Araraquara tem alta de 235,8% na média móvel de casos de Covid e faz alerta de novo confinamento

A média móvel do número de casos de Covid-19 em Araraquara (SP) subiu 235,8% de maio a junho e colocou o município, que tem 22.808 casos e 459 mortes desde o início da pandemia, em estado de alerta máximo para a possibilidade de um novo confinamento.

Para a prefeitura e dois médicos da cidade ouvidos pelo G1a falta de colaboração da população que não respeita o distanciamento social e a vacinação lenta são algumas das justificativas para a atual situação da cidade.

Em fevereiro, o município de 238 mil habitantes foi o primeiro do país a ter 10 dias de confinamento para conter a doença. Os números de internações, casos e mortes caíram após as medidas mais restritivas mas, nas últimas semanas, voltaram a crescer. Na sexta-feira (4), Araraquara bateu recorde de casos em 24 horas: foram 252 registros.

O crescimento de casos aumentou a pressão sobre o sistema municipal de saúde que voltou a atingir, após 90 dias, taxa de ocupação de UTI/SUS de 100%, na quarta-feira (9).

Outro motivo de preocupação é que até sexta-feira (4), a maioria dos pacientes internados em Araraquara era de outros municípios e até de outros estados. Já no sábado (5), o número de pacientes locais internados era o mesmo de pacientes de fora da cidade e, já partir do domingo (6), os moradores da cidade passaram a ser a maioria entre os internados nos leitos de Araraquara.

Nesta quarta-feira (9) a divisão era de 100 moradores de Araraquara e 92 pacientes que são de outras cidades. Além disso, há dois dias, Araraquara tem pacientes à espera de leitos para internação em UTI.

Índice para novo lockdown

 

Em decreto publicado em 19 de maio deste ano, a prefeitura estabeleceu que, para que os segmentos econômicos de Araraquara continuem abertos para atendimento presencial, a taxa diária de positivados para Covid-19 não pode ultrapassar de 30% dos pacientes sintomáticos testados (aqueles que buscam os serviços de saúde) ou de 20% nos testes em geral (contando sintomáticos e assintomáticos) por três dias consecutivos ou por cinco dias alternados dentro de um prazo de sete dias de intervalo.

Na sexta-feira, quando a cidade atingiu 252 casos, 26,94% de positivados sintomáticos e 18,36% de todos os testados — números bem próximos dos indicadores estabelecidos — o prefeito Edinho Silva (PT), alertou, em um pronunciamento, para o risco de um novo fechamento das atividades.

“Nós estamos caminhando a passos largos para que Araraquara se veja obrigada a fazer lockdown novamente”, afirmou.

 

Mas o alerta não surtiu efeito e, na terça-feira (8) , Araraquara bateu pela primeira vez o índice estipulado pela prefeitura se aproximando da possibilidade de mais um confinamento de 7 dias, conforme previsto no decreto.

Média móvel em alta

 

De acordo com o monitoramento do Grupo de Inovação e Extensão em Engenharia Urbana (Urbie) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), após o lockdown, a média móvel (soma dos casos registrados em uma semana e dividida por sete) de Araraquara seguiu em queda até atingir o menor índice do ano em 8 de maio, com 43,3, quando então reverteu a tendência e teve um mês de alta até chegar em 145,4, nesta quarta-feira (9), o que é equivalente a 235,8% de aumento.

Para a administração municipal, a razão do crescimento está no comportamento da população que voltou a relaxar as medidas de prevenção contra o coronavírus

A secretária municipal de Saúde, Eliane Honain, disse que a falta do uso de máscara e o relaxamento das pessoas em relação às regras de distanciamento social prejudicam as ações de combate à doença.

“Há muitos encontros familiares, festas, confraternização e com isso a transmissão expressiva em Araraquara”, afirmou.

 

Em uma live na sexta-feira, o prefeito Edinho Silva (PT) pediu a colaboração dos moradores.

“Enquanto não tivermos vacinas, a máscara é a melhor instrumento para evitar o crescimento da doença e estamos pedindo incansavelmente: evite aglomerações, é aí que a contaminação acontece. Será muito ruim se Araraquara decretar lockdown novamente e estamos extremamente próximos de isso acontecer”, afirmou.

Baixo isolamento

 

Os médicos que estão na linha de frente do combate à pandemia em Araraquara também apontam para a falta de colaboração dos habitantes da cidade e a chamada ‘”desobediência social”.

Para o médico sanitarista e professor da Unesp de Araraquara Rodolfho Telarolli Junior, a alta testagem e o lockdown deram confiança à população de Araraquara, que relaxou nos cuidados.

O médico e professor da Unesp de Araraquara, Rodolpho Telarolli — Foto: Rodrigo Sargaço/ EPTV

O médico e professor da Unesp de Araraquara, Rodolpho Telarolli — Foto: Rodrigo Sargaço/ EPTV

“Gerou uma sensação de falsa segurança à população, que baixou a obediência às regras básicas de prevenção à Covid. O nível de desobediência é grande. Há festas clandestinas, parte desses eventos a fiscalização sanitária interrompe, mas parte acaba acontecendo e vão ajudar a disseminar a doença”, afirmou.

Para o pneumologista Flavio Ferlin Arbex, coordenador da Enfermaria Covid da Santa Casa de Araraquara, a adoção do confinamento se faz necessária sempre que a população ultrapassa os limites e há falta de leitos na cidade.

“É importante a consciência da população porque se não diminuir os encontros, se o isolamento social for muito baixo e enquanto a vacinação não conseguir números adequados, essa estratégia [do lockdown] vai ter que ser usada sempre que a gente ficar sem leitos de UTI e enfermaria. É a pior estratégia, que faz a população sofrer, mas se faz necessária quando não tem mais leitos”, afirmou o médico.

Médico especialista em pneumologia Flavio Ferlin Arbex — Foto: Reprodução/EPTV

Médico especialista em pneumologia Flavio Ferlin Arbex — Foto: Reprodução/EPTV

Mortes

 

Araraquara soma 437 mortes desde o início da pandemia, das quais 78,5% ocorreram nos últimos cinco meses.

O número de mortes, no entanto, não tem acompanhado a evolução de casos. Não há estudos que relacionem a queda de óbitos na cidade à vacinação, mas desde que ela foi iniciada, as taxas de mortalidade pela doença têm caído.

Em março, pior mês da pandemia em Araraquara, a proporção de óbitos para o número de casos foi de 4,5%. Já em abril, caiu para 3,4%, depois para 2,4% em maio, e está, até esse momento, em junho, em 1%.

Vacinação lenta

 

Para os especialistas, a taxa de mortalidade pode crescer, se os casos continuarem a aumentar e estrutura hospitalar voltar a ser insuficiente. A situação é agravada, na avaliação dos médicos, pela lentidão da vacinação.

Segundo dados do vacinômetro do estado, Araraquara aplicou, até quarta-feira, 108.103 vacinas contra Covid-19, das quais 70.154 foram 1ª dose e 37.949 de 2ª dose, o que significa que 29,4% da população já recebeu ao menos uma dose do imunizante.

“Nós vacinamos pouco ainda. Aqui em Araraquara que tem 30% de cobertura de vacina, tá longe ainda. Quando chegar em 50%, 60% dá para esperar uma redução de casos e óbitos pela vacina, se não tivesse essa cobertura de 30%, a situação seria pior, com certeza. A vacinação é a ferramenta derradeira para a gente estancar a pandemia”, afirma Telarolli.

Fonte: G1
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