“Certas mudanças vieram para ficar”, diz reitora da UnB sobre pandemia

Nesta quinta-feira (21/4), a Universidade de Brasília (UnB) completa 60 anos de existência, mesmo dia em que a capital do país chega aos 62 anos. Em entrevista ao Metrópoles, primeira reitora mulher e atual número 1 da instituição, Márcia Abrahão, revelou que algumas das mudanças tecnológicas adotadas por causa da pandemia de Covid-19, serão incorporadas no dia a dia da unidade de ensino superior.

Márcia é defensora das aulas 100% presenciais, marcadas para o início do próximo semestre letivo, em 6 de junho. Segundo a reitora, os impactos da crise sanitária foram enfrentados por alunos e professores da UnB. “A gente viu que tem como aperfeiçoar o que nós já fazemos e, agora, temos mais convicção ainda de que não abrimos mão da presencialidade”, disse.

Abrahão afirmou que cerca de 95% dos frequentadores da universidade estão vacinados contra o novo coronavírus e revelou que não vê problemas em flexibilizar medidas de segurança sanitária ou torná-las mais rígidas, se necessário.

“A grande maioria da nossa comunidade está vacinada. Mais de 95%. Vamos ver como é que vai desenrolar a pandemia até junho e, também, as medidas de segurança da OMS [Organização Mundial de Saúde] e do Ministério da Saúde. Vamos continuar avaliando a evolução da pandemia diariamente até tomar novas decisões”, declarou.

 

Leia a entrevista na íntegra:

O que podemos esperar para a comemoração dos 60 anos da universidade?

Na sexta-feira (29/4), vamos ter o conselho universitário comemorativo e nesse dia vamos homenagear cinco ex-alunos com o prêmio de honra mérito. Tivemos, também, o lançamento de um novo número da revista Darcy, especial para os 60 anos. No segundo semestre do ano, teremos o lançamento do UnB Imagens, que vai contar com fotos da universidade no portal. Vamos ter eventos ao longo de todo o ano. Em setembro, vamos ter uma semana universitária em comemoração ao Darcy Ribeiro. E, em junho, uma edição especial do UnB Perto de Você — que é uma mobilização na Esplanada dos Ministérios levando um pouco do que fazemos de ciência e arte. Ainda não tem data específica, mas deve ser em junho, depois do retorno presencial às aulas.

Nesses 60 anos, muitos projetos foram desenvolvidos. Na sua visão, quais foram os principais?

A universidade tem se mantido firme nesses 60 anos. A UnB quase foi fechada durante a ditadura militar, perdeu quase todos os professores, se reergueu e hoje é uma das principais universidades do Brasil e da América Latina. As gerações que a universidade formou é inegável. A expansão da universidade para o Gama, Ceilândia e Planaltina é outro destaque. Nós temos um centro de ensino a distância há 30 anos e temos curso de graduação a distância para todo o Brasil. A universidade também foi pioneira nas cotas raciais. Algo que, depois, acabou virando política pública.

Mais especificamente na nossa gestão, investimos muito em sustentabilidade. Hoje, temos energia solar em todos os campi, o do Gama já é autossustentável. E nós somos uma universidade humanista e trabalhamos muito na área de direitos humanos. Por exemplo, aprovamos uma política de acessibilidade, uma política de nome social e de cotas na pós-graduação. A UnB continua sendo exemplo para o Brasil todo, como uma universidade de excelência com compromisso social.

A senhora está na segunda gestão como reitora. Como avalia esses últimos anos, principalmente durante o período da pandemia de Covid-19?

Foram anos bem desafiadores desde que assumimos. Primeiro, com as dificuldades orçamentárias. De 2015 para cá, tivemos uma redução de mais de 90% no orçamento para investimento. Depois, tivemos que sair da aula presencial. Temos quase 50 mil estudantes e tivemos que dar condições para eles irem para o ensino remoto. E é bom deixar claro que a universidade não parou em nenhum momento. Fizemos ensino, pesquisa e extensão, semana universitária com participação muito maior. Tudo isso conseguimos fazer remotamente. Tivemos que dar condições para muitos estudantes e professores que não tinham computador, internet. Nós conseguimos, com muita dificuldade, incorporar novas tecnologias. Então, hoje, por exemplo, conseguimos ter nas bancas de mestrado e doutorado pessoas de fora do Brasil com muito mais facilidade. Algumas facilidades vieram para ficar. Agora, o que também ficou claro é que nada supera o presencial. Percebemos uma reclamação muito maior de doenças mentais, problemas em trabalhar em casa. Então, ao mesmo tempo, a gente viu que tem como aperfeiçoar o que nós já fazemos e temos mais convicção ainda de que nós não abrimos mão da presencialidade.

