito?
Sem dúvida a compra. Mas a compra não é só ter o recurso e comprar. Depende de uma reconstrução rápida de uma política internacional. Depende de o Brasil demonstrar que está em uma situação frágil e que precisa de ajuda. E depende, ao mesmo tempo, de existir uma união de todas as esferas da sociedade, do governo federal, estadual e municipal, entidades clínicas, entidades públicas e privadas no sentido de organizar uma sistemática de aquisição de vacinas e de transferência de tecnologia para o Brasil produzir.

É um assunto que não pode ser tratado na miudeza e nem na necessidade diária. E, sim, tem de haver um plano organizado e sistemático. O que já deveria ter sido feito. O Brasil deveria estar hoje com cinco ou seis vacinas disponíveis. E o Brasil não fez isso. Mas ainda dá tempo de fazer. E é o que temos cobrado incessantemente.

Vemos os governadores e secretários estaduais de saúde discutirem com o Ministério da Saúde a adoção de um toque de recolher nacional das 20 às 6 horas. É o suficiente para tentar conter o avanço dos casos de Covid-19?
Não concordo com a medida. Discordo completamente. O Brasil é um país continental que tem 27 Estados. Cada Estado tem a sua epidemiologia local, a sua realidade, o seu número de leitos. A questão de fazer lockdown e toque de recolher tem de ser tratado Estado por Estado, semana a semana, pelos técnicos e cientistas locais. Não acredito que deve haver uma medida nacional única que sirva para todo o Brasil. Tem de ser tratado individualmente.

O que tem de ser tratado sistematicamente é a adoção das políticas de proteção e da distribuição das vacinas. E, obviamente, do reforço do sistema de saúde. Isto tem de envolver todas as esferas e tem de ser feito universalmente. Mas a questão do lockdown e do toque de recolher nacionalizado eu discordo completamente porque o Brasil tem realidades distintas em cada Estado, em cada município. E a pandemia é dinâmica. Hoje tem um Estado com falta de leito, amanhã tem outro Estado com sobra de leito. É assim que funciona. Não acredito que a realidade tem de ser a mesma.

Mas a responsabilidade passada para o povo, o momento atual, o momento de um ajudar o outro, tem de ser difundido de uma maneira igual.

Em Goiás, tanto a rede pública quanto a particular de UTIs e enfermarias destinadas ao atendimento de pacientes com Covid-19 superaram 95% de ocupação. Foi quando a Região Metropolitana de Goiânia decidiu pelo fechamento das atividades econômicas consideradas não essenciais. No primeiro dia de vigor da medida, só 32,6% da população do Estado ficou em isolamento social. Há uma resistência da população em aderir às medidas restritivas?
Há uma resistência, sim, no sentido de que não tem uma ordem nacional neste aspecto. Há muita controvérsia. As pessoas não sabem se acreditam ou não. Na verdade, a primeira coisa que devemos fazer enquanto país é tentar unir as forças no combate à pandemia. Isto eu não vejo até agora.

É lamentável ver governador brigar com o presidente, presidente brigar com governador. Toda esta energia tinha de ser usada no combate à pandemia. Este é o problema. Isto não está sendo feito. No que o povo vai acreditar? Na propaganda da televisão, no que o presidente fala, no que o Ministério da Saúde orienta ou no que o governador fala? O discurso tem de ser um só.

É óbvio que o isolamento social tem de ser preservado, todas as pessoas têm de estar aderentes. Agora, se é lockdown ou toque de recolher depende do Estado. Depende do Estado e depende do município. Mas isolamento social tem de ser para todos. O problema é que as pessoas perderam o crédito na classe política, perderam o crédito em muitos órgãos de imprensa, cada um falando uma coisa.

Por outro lado, os conselhos de medicina muitas vezes adotando fake news, não ajudando a população, só piorando tudo com a venda de uma imagem de que o tratamento preventivo com aquelas medicações completamente ineficazes pode salvar as pessoas. Um conjunto de erros que culminou agora nesta tragédia que o Brasil está vivendo.

Na minha opinião, o que realmente faltou foi ciência, combater o negacionismo, união das classes. Não tem sentido, no momento em que as pessoas estão morrendo por falta de leitos, governador e presidente ficar trocando farpas, um que deu muito dinheiro, o outro que não deu dinheiro. O que que é isso? Era para estar todo mundo buscando fazer diagnóstico, tratar os doentes, aumentar o número de leitos, não deixar de atender os outros doentes que têm outras doenças.

Vamos lembrar que quando explodem os casos de Covid-19, o que tem ocorrido com os infartos? Onde é que estão os doentes? Cadê as consultas dos cânceres que não podem esperar? Alguém está pensando nisso? Não. Só se fala que não tem leito, não tem leito, não tem leito. Sendo que o sistema de saúde tem de mudar.

Eu tenho de pegar meu hospital, seja público ou privado, e tenho de organizar este hospital para continuar atendendo câncer, continuar atendendo infarto e aumentar o número de leitos para Covid. Com o dinheiro da iniciativa privada, com o dinheiro do Ministério da Saúde, com o dinheiro da Secretaria da Saúde e não ficar tuitando coisa.

