Novos empréstimos caem abaixo dos níveis anteriores à pandemia

As concessões de empréstimos e financiamentos pelos bancos a empresas e famílias caíram em fevereiro deste ano para níveis inferiores até mesmo àqueles verificados nos meses anteriores à pandemia, num enxugamento que veio acompanhado por forte redução nas emissões de moeda – que haviam contribuído para assegurar alguma forma de sustentação à atividade econômica a partir de abril do ano passado. Foram as emissões que ajudaram a financiar o auxílio emergencial, pago entre abril e dezembro de 2020 às famílias mais vulneráveis, e ainda parte do socorro oferecido às empresas mais atingidas pelas medidas de isolamento social (muito embora essas medidas tenham sido sempre parciais no País, o que ajuda a explicar o cenário atual de descontrole e caos no sistema de saúde).

Organizados em séries trimestrais pela coluna, as concessões de novos empréstimos aos tomadores de crédito em geral saíram de R$ 1,037 trilhão entre dezembro de 2019 e fevereiro de 2020 para R$ 1,012 trilhão nos três meses encerrados em fevereiro deste ano, num recuo de 2,37% em termos nominais. Como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou variação de 5,20% nos 12 meses encerrados em fevereiro passado, a queda real no valor das concessões aproximou-se de 7,2%.

No trimestre imediatamente anterior, ou seja, entre setembro e novembro de 2020, o sistema financeiro havia contratado concessões de R$ 1,101 trilhão ao lado real da economia, algo próximo a R$ 1,129 trilhão em termos reais, considerando-se o IPCA de 2,48% acumulado entre novembro do ano passado e fevereiro deste ano. Na passagem do trimestre finalizado em novembro último e igual período encerrado em fevereiro do novo ano, as concessões sofreram queda de 8,1% em termos nominais, num tombo de 10,3% quando descontada a inflação. Tomadas em valores não corrigidos, as empresas foram mais afetadas pelo enxugamento, com retração de 10,8% (ou -13,0% em termos reais) naquela mesma comparação, enquanto as concessões de novos créditos para as pessoas físicas encolheram 5,7% (com baixa de 8,0% quando considerados valores atualizados com base na inflação).

 

Trajetória preocupante

Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), fevereiro marcou o terceiro mês consecutivo de redução das concessões de crédito às empresas nas operações livremente pactuadas com o sistema financeiro, tomando como base para comparação iguais períodos do ano anterior, igualmente em valores corrigidos pelo IPCA. O comportamento parece configurar uma tendência em meio a um agravamento dramático, mas totalmente previsível, da pandemia.“Na ausência dos programas emergenciais e diante do endurecimento das medidas restritivas a partir de março, esta trajetória sinaliza para possíveis complicações no financiamento corporativo nos próximos meses”, aponta o instituto.

 

Balanço

As concessões de crédito a juros livremente cobrados pelos bancos, ainda entre os trimestres encerrados em novembro do ano passado e em fevereiro deste ano, baixaram pouco mais de 5,6%, com perdas de 6,1% para pessoas físicas e de 5,1% para as empresas. No segmento de crédito direcionado, ou seja, que tem suas condições de juros e prazos definidos por políticas do setor público, o cenário neste começo de ano parece mais aterrador.

Sempre em números corrigidos com base no IPCA, o mercado registrou um tombo de 37,6% na saída do trimestre finalizado em novembro de 2020 para os três meses imediatamente posteriores. Para as pessoas físicas, a queda chegou a 19,6%. Mas o volume das novas contratações para as empresas ficou reduzido a menos da metade, numa retração de 56,4%.

O enxugamento radical na oferta de empréstimos novos ao setor real da economia, a demora na aprovação de medidas de socorro a famílias vulneráveis e às empresas de pequeno e médio portes, mais afetadas pela crise pandêmica, e a lentidão na imunização podem trazer consequências severas para o futuro imediato da atividade econômica. Sem mencionar o custo duríssimo em vidas perdidas, com famílias inteiras destroçadas pela Covid-19.

O enxugamento completa-se com a redução acelerada, desde novembro do ano passado, das emissões de moeda, que, conforme já anotado, cumpriram papel relevante na contenção dos danos da pandemia sobre a economia. Apenas para relembrar, o saldo da base monetária (que inclui as emissões de dinheiro e depósitos dos bancos no BC) chegou a experimentar salto de 39,1% entre o final de março e outubro, o que correspondeu à injeção de R$ 120,26 bilhões na economia.

Desde novembro, no entanto, o BC passou a recolher o dinheiro que havia entrado em circulação nos meses anteriores. Até fevereiro deste ano, esse enxugamento havia atingido R$ 39,031 bilhões, ou quase um terço das emissões realizadas nos sete meses anteriores. Isso significou uma redução de 9,1% na base monetária e menos dinheiro em circulação. O enxugamento ocorre principalmente por meio da venda de títulos públicos federais ao mercado. Apenas nessas operações, o BC retirou do mercado, em quatro meses, perto de R$ 55,657 bilhões, bem acima dos R$ 22,728 bilhões em papel moeda emitido para cobrir rombos do Tesouro Nacional.

Para comparação, entre abril e novembro do ano passado, o BC havia emitido R$ 668,169 bilhões para permitir que o Tesouro financiasse o seu déficit e retomou do mercado R$ 547,427 bilhões com a colocação de títulos da dívida federal, deixando o restante em circulação como forma de ofertar dinheiro na veia da economia. Obviamente, o enxugamento operado agora terá efeitos inversos àqueles colhidos até novembro de 2020.

Em situação normal, o que notoriamente não é o caso, a economia trataria de prover recursos suficientes para compensar a atuação do BC, por meio de crescimento dos negócios, do emprego e da renda. Sem esses elementos, a mão pesada da autoridade monetária tende a agravar a crise.

Fonte: O Hoje
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