Pré-temporada: RBR é a ameaça ao domínio da Mercedes. Será?

Voando Baixo — Saquarema, RJ

Por Rafael Lopes

Comentarista de automobilismo do Grupo Globo

Pré-temporada: RBR é a ameaça ao domínio da Mercedes. Será?

Dan Istitene/F1 via Getty Images

Mais curta que o normal, com apenas três dias, a pré-temporada da Fórmula 1 chegou ao fim neste domingo. Diretamente impactada pela pandemia da Covid-19, os testes também mudaram de lugar: de Barcelona, na Espanha, para Sakhir, no Barein, local da primeira corrida do ano, no dia 28 de março. E o que os resultados das atividades podem indicar para o campeonato de 2021 da maior categoria do automobilismo mundial? Bem, se olharmos apenas para a tabela de tempos, nada. Principalmente porque as equipes não necessariamente realizam os mesmos programas. Para ter um diagnóstico melhor da pré-temporada, temos de analisar tudo o que aconteceu na pista.

Melhores tempos nos três dias de testes da Fórmula 1 no Circuito Internacional do Barein, em Sakhir — Foto: Pirelli

Melhores tempos nos três dias de testes da Fórmula 1 no Circuito Internacional do Barein, em Sakhir — Foto: Pirelli

– Como está a sempre favorita Mercedes?

 

Lewis Hamilton sofreu com a instabilidade de sua Mercedes nos testes no Barein — Foto: Clive Mason/F1 via Getty Images

Lewis Hamilton sofreu com a instabilidade de sua Mercedes nos testes no Barein — Foto: Clive Mason/F1 via Getty Images

Essa é uma pergunta que precisa ser respondida em duas partes. Primeiro, a redução dos habituais oito para três dias de testes impactou diretamente a programação da equipe alemã. Um problema de câmbio com Valtteri Bottas na manhã do primeiro dia causou um enorme atraso para as Panteras Negras. Com isso, pela primeira vez desde o início da era híbrida, em 2014, o time não teve a maior quilometragem da pré-temporada. Pelo contrário: foi o que menos andou nos três dias.

Só que isso não é algo inédito nestas sete temporadas de domínio da Mercedes. Mas como sempre foram duas sessões de quatro dias, a equipe alemã conseguia compensar um eventual problema na primeira semana andando enlouquecidamente na segunda. Desta vez, eles terão de corrigir eventuais falhas trabalhando nos computadores da fábrica em Brackley e confiando, claro, nos resultados das simulações. Um ponto importante: ao contrário das outras equipes, a Mercedes ainda não fez seu dia de filmagem – usado pelas outras como shakedown de seus novos carros. A atividade está marcada para o dia 16 de março, nesta terça-feira, no Barein. A primeira oportunidade para uma – se necessária, claro – correção de rumos no desempenho do W12.

Quilometragem por equipe na pré-temporada no Barein

Pos. Equipe Quilômetros Voltas
1 AlphaTauri 2.284 422
2 Alfa Romeo 2.284 422
3 Ferrari 2.186 404
4 Alpine 2.143 396
5 Haas 2.132 394
6 Williams 2.019 373
7 RBR 1.997 369
8 McLaren 1.770 327
9 Aston Martin 1.699 314
10 Mercedes 1.645 304

Segundo: a Mercedes tem um ponto positivo: as poucas alterações no regulamento de 2021, por causa do acordo entre os times e a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) para reduzir custos após os efeitos da pandemia da Covid-19. Neste ano, basicamente, as equipes usarão os carros de 2020 atualizados. Atendendo a um pedido da Pirelli, fornecedora oficial de pneus da F1, a FIA reduziu a carga aerodinâmica nos modelos com alterações principalmente na parte traseira dos assoalhos e no difusor. Os pneus também foram alterados: têm uma estrutura mais resistente e, por isso, são mais pesados.

Essas mudanças fizeram com que o W12 sofresse com a instabilidade na parte traseira. Hamilton chegou a rodar na última curva do circuito de Sakhir antes de abrir uma volta rápida no último dia de testes. A Mercedes ainda não sabe a causa do problema, mas está investigando. Não ficaria surpreso com uma solução rápida para a falha, ainda mais com a quantidade de dados que a equipe acumulou com o W11. A pré-temporada serve exatamente para sanar esses problemas eventuais.

