Leitura e novos hábitos levam Glover Teixeira, 42, à luta pelo cinturão do UFC

Durante os meses que antecederam a luta em que Glover Teixeira, 42, possivelmente terá a última chance de conquistar um cinturão no UFC, o lutador se dividiu entre treinos e leituras, uma combinação de hábitos que ele incorporou a sua rotina durante o isolamento social provocado pela pandemia de Covid-19.

A “Autobiografia de um Iogue”, escrita por Paramahansa Yogananda (1893-1952), um indiano que difundiu a ioga nos EUA na primeira metade do século 20, esteve na cabeceira do brasileiro durante este mês em que ele vai enfrentar o polonês Jan Blachowicz, 38, em uma disputa válida pelo cinturão meio-pesado do UFC, neste sábado (30), em Abu Dhabi -o canal Combate exibe o card principal a partir das 15h.

Será a segunda oportunidade para o brasileiro ser campeão da categoria de até 93kg. Em 2014, ele perdeu a primeira chance ao ser derrotado pelo americano Jon Jones. Passados sete anos, o mineiro acredita que a experiência acumulada depois daquela derrota somada à mudança de hábitos poderão ser decisivas para o seu sucesso.

“Quando veio a pandemia, eu tive de parar de treinar, fiquei isolado naquele tédio e foi aí que eu comecei a ler. Eu percebi que a gente não tem o controle de nada nesta vida e comecei a mudar o meu astral, relaxei e me dediquei à reflexão sobre a vida”, diz Glover à Folha de S.Paulo.

Foi assim que o brasileiro chegou à conclusão de que era necessário mudar a sua postura em relação aos treinos para conseguir se manter em alto nível após os 40. O lutador completou 42 anos na quinta (28).

“Acredito que perdi algumas lutas por causa de muito treino, por ter passado o limite, que é o overtraining. Tenho certeza que tive alguns problemas com isso”, afirma Glover. “Agora, eu consigo treinar melhor e me focar mais. Com a leitura, eu tiro todos aqueles pensamentos sem pé nem cabeça, que vão e voltam.”

Mas algo ainda permeia os pensamentos do mineiro: conquistar o inédito cinturão dos meio-pesados. Por outro lado, agora isso não é mais o que determina o sentimento de realização pessoal dele. “Agora, eu curto mais a jornada, eu curto o treino, o dia a dia, eu curto o descanso. Antes, eu ficava o tempo todo com o cinturão na cabeça e treinava pensando nisso. Isso atrapalha o atleta”, reconhece.

A experiência profissional também o fez mudar o volume dos treinamentos. Na época em que lutou contra Jon Jones, ele chegava a fazer até nove treinos por semana em alta intensidade. Atualmente, para preservar seu corpo, alterna entre três treinos fortes e três com exercícios mais leves.

Há ainda um cuidado maior com a alimentação e, sobretudo, com os períodos de descanso. Disciplina é a palavra que ele mais gosta de enfatizar, inclusive para os alunos da academia que ele montou em Danbury, no estado de Connecticut, nos EUA, onde ele mora desde 1999, quando chegou lá como imigrante ilegal.

Glover recorda que tinha entre 17 e 18 anos quando decidiu deixar a cidade de Sobrália, a cerca de 300 km de Belo Horizonte, em Minas Gerais, rumo aos Estados Unidos. Na época, ele entrou no país atravessando a fronteira pelo México, com ajuda de “coiotes”, que vendem a travessia ilegal.

Depois de deixar a terra natal, ele passou pela Colômbia, viajou até a Guatemala, de onde partiu de carro para cruzar o México até a cidade de Tijuana, local em que ficou 13 dias esperando a neblina baixar para conseguir passar pelo deserto.

“Eu demorei quase dois anos para pagar essa conta. Foi aí que eu comecei a trabalhar na construção civil. Passei um perrengue legal. Comia muito pão de forma com salame porque o salame aqui é barato. Nessa época, eu comia mal para caramba”, recorda-se.

Em 2008, o lutador perdeu a chance de assinar um contrato com o Ultimate por sua condição de ilegal no país. Ele acabou sendo deportado quando as autoridades locais tiveram conhecimento da situação dele.

De volta ao Brasil, ficou três anos em Sobrália, até o fim de 2011, período que durou o trâmite burocrático, incluindo o pagamento de uma multa, até conseguir o green card, visto que permite a estrangeiros residir e trabalhar permanentemente nos EUA.

Com a situação regularizada, o brasileiro, enfim, pôde assinar contrato com o UFC. Hoje, o cartel dele tem 32 vitórias e 7 derrotas -Jan Blachowicz, o detentor do título na categoria, tem 28 vitórias e 8 derrotas.

No caminho para ter essa nova chance de lutar pelo cinturão, Glover emendou cinco vitórias consecutivas: Karl Roberson, Ion Cutelaba, Nikita Krylov, Anthony Smith e Thiago Marreta, de 2019 a 2020. Quando encarou Jon Jones e perdeu a chance de conquistar o topo dos meio-pesados, também vinha de cinco vitórias seguidas.

O 33º triunfo seria a maior coroação da carreira de Glover Teixeira. “Sei que essa é uma chance derradeira, eu estou fazendo o melhor possível.”

Fonte: Mais Goiás.
print