O gol do City de Guardiola que, em breve, pode acontecer no Brasil

Em um lance, as razões pelas quais técnicos de clubes brasileiros pedem que zagueiros conduzam a bola

Por Carlos Eduardo Mansur (Jornalista).

O futebol sem público, embora nos tenha privado de boa parte da alma do jogo, terminou por revelar através das transmissões de TV muito do que se fala em campo. Por exemplo, algumas das ideias dos treinadores.

“Conduz, conduz”. Não foram poucas as vezes que o torcedor do Flamengo ouviu Rogério Ceni dirigir esta instrução aos seus zagueiros. No último domingo, numa entrevista coletiva em que falou aberta e claramente sobre suas opções de escalação e os objetivos de cada uma de suas escolhas, o técnico espanhol Miguel Ángel Ramírez, do Internacional, elogiou a maior predisposição dos defensores a “progredir, avançar e encontrar homens mais livres”. No São Paulo, Crespo também é adepto da ideia.

Mas o que estes treinadores pretendem? Embora por caminhos um pouco distintos, eles têm por objetivo o protagonismo dos jogos através de posse de bola e construção ofensiva, o que usualmente os faz depararem com defesas fechadas. Neste cenário, é difícil ter sucesso sem zagueiros que, além de treinados dentro de um modelo de jogo, tenham coragem para avançar com a bola.

A ideia é que o defensor, muitas vezes deixado “mais livre” por rivais que concentram atenção em homens teoricamente mais perigosos, possa conduzir a bola até obrigar um adversário a confrontá-lo. Com este movimento, libera um meia ou atacante que, antes, estava vigiado de perto. Daí aparece o “homem livre” a que Ramírez se referiu.

No sábado, a difícil vitória do Manchester City sobre o Everton foi construída justamente assim. A construção desde a defesa é inegociável no time de Guardiola, hoje dono de algumas das exibições mais vistosas do mundo. Para tanto, a valentia dos defensores é fundamental. O primeiro gol começa com uma condução de Aymeric Laporte, defensor contratado, entre outras virtudes, por sua capacidade de se adaptar ao modelo. No início da jogada, Gundogan e Kevin de Bruyne estão vigiados pela linha de meias do Everton. Como mostra a imagem abaixo.

 — Foto: Reprodução Wyscout

— Foto: Reprodução Wyscout

Conforme Laporte avança, o meia Sigurdsson se vê obrigado a marcá-lo e sinaliza para o brasileiro Allan sobre a necessidade de vigiar Gundogan, antes vigiado pelo islandês.

 — Foto: Reprodução Wyscout

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O resultado da manobra é o surgimento do “homem livre”. No caso, ninguém menos do que Kevin de Bruyne, alvo do passe de Laporte. A partir daí, o belga infiltra na área e gera o lance do gol de Gundogan.

 — Foto: Reprodução Wyscout

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O lance mostra ideias muito características do Jogo de Posição praticado por Guardiola e que é base do ideário de Ramírez, agora no Internacional. Mas revela outros aspectos. Um deles, o quanto o futebol vai refazendo o currículo básico de cada posição no campo, de acordo com o modelo de jogo que se pretende implantar. Nem sempre o melhor defensor para o seu time é simplesmente o melhor rebatedor.

Outra questão é a valentia para executar ideias, convencer o zagueiro, historicamente orientado a simplificar lances, a se comprometer com a construção e, claro, com uma dose de risco. O trabalho do treinador é, muitas vezes, questão de convencimento. Questão de convicção, qualidade de trabalho e, claro, de tempo.

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