A UnB decidiu continuar com o uso de máscaras e de exigir o cartão de vacinação. Como esse controle vai ser feito?

Temos aulas presenciais ocorrendo desde janeiro deste ano e estamos cobrando vacinação desde fevereiro. Desde dezembro do ano passado, nós estávamos cobrando o cartão de vacinação para entrada na biblioteca e no restaurante. No início desse ano, estendemos para toda a universidade. Posso falar do que temos hoje. Nós temos pouquíssimos problemas. A grande maioria da nossa comunidade está vacinada. Mais de 95%. Vamos ver como é que vai desenrolar a pandemia até junho e, também, as medidas de segurança da OMS [Organização Mundial de Saúde] e do Ministério da Saúde. Vamos continuar avaliando a evolução da pandemia diariamente até tomar novas decisões. Para avançar ou regredir, se necessário.

 

A senhora disse que o orçamento não foi suficiente este ano. Quais são os desafios orçamentários para a universidade?

Para este ano, infelizmente, nós continuamos com o orçamento insuficiente. Temos cerca de R$ 6 milhões para investimento vindo do Tesouro Nacional, ou seja, que serão usados para comprar livro, computador, equipamento. Para uma universidade do porte da UnB, é totalmente insuficiente. Temos obras que precisamos continuar. Fazemos arrecadação própria, mas é limitada a quanto o Congresso Nacional disponibiliza. Se conseguimos mais do que o autorizado, o que sobrou vai para o governo federal. Este ano, temos o limite de R$ 25 milhões. Apesar disso, uma decisão que tomamos internamente, desde que assumimos, é que, independentemente de ter reduções anuais no orçamento, nós aumentamos o orçamento das faculdades e institutos. É uma forma de valorizarmos o que nós defendemos que é o apoio ao ensino, à pesquisa e à extensão. Também aumentamos o orçamento para bolsas de estudantes e outros projetos como a creche.

Falando das obras, andando pela UnB, a gente vê algumas em andamento. Quais são os destaques?

Nós estamos conseguido fazer obras. Acabamos de inaugurar um prédio no campus de Ceilândia, há dois anos inauguramos no Gama e temos feito algumas pequenas reformas em Planaltina.
Estamos construindo o Instituto de Artes, o prédio da Faculdade de Agronomia e Medicina Veterinária e um prédio para laboratórios da Medicina. Aprovamos um grande auditório na praça entre a Biblioteca Central e a Reitoria. Vamos começar em breve a construção do Centro de Biotecnologia Molecular que é uma obra que a UnB recebeu recursos de emenda parlamentar e não concluiu, por mais de 10 anos.

Então, agora estamos fazendo com arrecadação própria, e isso vai fortalecer o nosso parque científico e tecnológico. Além disso, com dinheiro de emenda também estamos construindo o Centro de Pesquisa em Primeira Infância e uma Creche na UnB, um sonho antigo da nossa comunidade. Essas são algumas das obras que estão em andamento. Temos os apartamentos também. Estavam há décadas sem recuperação e a gente, aos poucos, está fazendo o que precisa ser feito. Além de requalificar os espaços que estavam se deteriorando e nós vamos reformando e entregando às unidades. Isso tudo é a concretização do nosso Plano de Obras.

Sobre a UnB

A Universidade de Brasília foi inaugurada em 21 de abril de 1962. A construção do campus foi idealizada pelo antropólogo Darcy Ribeiro que definiu as bases da instituição e pelo educador Anísio Teixeira, que planejou o modelo pedagógico. O arquiteto Oscar Niemeyer transformou as ideias em prédios.

As regras, a estrutura e concepção da Universidade foram definidas pelo Plano Orientador, uma espécie de Carta Magna, datada de 1962, e ainda hoje em vigor. O Plano foi a primeira publicação da Editora UnB.

Em 15 de dezembro de 1961, o então presidente da República João Goulart sancionou a Lei 3.998, que autorizou a criação da universidade. Darcy e Anísio convidaram cientistas, artistas e professores das mais tradicionais faculdades brasileiras para assumir o comando das salas de aula da jovem UnB.

“A UnB foi organizada como uma Fundação, a fim de libertá-la da opressão que o burocratismo ministerial exerce sobre as universidades federais. Ela deveria reger a si própria, livre e responsavelmente, não como uma empresa, mas como um serviço público e autônomo”, escreveu Darcy, em UnB: Invenção e Descaminho.

 

Fonte: Metrópoles.

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