“Não aguento mais”: o desabafo de quem está na guerra contra a Covid

Goiânia e Rio de Janeiro – Em apenas um plantão, um médico viu 10 pacientes morrerem em uma unidade de terapia intensiva (UTI) para Covid em Goiás. Uma colega de profissão perdeu a conta de trabalhadores da saúde que pediram afastamento ou demissão por exaustão extrema. Para outro médico, do Rio, a pandemia mostrou que ele “não tinha mais família”.

“Nunca dei tanta notícia de óbito na minha vida nem vi tantos colegas sofrerem junto de pacientes e familiares. Parece filme de terror, e, a qualquer momento, a gente também pode ser acometido”, conta o médico goiano Euler Sousa e Silva, de 46 anos.

Em todo o Brasil, profissionais de saúde enfrentam rotina em verdadeiros campos de guerra contra o coronavírus, que já matou quase 280 mil pessoas. Entre elas, estão 624 médicos que foram contaminados ao tentar salvar vida de pacientes com Covid em hospitais, segundo memorial virtual do Conselho Federal de Medicina (CFM), além de cerca de 600 enfermeiros.

Aos que continuam na linha de frente contra o coronavírus, só resta encarar o ápice do esgotamento físico e mental que ainda atinge milhares de profissionais da saúde no segundo ano da Covid no país, como mostra o Metrópoles nesta reportagem, com casos de Goiás, Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

2021, ano mais tenebroso

O caos deve aumentar. No país, oito em cada dez profissionais de medicina da linha de frente veem a pandemia neste ano tão grave quanto no ano passado ou até mesmo pior. Sete em cada dez apontam tendência de aumento de mortes.

Os dados são da primeira pesquisa nacional Os Médicos e a pandemia de Covid-19, promovida pela Associação Médica Brasileira (AMB), com 3.882 trabalhadores da categoria e divulgada no mês passado. No total, 92% deles confirmaram casos de profissionais com ao menos um problema por causa do enfrentamento contra a pandemia. Veja os principais:

  • Ansiedade;
  • Estresse;
  • Sensação de sobrecarga;
  • Exaustão física ou emocional;
  • Mudanças bruscas de humor;
  • Dificuldade de concentração.
Choro, rotina dolorosa

Apesar do medo, o intensivista de Goiás mergulha na dolorosa maratona de horror todos os dias. Ele se divide entre plantões em hospital particular de Aparecida de Goiânia e no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), em Brasília, e transporte de pacientes com Covid em ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu).

“Já chorei na frente de colegas. Às vezes, a gente sai de perto e vai para um canto para não abalar o resto da equipe, mas teve momento que foi na frente de todo mundo, porque a gente tem fraqueza”, desabafa. Logo em seguida, cai no silêncio e chora. “Estou engasgado, cansado, não aguento mais essa carga.”

Presidente de associação que reúne 33 hospitais de alta complexidade na rede privada em Goiás, todos com leitos de Covid lotados, Haikal Helou confirma que médicos estão no limite. “A pressão é constante. Tem médico tomando remédio pra dormir, amigos psiquiatras dizem que os consultórios nunca estiveram tão cheios, principalmente de colegas”, afirma.

Os profissionais de saúde não estão livres de sentir no próprio seio da família as garras da doença. A presidente do Sindicato dos Médicos de Goiás, Franscine Leão, de 38, viveu uma das piores sensações, no último domingo (7/3), quando a irmã dela, de 35, com Covid-19, teve o quadro agravado.

Mesmo com plano de saúde, faltava vaga em um sistema à beira do colapso. A mulher ficou um dia em casa com ventilação de oxigênio alugado pela própria família. Como o caso evoluiu rapidamente para complicações, teve que buscar vaga na rede hospitalar. Acabou sendo intubada em UTI para Covid do hospital particular mais caro de Goiânia.

