Especialistas reforçam que a Pfizer deve ser utilizada como terceira dose

O Ministério da Saúde anunciou na quarta-feira (25) o planejamento para a aplicação da terceira dose das vacinas contra a Covid-19 no Brasil. O Ministério da Saúde orienta que a terceira dose seja aplicada preferencialmente com a vacina da Pfizer. De forma alternativa, poderão ser usados os imunizantes de vetor viral da AstraZeneca e da Janssen.

A campanha terá início na segunda quinzena de setembro, contemplando inicialmente as pessoas acima de 70 anos que receberam a segunda dose há pelo menos seis meses e indivíduos imunossuprimidos que foram vacinados há 28 dias.

A decisão por priorizar a Pfizer foi feita em acordo do Ministério da Saúde com especialistas do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) e da Câmara Técnica Assessora de Imunização Covid-19 (CETAI).

Em entrevista à CNN, o coordenador-executivo do Centro de Contingência Contra a Covid-19 do estado de São Paulo, João Gabbardo, afirmou que os idosos receberão a dose de reforço da vacina Coronavac no estado.

Especialistas consultados pela CNN reforçam que a utilização do imunizante da Pfizer deve ser priorizada na aplicação da terceira dose.

O infectologista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Júlio Croda, considera que a Coronavac não é uma boa opção como terceira dose, principalmente para o público de idosos e imunossuprimidos. Segundo Croda, a vacina gera uma resposta menor nesses grupos devido aos fatores próprios do sistema imune.

“Ela gera uma resposta menor associada à imunossenescência [envelhecimento do sistema imunológico] e à dificuldade de o sistema imune montar uma reposta de anticorpo neutralizante celular”, explica. “Então ela já gera menos resposta imune comparativamente com as outras vacinas, principalmente em idosos, e isso se reflete nos dados de efetividade que vem demonstrando”, completa.

O diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Renato Kfouri, membro da câmara técnica, participou das discussões junto ao Ministério da Saúde. “O conjunto de evidências disponível hoje na literatura aponta para uma melhor resposta da Pfizer, tanto celular quanto humoral [produção de anticorpos], nas doses primária ou de reforço para pessoas mais velhas ou imunocomprometidas. A vacina da Pfizer tem um perfil de resposta melhor, é indiscutivelmente a vacina preferível”, disse Renato.

A opinião também é compartilhada pelo presidente do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), João Viola. “A melhor estratégia nesse momento é não usar a Coronavac. A proposta do PNI de usar a Pfizer ou a AstraZeneca está correta. A Coronavac cumpriu seu papel importante no início da vacinação, dando o acesso à vacina. Mas, nesse momento o mais acertado é ir para outros imunizantes”, disse.

O especialista destaca dois fatores como motivos para a priorização da Pfizer ou da AstraZeneca. “A Coronavac consegue manter títulos [de anticorpos] e proteção razoáveis, mas ela vem caindo ao longo do tempo, principalmente em idosos. Além disso, a troca de vacinas tem dado bons resultados no exterior, já têm alguns estudos sugerindo isso. Então, acho que a Pfizer e a AstraZeneca seriam mais acertadas nesse momento”, disse.

Posicionamento do Instituto Butantan

Em nota, o Instituto Butantan, responsável pela produção da Coronavac no Brasil, afirmou que a vacina evita em 100% o desenvolvimento de casos graves de Covid-19 causados pela variante Delta e tem eficácia de 69,5% contra o surgimento de pneumonia decorrente da doença. Os dados são de um estudo feito por pesquisadores do Centro de Controle e Prevenção de Doenças da província de Cantão (Guangdong), na China, segundo o Butantan.

A nota do instituto ressalta evidências de um outro estudo, publicado no dia 17 de agosto, por pesquisadores da Universidade Médica de Chongqing, na China, com 85 pacientes recuperados de Covid-19. Os resultados indicam que a Coronavac é capaz de dobrar a quantidade de anticorpos neutralizantes e multiplicar em 4,4 vezes o nível de imunoglobulina IgG em quem já teve a doença. “Os resultados da pesquisa sugerem que a CoronaVac estimula a memória humoral dos pacientes convalescentes, acelerando a produção de anticorpos neutralizantes e seu nível de circulação na corrente sanguínea”, diz a nota do Butantan. O instituto informou também que realiza um estudo de efetividade da Coronavac contra a variante Delta, ainda em andamento.