Instabilidade na parte traseira do W12 é o grande problema a ser corrigido pela Mercedes em 2021 — Foto: Dan Istitene/F1 via Getty Images

Instabilidade na parte traseira do W12 é o grande problema a ser corrigido pela Mercedes em 2021 — Foto: Dan Istitene/F1 via Getty Images

Além disso, tudo o que aconteceu nos últimos anos nos ensinaram a nunca descartar o favoritismo da Mercedes. A equipe alemã já demonstrou várias vezes ter um poder de reação absurdo. É claro que a tendência é termos uma temporada mais equilibrada que a de 2020, mas tirar as Panteras Negras da posição de favoritismo não é inteligente.

– E a RBR? Pode brigar com a Mercedes?

 

Max Verstappen foi o mais rápido nos três dias de testes da Fórmula 1 no Barein — Foto: Dan Istitene/F1 via Getty Images

Max Verstappen foi o mais rápido nos três dias de testes da Fórmula 1 no Barein — Foto: Dan Istitene/F1 via Getty Images

Estamos diante de uma das vantagens da estabilidade do regulamento entre 2020 e 2021. Como as mudanças foram pequenas, a RBR percebeu, ainda no ano passado, que sua maior chance estaria nesta temporada. Então, aproveitou a segunda metade do campeonato para trabalhar o carro para 2021. A pole e a vitória de Max Verstappen no GP de Abu Dhabi, a última corrida do ano, já mostraram que foi uma decisão acertada e indicaram um bom caminho. E os testes confirmaram isso.

Historicamente, a RBR começa mal e evolui sempre ao longo da temporada. Ônus e bônus de contar com o gênio Adrian Newey, o mago da aerodinâmica, que sempre opta por um caminho bem ousado. Em 2021, isso está sendo diferente. A equipe austríaca não teve problemas nos três dias de atividades no Barein com o RB16B. Bom presságio: impressionou pelo desempenho e pela confiabilidade neste ano. O holandês Max Verstappen, inclusive, foi o mais rápido dos testes.

Com boa confiabilidade, RBR teve o carro mais estável dos três dias de testes no Barein — Foto: Clive Mason/F1 via Getty Images

Com boa confiabilidade, RBR teve o carro mais estável dos três dias de testes no Barein — Foto: Clive Mason/F1 via Getty Images

A RBR preferiu manter os pés no chão com os resultados no Barein, mas a combinação de velocidade e confiabilidade deixou a equipe e os pilotos animados. Principalmente se lembrarmos da pré-temporada de 2020, quando a Mercedes não teve problemas e foi muito rápida, enquanto o time austríaco sofreu com a instabilidade do RB16, principalmente na traseira do carro. Em 2021, os papeis se inverteram.

Ainda é cedo, claro, para dizer se a RBR vai ameaçar o domínio da Mercedes. Mas é fato, até se analisarmos a parte final do ano passado, que a equipe austríaca se aproximou. Os resultados da pré-temporada prometem um maior equilíbrio em 2021. Será que veremos finalmente o tão esperado duelo entre Lewis Hamilton e Max Verstappen?

– E a briga pela terceira força?

 

Nos testes, Daniel Ricciardo impressionou em seu primeiro contato com o carro da McLaren — Foto: Hasan Bratic/Getty Images

Nos testes, Daniel Ricciardo impressionou em seu primeiro contato com o carro da McLaren — Foto: Hasan Bratic/Getty Images

Assim como em 2020, a briga pela terceira posição no Mundial de Construtores promete bastante. Após os três dias de pré-temporada, o equilíbrio se mostrou ainda maior que no ano passado. Não dá para cravar ainda quem está na frente, até porque temos muitas variáveis para serem avaliadas na hora de traçar uma divisão de forças: de carga de combustível a modos diferentes de motor. E isso em Sakhir é mais decisivo, bem diferente de Barcelona, sede habitual dos testes.

Em Sakhir, por exemplo, o desgaste dos pneus é bem maior que em Barcelona, o que aumenta a perda de desempenho após algumas voltas. Outro ponto é o horário dos testes, que começavam com muito calor, às 10h locais, e terminavam às 19h, com a temperatura bem mais baixa à noite. A diferença de tempos da manhã para a noite chegava a quase 1s5. Além disso, por causa das longas retas e das fortes retomadas, os modos do motor têm uma influência enorme no Barein.

