Boris Casoy, aos 80 anos, decide estudar Veterinária

Um jornalista mineiro contou a um político goiano uma história interessante. Segundo ele, e talvez seja uma história apócrifa, o presidente Juscelino Kubitschek teria dito o seguinte: “Se você quiser saber se um homem é bom sujeito, siga-o até a casa dele. Ao chegar lá, se o cachorro da casa fizer festa para ele, tenha certeza: você está diante de um bom sujeito. Se o cachorro ficar quieto, num canto, desconfie. Pois, se nem o cachorro faz festa para o indivíduo, quem fará?”

Estou na turma dos que adoram animais e, na nossa casa, criamos quatro: Frida (schnauzer), a decana, Sartoris (schnauzer, ceguinho da silva), ambos com 12 anos, João Fidelis (labrador, dono de um Instagram movimentado), de 7 anos, e Filomena (gata), de menos de 1 ano. Filomena atende pelo nome, o que é raro em gatos, e presta atenção onde colocamos objetos, como canetas (às vezes, durante sua fiscalização, derruba minhas canetas e passa algum tempo brincando com elas; uma curiosidade sobre Filomena, que foi encontrada na rua: quando está em cima do telhado da área ou em árvores, atende mais a voz de Candice do que a minha). Todos, quando eu e minha mulher, Candice, chegamos em casa, fazem a maior festa. Fica-se com a impressão de que estávamos acompanhando Ulisses em sua luta para voltar a Ítaca. Nossos Argos ficam contentíssimos com a nossa chegada e não se apaziguam enquanto não falamos com eles e passamos a mão nas suas cacholas.

O primatólogo holandês Frans De Waal, autor do livro “O Último Abraço da Matriarca — As Emoções dos Animais e o que Elas Revelam Sobre Nós” (Zahar), afirma que os animais têm emoções. Relato um caso curioso: Frida, a matriarca dos nossos animais — bronqueia com todos —, quando chamamos sua atenção, fica com “vergonha” e se encolhe. Se brincamos com João Fidelis, ela corre e pega um brinquedo para participar dos folguedos. Se não for atendida, começa a latir. João Fidelis late pouco, mas alto. Mas, quando quer sair para seus passeios matinais e noturnos, late de outra maneira, como se fosse uma espécie de choro-convocação. É um clamor por nossa atenção.

Frans De Waal relata, no seu livro, a história da chimpanzé Mama e do biólogo Jan van Hooff. Os dois se conheciam há quarenta anos. Relato de uma sinopse da editora: “Às vésperas de Mama completar 59 anos, e meses antes do octogésimo aniversário de Jan van Hooff, esses dois hominídeos tiveram um reencontro comovente. Mama, a matriarca de uma colônia de chimpanzés, estava deitada em seu ninho no zoológico de Arnhem, moribunda, quando o velho professor de biologia tomou a decisão incomum de visitá-la para uma despedida. Embora se conhecessem de longa data, nenhum ser humano em sã consciência entraria na jaula de um chimpanzé adulto. Mas ao ver o amigo, Mama despertou da letargia, reagiu com um grande sorriso e tranquilizou-o com tapinhas no pescoço. Ela parecia perceber a apreensão de Jan e dizer a ele que estava feliz com a sua presença”.

O homem formulou a ideia de que, por ser “racional” — o poeta William Blake sempre desconfiou da razão, que, ao produzir a ciência, é a nova religião universal —, merece um lugar de destaque na natureza. Em nome da razão, autoriza-se a matar os demais animais — inclusive para comê-los (somos comedores de cadáveres, o que não gostamos de assumir, por certo), criando uma naturalização que tornou o ato “normal” e, portanto, “desejável” — e, para ocupar cada vez mais espaço, destruir a natureza. O homem fala em Deus, um ser superior respeitável, mas seu deus verdadeiro é o próprio homem. O livro “Cachorros de Palha — Reflexões Sobre Humanos e Outros Animais” (Record, 256 páginas, tradução de Maria Lúcia de Oliveira), de John Gray, situa, com precisão, o momento em que o homem se tornou o centro da vida na Terra (o nosso humanismo é altamente excludente, pois não inclui, no discurso dominante, os demais animais). O dono de tudo, o senhor da vida e da morte dos demais seres. O filósofo britânico mapeia o pensamento, sua origem, que fornece a lógica para este domínio “total” sobre a natureza. O pensamento orgânico do homem criou um “lugar” especial para si na natureza, em que tudo está ao seu dispor. Aquele que pensa diferente é apresentado como “ridículo” e, até, “amalucado”.

A fala acima tem a ver com a notícia de que, aos 80 anos, o jornalista Boris Casoy decidiu estudar veterinária (o que pode ser meu caminho, no futuro, dado meu interesse por animais, sobretudo cachorros, gatos e pássaros).

Boris Casoy não tem curso superior. Começou a fazer Direito, mas, ao enveredar-se pelo jornalismo, decidiu não se tornar advogado. Tornou-se locutor da Rádio Eldorado, em São Paulo, e, em seguida, trabalhou como repórter da Rede Tupi, no programa “Mosaico”. Na “Folha de S. Paulo”, como diretor de redação, substituiu o notável jornalista Claudio Abramo — que, perseguido pela ditadura civil-militar, havia sido afastado do comando da redação pelo dono do grupo Folha da Manhã, Octávio Frias de Oliveira. Na televisão, brilhou no “TJ Brasil”, do SBT, durante anos. De lá, foi para a Record TV, onde também foi bem-sucedido. Esteve na Band e na Rede TV!

Na televisão, nos jornais que apresentou e ancorou, Boris Casoy levou seu background de jornalista que, ao mesmo tempo que informa, sabe comentar os fatos, explicando-os aos telespectadores. Com sua coragem habitual, dizia que a ação de um governante era, por exemplo, “uma vergonha”.

Depois de uma carreira bem-sucedida no jornalismo impresso e na televisão — durante seis décadas —, Boris Casoy criou o “Jornal do Boris”, no YouTube, que conta com 100 mil inscritos. Mas sentiu que precisava, mesmo aos 80 anos, realizar um sonho de infância: ser veterinário.

Aprovado no vestibular para Medicina Veterinária, Boris Casoy está estudando na Universidade Cruzeiro do Sul, em São Paulo. “A vida me conduziu por outros caminhos e abracei o jornalismo, que eu adoro. Sempre quis estudar Veterinária, porque gosto de animais. A curiosidade sobre este tema nunca me abandonou, e agora achei tempo para mergulhar no mistério da vida animal. Talvez assim também fique mais fácil compreender a humanidade”, afirma o jornalista. “Vou manter todos os meus compromissos jornalísticos, inclusive o ‘Jornal do Boris’”, declara. Dada a pandemia da Covid-19, as aulas são, por enquanto, remotas.

Observa-se que o relacionamento dos homens com os animais está melhorando. Inicialmente, com os domésticos — que, às vezes, são tratados como filhos. Muitos animais contribuem no tratamento de depressão e conforto dos indivíduos — como crianças e idosos com problemas de saúde. No dia a dia, são, no geral, redutores do estresse para milhões de pessoas. Eles estão mais integrados às famílias, como, digamos, filhos eternos.

 

Fonte: Jornal Opção

print