Letitia James, promotora e algoz de Andrew Cuomo

O apoio do governador Andrew Cuomo foi essencial para que Letitia James saísse vitoriosa há três anos na eleição para a Procuradoria-Geral de Nova York. Primeira mulher negra a ocupar o cargo, ela trilhou o caminho da independência, demarcando distância do governador democrata, até transformar-se em seu principal algoz.

O ex-aliado de campanha foi acusado de assédio sexual e má conduta por pelo menos 11 mulheres, numa investigação conduzida por Letitia James. O relatório demolidor de 165 páginas encerrou o terceiro mandato do governador, que, diante do inevitável risco de ser cassado, anunciou nesta terça-feira a decisão de renunciar ao cargo.

Cuomo sai como assediador sexual em série, como a própria procuradora o definiu, ao tornar insustentável a permanência, após uma década, no comando do estado. Letitia James, por sua vez, consolida sua posição como nome forte para concorrer ao governo estadual, nas eleições do próximo ano.

Aos 62 anos e conhecida como Tish, ela se habituou a comprar boas brigas e resistir às pressões para enfrentá-las. Começou a investigar os negócios de Donald Trump antes de ele tornar-se presidente. Em maio, a procuradora-geral e Cyrus Vance, o promotor distrital de Manhattan, entraram com ações criminais contra a Trump Organization e seu ex-diretor financeiro Alan Weisselberg, por suspeita de fraude fiscal.

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, durante entrevista coletiva em seu escritório em 21 de maio de 2021 — Foto: Richard Drew/AP

A procuradora-geral de Nova York, Letitia James, durante entrevista coletiva em seu escritório em 21 de maio de 2021 — Foto: Richard Drew/AP

Foi ela quem liderou a ação, com outros 47 procuradores estaduais, para processar o Facebook por monopólio. Voltou-se também contra a Amazon, acusando-a de não proteger seus funcionários durante a pandemia do novo coronavírus. “Está claro que a Amazon deu mais valor aos lucros do que às pessoas e fracassou em garantir a saúde e a segurança de seus trabalhadores”, alegou, em fevereiro, ao iniciar uma ação contra a multinacional.

Sem entrar no mérito da Segunda Emenda ou da violência armada, ela entrou com um processo para dissolver a poderosa Associação Nacional de Rifles (NRA na sigla em inglês), sob o argumento de que seus executivos usaram fundos de caridade em benefício pessoal. Cooptou, assim, o apoio de grupos de defesa do controle de armas e de vítimas de tiroteios em massa.

Quando surgiram as primeiras denúncias de má conduta contra Cuomo, no início do ano, o próprio governador insistiu que Letitia James as investigasse, certo de que se livraria facilmente. “Peço ao povo deste estado que espere pela conclusão do relatório antes de formar uma opinião”, recomendou em tom desafiador. Os nova-iorquinos acharam por bem obedecê-lo.

Fonte: G1

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