Realmente há uma desordem nacional, uma desconfiança gigantesca que a população está vivendo e isso tem nome. As pessoas… na própria classe médica, quanta gente atrapalha o tratamento da doença difundindo medicações fantasiosas, difundindo cura da doença, sendo que essas pessoas deveriam estar buscando fazer diagnóstico, assistir os pacientes, aumentar o número de leitos.

É tanto erro, tanto erro, tanto erro. E agora estamos pagando.

“Boa parte dos médicos que defendem tratamento precoce para Covid-19 são completos ignorantes na profissão”

Em fevereiro, Ludhmila Hajjar tomou a segunda dose da vacina Coronavac em São Paulo por ser profissional da saúde que atua desde o início da pandemia no Brasil no tratamento de pacientes com Covid-19 | Foto: Reprodução/Instagram

Por que parte da classe médica e dos conselhos regionais de medicina tem defendido o tratamento precoce mesmo com várias pesquisas confirmadas por cientistas independentes de que os remédios propagados não têm eficácia alguma para Covid-19?
Deve-se a dois fatores. Um é ignorância. Infelizmente, o Brasil é um país que nos últimos anos investiu nada em educação. As faculdades de medicina estão cada vez piores. Digo de uma maneira genérica, mas essa é a verdade. O médico tem uma formação cada vez pior. Boa parte dos que dizem isso são completos ignorantes na profissão.

Segundo, tem uma questão de vaidade. Muita gente quer aparecer, que ter paciente, quer ter nome no jornal, quer dar entrevista. Pegaram uma retórica. Construíram uma narrativa. Na construção dessa narrativa, essa pessoa passa a ser ouvida, passa a ter paciente, a atender por telemedicina.

Gente que não tinha espaço, gente que tinha um trabalho comum. Infelizmente, tem um pouco de aproveitamento da situação atual, do sofrimento das pessoas, porque é absolutamente absurdo, associado a uma ignorância, que, infelizmente, hoje está no nosso Brasil não só nos profissionais da saúde, mas em muitas pessoas.

E cabe a nós combater isso com a ciência, com a educação. Olhar para um país de futuro e ver o tanto que deixamos de investir. Imagine, Augusto, se só o Brasil teria a cura dessa doença! Só os instagrammers, tuiteiros e os youtubers brasileiros saberiam como tratar a fase precoce. Isso é uma vergonha internacionalmente discutida.

Sabemos que cloroquina não funciona há muitos meses, que azitromicina não funciona há muitos meses, que ivermectina não funciona há muitos meses. Mas ainda tem esses kits por aí. Tem conselhos que defendem. Tem conselhos que não negam. É uma conjunção de fatores – o não conhecimento e a não adoção de práticas baseadas em evidências científicas – que só coloca a vida das pessoas em risco.

Tivemos dois momentos emblemáticos recentes na pandemia. Na quinta-feira, 25 de fevereiro, foram confirmadas 1.582 mortes em 24 horas [número superado por dois dias seguidos na semana passada]. Na mesma data, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) foi para live semanal criticar o uso de máscara com base em uma enquete feita na Alemanha, mas a utilizou como se fosse um estudo científico. Como convencer a população a usar a máscara da forma correta, tampando boca e nariz, e não no queixo, em um contexto assim?
A pesquisa científica da Alemanha citada é uma vergonha. É um questionário. Não teria nem que ser discutido. Quem faz isso refuta tudo que há de ciência. A máscara e a vacina são as duas melhores maneiras de se prevenir. É mais um fruto da falta de conhecimento, que é o que estamos – de uma maneira lamentável – vivendo.

Em meio à confusão de informações falsas, como insistir para que as pessoas adotem protocolos básicos de prevenção e higiene pessoal contra a doença?
Tem de insistir. É um trabalho da imprensa, dos profissionais da saúde, da sociedade, dos nossos líderes. Tem muitos líderes sérios fazendo um excelente trabalho. É preciso realmente que a sociedade acorde, olhar o que está acontecendo na própria janela, na vida, nas portas dos hospitais, com as famílias perdendo pessoas.

Não era nunca para estarmos em crescimento do número de doentes mortos sendo que o mundo todo demonstra uma queda. O Brasil está fazendo tudo errado e está pagando um preço por isso.

A sra. acredita que ainda dá tempo de reverter a situação?
Eu sempre acredito. Não digo reverter, mas minimizar a gravidade, reduzir o tamanho da perda. Tem de haver uma transformação da sociedade como um todo. A pessoa, o paciente, o cidadão tem de ter um engajamento na sua vida, sobre a sua saúde. Isso é fato. A começar da responsabilidade de cada um.

Segundo, tem de haver uma mudança de comportamento básico da classe política de uma maneira geral. É momento de união. Eu, como médica, estou na linha de frente desde o início da pandemia no Brasil. Fico extremamente triste quando vejo que, ao invés de estarem unidos, nossos líderes estão discutindo para ver quem deu e quem não deu recurso. Não tem cabimento!