O que dizem os estudos

Em relação à intercambialidade, um estudo conduzido pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, mostrou que o esquema misto entre as vacinas da Pfizer e da AstraZeneca gerou uma forte resposta imunológica. Segundo o estudo, as vacinas administradas com quatro semanas de intervalo induziram altas concentrações de anticorpos contra o SARS-CoV2. Os maiores resultados foram encontrados na AstraZeneca seguida da Pfizer.

Um amplo estudo de efetividade de vacinas no Brasil, considerando dados de mais de 60 milhões de pessoas, revelou que, em indivíduos acima de 90 anos, a proteção conferida pela Coronavac apresentou índices significativamente mais baixos em comparação com pessoas com idades entre 60 e 89 anos.

Para os indivíduos com 90 anos ou mais, as taxas de efetividade ficaram em torno de 30%, considerando a redução de hospitalização (32,7%), admissão em UTI (37,2%) e mortes (35,4%). Para a população acima de 60 anos, as taxas ficaram acima de 70%, considerando a redução no risco de hospitalização (84,2%), admissão em UTI (80,8%) e óbitos (76,5%).

“O nosso estudo do Vebra Covid demostrou isso, mas também um estudo recente da Fiocruz mostrou que existe uma perda de efetividade nos mais idosos, justamente porque a Coronavac gera uma reposta imune menor neste grupo específico. Um segundo ponto é que ela gera anticorpos neutralizantes mais baixos para a variante Delta, e foi o que o artigo da The Lancet mostrou”, disse Croda.

No artigo publicado na revista Lancet, citado pelo especialista da Fiocruz, os pesquisadores afirmam que a Coronavac induz menor atividade neutralizante contra variantes de preocupação, como a linhagem Delta, do que a infecção natural. Os cientistas avaliaram a produção de anticorpos por profissionais da saúde que receberam as duas doses da Coronavac em comparação com o soro de pessoas não vacinadas infectadas com o novo coronavírus e que foram hospitalizadas. O estudo foi realizado na Tailândia, considerando a circulação das variantes Alfa (identificada pela primeira vez no Reino Unido), Beta (originária da África do Sul), e Delta (de origem na Índia).

Outro estudo publicado em formato preprint, ainda sem revisão por pares, indica que pessoas que receberam a primeira dose da Coronavac e o reforço com a mesma vacina produziram uma resposta imunológica menor e menos anticorpos neutralizantes em comparação com aqueles que receberam o reforço da AstraZeneca.

“Por isso, os esquemas heterólogos [intercambialidade de vacinas] são esquemas de eleição como dose de reforço nessa população específica, que tem uma baixa resposta imunológica”, afirma Croda.

O pesquisador da Fiocruz cita, ainda, um estudo realizado no Bahrein, que compara a evolução clínica da doença às vacinas da AstraZeneca, Pfizer, Sputnik V e Sinopharm. “O artigo mostra que, no contexto da Delta, as pessoas que foram vacinadas com a vacina da Sinopharm, que é uma vacina de vírus inativado, têm mais risco de hospitalização e óbito, que é a mesma ideia de perda de efetividade, principalmente entre pessoas com mais de 50 anos”, disse.

A vacina da Sinopharm é desenvolvida a partir da tecnologia de vírus inativado, semelhante à da Coronavac, produzida na China pelo laboratório Sinovac. “Temos dados que mostram uma perda de efetividade para variante Gama no Brasil, e dados do Bharein mostrando que acima dos 50 anos temos uma perda de efetividade da vacina no contexto da Delta. A gente tem dados de anticorpos neutralizantes para Delta que mostram que a Coronavac gera menos anticorpos neutralizantes”, conclui.

 

Fonte: CNN

print