Pico mais alto da Groenlândia registra chuva pela primeira vez desde 1950

Pela primeira vez desde o início do monitoramento da precipitação no pico mais alto da Groenlândia choveu – e não nevou. Segundo as informações do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos EUA, esta é a primeira vez desde 1950 que a região, localizada a três quilômetros acima do nível do mar, recebeu chuva ao invês de neve.

As temperaturas no pico da Groenlândia durante o fim de semana subiram acima de zero pela terceira vez em menos de uma década. O ar quente alimentou um evento de chuva extrema que despejou 7 bilhões de toneladas de água no manto de gelo.

Foi a chuva mais forte na região desde que os registros começaram em 1950, de acordo com o Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos EUA, e a quantidade de massa de gelo perdida registrada no último domingo (15) foi sete vezes maior do que a média diária para esta época do ano.

Ted Scambos, cientista pesquisador sênior do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo, da Universidade do Colorado, disse que essa é uma evidência que a Groenlândia está se aquecendo rapidamente.

“O que está acontecendo não é simplesmente uma ou duas décadas quentes em um padrão climático errante”, disse Scambos à CNN. “Isso é sem precedentes.”

A Estação Summit da National Science Foundation está localizada no ponto mais alto da camada de gelo da Groenlândia, onde os cientistas podem observar o clima do Ártico e as mudanças no gelo. A estação tem funcionado o ano todo para observar mudanças extremas desde 1989.

A maior parte da chuva do fim de semana caiu da costa sudeste da Groenlândia até a Estação Summit.

Jennifer Mercer, oficial do Programa Polar da National Science Foundation, disse que devido ao evento significativo de chuva, as operações na Summit Station precisariam ser alteradas: “Isso significa que precisamos considerar eventos climáticos que não ocorreram para lidar com nossas operações lá “, disse ela à CNN.

“O aumento dos eventos climáticos, incluindo derretimento, ventos fortes e, agora, chuva, ocorreram nos últimos 10 anos fora do intervalo considerado normal”, disse Mercer. “E isso parece estar ocorrendo cada vez mais.”

À medida que as mudanças climáticas causadas pelo homem aquecem o planeta, a perda de gelo aumentou rapidamente.

Um importante relatório climático da ONU divulgado este mês concluiu que a queima de combustíveis fósseis levou ao derretimento da Groenlândia nas últimas duas décadas. Outro estudo recente, publicado na revista Cryosphere, descobriu que a Terra perdeu impressionantes 28 trilhões de toneladas de gelo desde meados da década de 1990, uma grande parte das quais era proveniente do Ártico, incluindo a camada de gelo da Groenlândia.

Groenlândia
Em 2019, a Groenlândia derramou cerca de 532 bilhões de toneladas de gelo no mar.
Foto: Ulrik Pedersen/NurPhoto/Getty Images

Em julho, o manto de gelo da Groenlândia experimentou um dos eventos de degelo mais significativos da última década, perdendo mais de 8,5 bilhões de toneladas de massa superficial em um único dia, o que seria suficiente para submergir a Flórida em cinco centímetros de água.

Foi o terceiro caso de derretimento extremo na última década. Em 2019, a Groenlândia derramou cerca de 532 bilhões de toneladas de gelo no mar.

Durante aquele ano, uma primavera quente inesperada e uma onda de calor em julho fizeram com que quase toda a superfície do manto de gelo começasse a derreter. O nível global do mar aumentou permanentemente em 1,5 milímetro como resultado.

“Estamos cruzando limites não vistos em milênios e, francamente, isso não vai mudar até ajustarmos o que estamos fazendo”, disse Scambos. Outros eventos incomuns também se tornaram mais frequentes, segundo Mercer.

Dois anos atrás, um urso polar conseguiu chegar à Summit Station, o que era incomum, já que os ursos polares vivem em regiões costeiras onde podem facilmente encontrar comida. O urso havia caminhado centenas de quilômetros para o interior através do manto de gelo. Nos últimos cinco anos, Mercer disse que três ursos polares foram avistados no alto do manto de gelo da Groenlândia.

Segundo Mercer, a chuva terá um efeito duradouro nas propriedades da neve, deixando para trás uma crosta de gelo que absorverá mais energia do sol, até ser soterrada pela neve. Scambos disse também que essa camada será uma barreira que impederá a drenagem da água do degelo, que inundará a superfície da camada de gelo e iniciará o escoamento em altitudes mais elevadas.

 

Fonte: CNN

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