Aumento do leite resulta no reajuste de preços em supermercados e assusta consumidores

Um dos principais produtos que compõem o cardápio do brasileiro, o leite teve o maior aumento de preço registrado nos últimos 8 anos. O acréscimo já vem sendo sentido pelo consumidor. Donas de casa alegam que perceberam o aumento do preço do produto nas prateleiras dos supermercados e pequenos empresários do ramo alimentício afirmam que o aumento impacta no valor dos produtos que utilizam a matéria prima e já está sendo repassado aos clientes.

Segundo especialistas, a alta do preço do leite é decorrente de vários elementos, entre eles o aumento dos preços dos insumos utilizados na fabricação da ração do gado, principalmente a soja e o milho. “Também tem a questão do aumento dos fertilizantes, da energia elétrica e do combustível. Períodos de muita seca ou de muita chuva acabam alterando a qualidade da produção dos grãos e dos pastos, o que interferiu no preço do leite”, esclarece o economista Luiz Carlos Ongaratto.

O economista esclarece que todos esses fatores acarretaram no aumento do preço do leite e o repasse desse aumento ao consumidor final é inevitável. “Todo custo da cadeia produtora de leite ficou mais caro, seja na distribuição, seja na produção ou alimentação. O impacto desse acréscimo reflete em todas etapas e acaba chegando ao consumidor final”, explica.

Consumidores já sentem

Proprietária de uma lanchonete do setor Sul há mais de 13 anos, Geyza Rezende Borges informa que gasta 1.440 litros de leite mensalmente para a fabricação de salgados, bolos e doces vendidos no local. “O aumento foi grande e percebemos. Em dezembro pagávamos R$3,30 pelo litro do leite e agora estamos comprando por R$ 4,40 o litro, mas compramos de cooperativa. Como o leite é a matéria prima base para os alimentos que vendemos tivemos que fazer um reajuste no final de março”, explica.

A empresária conta que teve reajuste no café com leite. “O leite com café antes custava R$3,50 e agora, com o reajuste, está sendo vendido a R$4”. Ela afirma que em todos esses anos de trabalho é a primeira vez que teve reajuste por causa principalmente do leite. “No início era mais acessível, mas agora está tão caro que eu tive que reajustar o preço por causa desse produto”, desabafa.

Tânia Barbosa é proprietária do restaurante de comida caseira há apenas dois meses, no setor Sul. Ela deixou de ser ambulante e passou a empreender. Mesmo com pouco tempo de empresa, a microempresária já criou uma clientela e lamenta que já teve de fazer um pequeno reajuste nos preços, o que já foi repassado aos clientes. “Houve o aumento do leite e seus derivados, por conta disso tive de fazer alguns reajustes nos preços. Sinto pelos meus clientes, mas é necessário”.

Mesmo com a alta de alguns ingredientes para fazer a alimentação ela conta que não diminui na quantidade de pedidos. “Para ter qualidade na nossa comida não deixamos de pedir a mesma quantidade de sempre. Está tudo muito caro na verdade, além do leite tem as verduras, carne e o gás que estão bem caros”, detalha.

Cláudia Beleza é sócia há 10 anos de um restaurante que tem como prato principal o estrogonofe. Ela conta que apesar do aumento está tentando driblar a situação. “Estamos conseguindo administrar para não fazer reajustes, mas se continuar assim vai ficar mais difícil”. Ela explica que gasta em média 600 litros de leite por mês. “Estamos vivenciando várias altas nos produtos básicos para o prato”, relata a empresária.

O eletricista Marcelo Henrique Silva costuma comprar uma caixa de leite por dia e afirma que está ficando cada vez mais difícil adquirir o produto. “Está cada dia mais caro. E, não é apenas nesse mercado não. Eu vou em outros locais e já percebi que a média de preço da caixa de leite gira em torno de R$7 ou R$8”.

A aposentada Inês Costa foi ao mercado para comprar um litro de leite para fazer sobremesa a convidados para o almoço. “Está caro demais. Eu peguei um aqui, assustei com o preço e peguei o mais barato de quase R$5”, conta.

Segundo o encarregado do supermercado que não quis se identificar, a empresa deixou de adquirir algumas marcas de leite por causa do aumento. “Paramos de comprar algumas marcas porque não estava compensando revender. Estava ficando muito caro para o consumidor. Não estamos comprando das marcas mais caras do mercado por causa do aumento”, relata o funcionário.

Aumento repassado pelo produtor é inferior ao das gôndolas dos supermercados

O leite está mais caro em todas as versões: em pó ou em caixa. O leite em pó integral, por exemplo, está cotado em US$ 4,5 mil por tonelada. As importações de lácteos caíram 58% no inicio deste ano, somando US$ 108 milhões. O déficit da balança de lácteos alcançou US$ 71 milhões, uma redução de mais de 70% sobre o acumulado nos primeiros dois meses de 2021, de acordo com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

O diretor do Instituto para o Fortalecimento da Agropecuária de Goiás (IFAG), Edson Novaes, explica que, com relação aos custos de produção de leite, cada produtor tem o seu, que pode variar, dependendo do sistema de produção que tem. Segundo ele, entretanto, tanto a Embrapa Gado de Leite, quanto o próprio IFAG, fazem o levantamento dos preços dos principais insumos que impactam esse custo de produção.

“Nos últimos 12 meses – de abril de 2021 a março de 2022 –, o índice de custo de produção de leite calculado pela Embrapa Gado de Leite (ICP Leite) aumentou 22% nos últimos 12 meses. Sendo que só o item alimentação, que representa mais de 50% dos custos desses produtores, aumentou mais de 56%, energia e combustível aumentou mais de 22%, sal mineral aumentou mais de 53%. Isso reflete a real situação dos custos dos produtores. A conta não fecha, a maioria está trabalhando no prejuízo”, destaca o diretor.

Sobre o aumento do litro de leite nas gôndolas, o diretor aponta que a recuperação dos preços do produto que têm chegado aos produtores é muito inferior ao aumento dos preços praticados nas gôndolas.

“Para se ter uma ideia, enquanto os preços aos produtores aumentaram 15% de abril/2021 à março/2022, os preços do leite longa vida (UHT), aumentou no mesmo período nas gôndolas, 20%, o queijo aumentou mais de 40%. Portanto, além dos produtores não serem os vilões do aumento aos consumidores, os mesmos estão tendo prejuízos, pois o aumento dos preços deles não acompanha o aumento dos seus custos”, avalia.

Já o Programa de Proteção e Defesa do Consumidor (Procon) Goiás realizou uma pesquisa em março em que mostrou o aumento de 146% nos preços dos alimentos que compõem a cesta básica desde o início da pandemia. Os dados apontam que o leite teve acréscimo de 67%. Outros itens que tiveram grande aumento de preço, destaque para o óleo de soja, café em pó, tomate e açúcar.

A reportagem do jornal O Hoje circulou por alguns supermercados da região Sul de Goiânia. Numa observação rápida dos preços nas prateleiras, percebeu-se uma variação de R$ 4 no preço do produto. Dos valores encontrados, o preço mais baixo de uma caixa de leite foi de R$4,69 enquanto a mais cara foi de R$7,79.

Fonte: O Hoje

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