Terror na memória

Desde que a irmã foi diagnosticada com Covid, em fevereiro, a médica dividiu atenção ao caso com a rotina em unidade de saúde de Trindade, na região metropolitana de Goiânia, onde é constante a espera de pacientes graves por vaga em UTI. Apesar de sua irmã ter recebido alta na última sexta-feira (12/3), Leão guarda terror na memória.

“Ano passado, já tive que escolher quem iria ficar com oxigênio e quem iria ficar com falta de ar. Não tinha ponto de oxigênio”, lembra. “Este ano isso ainda não aconteceu comigo, mas a gente tem observado que agora estão morrendo muitos pacientes jovens”, conta. “A sensação de impotência é muito grande.”

Ritmo frenético

Diariamente, em todo o país, cada pessoa internada por Covid exige uma intensa operação de profissionais. Cobertos pelos incômodos e imprescindíveis aparatos de proteção, eles atuam em ritmo de máquinas, para pronar (virar de bruços), sedar, intubar e, em casos mais graves, ambuzar (realizar respiração manual) e fazer muita força para reanimar os pacientes.

“Já fiquei duas horas reanimando paciente. Em muitos, o respirador [mecânico] não entra. O pulmão fica duro igual pedra. Muitas vezes, a gente tem que ficar em pé na maca, jogando peso do nosso corpo, para conseguir fazer a massagem cardíaca efetiva. Chegou a ponto de eu ter câimbra na mão. Quando parei e declarei o óbito, estava molhada, escorrendo suor”, lembra. Ficou um profundo sentimento de frustração.

Segundo Leão, médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem estão exaustos, em hospitais de todo o país. “A gente está servindo para fazer atestado de óbito”, relata. “Já perdi as contas de quantos colegas estão se afastando e de enfermeiros pedindo demissão por transtorno de ansiedade ou de estresse pós-traumático”, acrescenta.

Desolação no Rio

Assim como Goiás, São Paulo e DF, o Rio de Janeiro também virou cenário de desolação para os profissionais da saúde. O médico intensivista Cláudio Chagas, de 41, ex-diretor técnico do Hospital de Campanha no Riocentro, zona oeste do Rio, disse que a pandemia provocou uma reviravolta em sua vida.

“A pandemia chegou, e a principal mudança na minha vida foi entender que ‘eu não tinha mais família’”, diz. O maior desafio dele, além de lidar com o vírus desconhecido e a dificuldade de cuidar dos doentes, foi dirigir a equipe de hospital que se dedicou exclusivamente a pacientes com Covid.

Para isso, teve de improvisar recursos enquanto fornecedores não entregavam, adaptar equipamentos e, principalmente, absorver a necessidade de cuidar dos médicos sob o comando dele.

“Aqueles que perdiam seus parentes, que saíram de casa para proteger seus parentes, aqueles que desistiram, entre outros desafios, sem esquecer que eu também tinha em casa pessoas para cuidar”, conta. Ele também é ex-chefe do CTI do Hospital Ronaldo Gazolla, referência no estado do Rio e exclusivo para pacientes de Covid-19.

Casal no combate

Chagas perdeu o pai em setembro, mas não sabe se foi por causa de complicações da Covid, porque, segundo ele, o diagnóstico foi inconclusivo. “Para me ajudar e ficar perto, minha esposa, dermatologista, entrou para a equipe, e ambos passamos esse tempo preocupados com nossa filha, de 4 anos”, relata.

“O mais forte para mim foi perder meu pai, entender o quanto foi e tem sido grave o efeito devastador do vírus e a falta de expectativas de melhora num curto prazo”, conta o médico do Rio.

Ele resume a mesma frustração e falta de perspectiva dos demais profissionais de saúde de todo o país. O agravante é que a vacinação caminha a passos lentos, e a pandemia tem encontrado força diante da falta de política nacional de enfrentamento à Covid, articulada com estados e municípios.

 

Fonte: Metrópoles

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