Fernando Alonso voltou a uma pré-temporada da Fórmula 1 ao volante do carro da Alpine — Foto: Clive Mason/Getty Images

Fernando Alonso voltou a uma pré-temporada da Fórmula 1 ao volante do carro da Alpine — Foto: Clive Mason/Getty Images

Para complicar ainda mais essa análise, McLaren, Alpine, Aston Martin, Ferrari e AlphaTauri apareceram bem em pelo menos algum momento nos três dias de testes. Agora com os motores Mercedes, a McLaren teve um carro confiável e rápido, principalmente com o australiano Daniel Ricciardo. A Alpine teve o retorno do bicampeão Fernando Alonso, que pareceu estar em boa forma, assim como sua nova-velha equipe.

O japonês Yuki Tsunoda foi um dos destaques da pré-temporada ao volante da AlphaTauri — Foto: Peter Fox/Getty Images

O japonês Yuki Tsunoda foi um dos destaques da pré-temporada ao volante da AlphaTauri — Foto: Peter Fox/Getty Images

Outra equipe que impressionou foi a AlphaTauri, que neste ano usa a parte traseira da coirmã RBR. O carro parece ainda melhor que o do ano passado, demonstrou confiabilidade e velocidade. Outro bom fator foi a estreia do promissor japonês Yuki Tsunoda. A Ferrari, depois de um ano horroroso em 2020, parece ter reagido, mas ainda é uma incógnita com a dupla de pilotos mais inexperiente desde Jean Alesi e Ivan Capelli em 1992. O monegasco Charles Leclerc e o espanhol Carlos Sainz Jr. são uma parceria promissora, mas precisam estar preparados para lidar com a pressão de correr pela equipe italiana. Não é algo fácil.

Após ano tenebroso, Ferrari, agora com Carlos Sainz Jr., parece ter dado um passo à frente — Foto: Joe Portlock/Getty Images

Após ano tenebroso, Ferrari, agora com Carlos Sainz Jr., parece ter dado um passo à frente — Foto: Joe Portlock/Getty Images

Para completar, a Aston Martin, novo nome da Racing Point, sofreu com a confiabilidade em um carro que mudou muito em relação à “Mercedes Rosa” de 2020. Quem sofreu muito com isso foi o alemão Sebastian Vettel, que não conseguiu dar um número de voltas suficiente para se sentir em casa após seis temporadas na Ferrari. O tetracampeão terá muito trabalho nos treinos livres do GP do Barein.

Sebastian Vettel sofreu com problemas de confiabilidade do carro da Aston Martin no Barein — Foto: Joe Portlock/Getty Images

Sebastian Vettel sofreu com problemas de confiabilidade do carro da Aston Martin no Barein — Foto: Joe Portlock/Getty Images

– Conclusão do Voando Baixo

 

Se tem uma coisa que eu aprendi nestes anos todos cobrindo Fórmula 1 é que a pré-temporada sempre precisa ser avaliada com parcimônia e cautela. Nos últimos seis anos, o mais rápido dos testes não terminou o ano como o campeão da maior categoria do automobilismo.

Melhores tempos das pré-temporadas na era híbrida

Ano Piloto País Equipe Tempo Circuito Posição no campeonato
2014 Felipe Massa BRA Williams-Mercedes 1m33s258 Sakhir 7º lugar
2015 Nico Rosberg ALE Mercedes 1m22s792 Barcelona Vice-campeão
2016 Kimi Raikkonen FIN Ferrari 1m22s765 Barcelona 6º lugar
2017 Kimi Raikkonen FIN Ferrari 1m18s634 Barcelona 4º lugar
2018 Sebastian Vettel ALE Ferrari 1m17s182 Barcelona Vice-campeão
2019 Sebastian Vettel ALE Ferrari 1m16s221 Barcelona 5º lugar
2020 Valtteri Bottas FIN Mercedes 1m15s732 Barcelona Vice-campeão

A pré-temporada é útil principalmente para as equipes avaliarem seus carros – traçar comparativos é sempre complicado, ainda mais em 2021, quando os testes saíram de Barcelona e foram para Sakhir, pista que os engenheiros têm muito menos informações. Além disso, ela serve para termos uma ideia do que pode acontecer ao longo da temporada. E o que podemos dizer – e torcer? Tudo indica que será um ano de muito equilíbrio, tanto na frente quanto na briga pela terceira força.

Fonte: Globo Esporte 
print