Agora é hora de olhar para as pessoas, para os pacientes, para os hospitais e para o sistema de saúde. Para o sistema de transporte, para as medidas protetivas, para a aquisição de vacinas. Tem de haver um choque nessa história. Parece que as pessoas estão adormecidas.

Vimos nas últimas duas semanas os hospitais particulares Albert Einstein e Sírio-Libanês em São Paulo serem obrigados abrir fila de espera para transferência de pacientes para leitos de UTI destinados ao tratamento de Covid-19.
Todos os hospitais de São Paulo. A Rede D’Or inteira, que tem mais de 50 hospitais no Brasil, está abrindo leitos. Porque nós não vamos deixar de atender os pacientes de fora, os que foram transferidos. Não vamos deixar de atender os pacientes cirúrgicos com outros problemas clínicos. De jeito nenhum!

Por muito tempo, divulgou-se que os jovens poderiam ser menos afetados pela Covid-19 na evolução para quadros clínicos graves da doença. E agora vemos uma quantidade grande de jovens internados, inclusive nos óbitos.
É verdade. Mudou um pouco o comportamento da doença. Hoje temos jovens de 20, 30 e 40 anos intubados com forma grave de Covid-19. Isso é comum nas doenças infecciosas na medida em que os vírus vão circulando e adquirem formas mais graves, mesmo em população de menor risco. Isso é fato.

Quando o ex-ministro Luiz Henrique Mandetta foi demitido do Ministério da Saúde em 16 de abril de 2020, o nome da sra. surgiu na imprensa como possível substituta na pasta. Chegou a ser convidada pelo presidente Jair Bolsonaro na reunião que participou em Brasília pouco antes da saída de Mandetta do governo?
Muita especulação. Agora o Brasil tem de focar não em que irá substituir, e sim em entender que a saúde é uma política de Estado, não do governo atual. Sou médica. Sou médica de beira de leito. Não sou política. Não tenho qualquer tipo de objetivo de vida política.

Meu objetivo é ser médica. Neste momento, estou pronta para ajudar os pacientes, entendeu? Sempre disse isso. As pessoas querem politizar tudo. É hora de a sociedade olhar para a doença. E para os pacientes.

A sra. nasceu em Goiás.
Sou de Anápolis.

Qual é a relação da sra. com o Estado e a cidade de Anápolis?
É ótima. Sou muito amiga do governador [Ronaldo] Caiado (DEM). Participo de muitas decisões, inclusive da minha cidade, com o prefeito Roberto Naves (PP). Sou uma conselheira e amiga.

Seu pai, o empresário Samir Hajjar, de 69 anos, teve Covid-19 e a sra. decidiu pela internação dele. Como foi passar pela situação de ter de tratar do próprio pai no hospital?
 Meu pai me ligou e disse, em uma terça-feira, que estava se sentindo estranho. Fiz um vídeo com meu pai, ele em Anápolis e eu aqui em São Paulo. Ele estava com muita febre. Pedi para que ele fosse imediatamente para Brasília. Na hora já desconfiei de Covid.

Quando meu pai chegou a Brasília, já estava com a saturação baixa. Os primeiros sintomas foram febre e uma dor lombar. Não teve falta de ar, como é típico dessa doença. Quando ele fez a tomografia em Brasília naquela mesma noite, eu acompanhando tudo a distância, meu pai já estava com 70% dos pulmões inflamados, acometidos.

No outro dia eu já o internei na UTI do Hospital DF Star, de Brasília, da Rede D’Or. No dia seguinte, peguei um avião pela manhã e fui para Brasília. Fiquei com meu pai por 48 horas e na sexta-feira decidi trazê-lo porque o quadro estava se agravando. Primeiro, eu precisava ficar perto dele o tempo todo. Segundo, apesar de Brasília contar hoje com uma estrutura muito boa, queria que meu pai estivesse em São Paulo caso fosse necessária a intubação orotraqueal, a ventilação mecânica invasiva.

Foi bem difícil para mim. Foram dias muito tensos. Mas, ao mesmo tempo, no final foi bastante recompensador. Eu mesma que cuidei do meu pai no Hospital Vila Nova Star, em São Paulo. Fui a médica dele e fiquei extremamente feliz em poder ter participado de sua cura. Claro que contei com assistentes e toda equipe de saúde, mas eu era responsável por examiná-lo, fazer a prescrição, por cuidar e tomar as decisões.

Meu pai passou perto de ser intubado. Mas já naquela ocasião, eu lancei mão do corticoide, do anticoagulante, do plasma e do tocilizumabe. Hoje, depois de algum tempo, essas medicações fazem parte de uma evidência científica maior. Só tenho a agradecer a Deus e à estrutura hospitalar do nível que ele teve. Sempre disse que desejo a todos os pais que tenham o que o meu pai teve.

Pai da médica cardiologista e intensivista Ludhmila Hajjar, o empresário Samir Hajjar ficou 15 dias internado em setembro de 2020 até se recuperar da Covid-19 | Foto: Reprodução/Instagram

 

Fonte: Jornal Opção

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