Maquiador que produziu a rainha em Brasília relembra encontro marcante

Em feliz coincidência para os admiradores da realeza britânica nascidos no Distrito Federal, Brasília e Elizabeth II fazem aniversário em 21 de abril. Neste mesmo dia em 1960, enquanto a rainha da Inglaterra brindava a chegada dos 34 anos, o ex-presidente Juscelino Kubitschek inaugurava a nova capital federal. Os caminhos das aniversariantes se cruzaram pela primeira e única vez oito anos mais tarde, quando a monarca visitou a cidade em viagem diplomática ao Brasil.

Elizabeth II aterrissou em Brasília em 5 de novembro de 1968, em plena ditadura militar. A presença da monarca causou frisson na capital. Simpatizantes da família real fizeram fila para ver a soberana na Torre de TV e em um jardim de infância na 308 Sul.

Ao lado do marido, o agora já falecido príncipe Philip, a rainha ficou hospedada no Hotel Nacional, no Setor Hoteleiro Sul. Ícone do DF, o empreendimento chegou a hospedar outras grandes personalidades, entre elas, o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, a atriz francesa Catherine Deneuve e o astro hollywoodiano John Travolta. O espaço fechou as portas em 2020, após ordem de despejo.

Mas foi lá, na suíte presidencial, que a chefe de Estado dormiu e se preparou para um banquete em sua homenagem no Itamaraty. Luiz Carlos Alvarenga, o maquiador da alta sociedade brasiliense, foi quem teve a honra de produzir a matriarca da dinastia Windsor para a ocasião. “Um dos pontos altos da minha carreira”, rememora, em entrevista exclusiva ao Metrópoles.

Arquivo público do Distrito Federal
Matriarca da dinastia Windsor em evento de gala no Itamaraty. À época, ela tinha 42 anos
Maquiagem clássica para uma rainha emburrada

beauty artist se emocionou ao relembrar o encontro com a monarca. “À época, eu trabalhava no salão Coca, no térreo do Hotel Nacional, e era chamado semanalmente para maquiar grandes personalidades em suítes. Já estava acostumado com os protocolos para atender primeiras-damas e celebridades, mas fiquei nervoso ao ser convocado para maquiar a rainha”, confessa.

Segundo o profissional, a soberana foi educada, mas não esboçou um sorriso durante o atendimento. “Tinha vinte e poucos anos, ainda era um menino, mas aprendi a falar inglês para me comunicar minimamente com os frequentadores do hotel. Logo, pude entender quando a rainha me agradeceu pelo serviço. Ela foi educada, mas bem emburrada. Não deu um sorriso”, revela.

A maquiagem dela para o evento, como de costume, seguiu o estilo clássico. “Ela não usava quase nenhuma maquiagem. Continua sem usar, aliás. A pedido da equipe real, fiz uma pele rápida e clean. As makes dela são à base do rosa clarinho. A rainha usa no máximo uma sombra verde clara”, afirma.

Arquivo público do Distrito Federal

Mais uma imagem do jantar realizado em homenagem à rainha

O foco das produções da chefe de Estado, conforme bem lembrou o profissional, tem de ser as joias. “Fiquei impressionado com as coroas e os colares dela. Jamais esquecerei daquelas peças luxuosas”, reitera. Infelizmente, o maquiador não conseguiu permissão para posar ao lado da monarca.

Luiz Carlos ainda teve a oportunidade de produzir a princesa Diana em Brasília. Ela e o príncipe Charles visitaram a capital em 1991. “Diana, por sua vez, foi extremamente simpática. Linda de viver, ela falava um pouco de espanhol e me mostrou, toda sorridente, o vestido que usaria para o baile de gala daquela noite, sediado também no Itamaraty”, recorda. À época, os pais de William e Harry ficaram hospedados no hotel Naoum, a poucos metros do Hotel Nacional.

Tim Graham/Getty Images

Princesa Diana em dia de festa no Itamaraty

Fã assumido da família real, o profissional acompanha a vida dos membros da realeza até hoje, ainda que de longe. “Noiva linda. Sem transparência e maquiagem fantasia, como tenho visto muito por aí”, escreveu nas redes sociais no dia do casamento de Meghan Markle e príncipe Harry, em maio de 2018.

Formado em belas artes, o carioca radicado em Brasília continua a atender fidèles em domicílio ou em salões parceiros, apesar de, nas palavras dele, ter diminuído consideravelmente o ritmo devido a problemas no joelho.

“Luiz Carlos é um ícone da cidade. Sempre talentoso, ele produziu todas as socialites e primeiras-damas na capital. Tive o prazer de trabalhar ao lado dele por 30 anos e testemunhar seu sucesso”, reverencia o também maquiador Pedrinho Monteiro.

Penteado à altura da monarca

O penteado de Elizabeth II para o jantar no Itamaraty carregou a assinatura de Jaira Coca, famosa hairstylist argentina e esposa do proprietário do extinto salão no Hotel Nacional. Atualmente com 79 anos, a moradora de Brasília há cinco décadas lembra com saudosismo do estabelecimento de enorme sucesso, fechado após problemas de saúde do marido, o já falecido Santiago Coca. “Foi uma era maravilhosa. Atendíamos o crème de la crème da sociedade brasiliense e todos os estrangeiros que se hospedavam no majestoso hotel”, conta.

 

“A rainha tem cabelos ondulados e fortes. À época, ela não tinha um fio branco. Fiz um penteado clássico e posicionei a coroa cuidadosamente em sua cabeça. Foi uma honra”, declara Jaira, orgulhando-se dos 64 anos bem-sucedidos de profissão.

 

Assim como o maquiador, a cabeleireira segue na ativa, embelezando clientes em domicílio.

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Produção de milhões?

Luiz Carlos não cobrou para atender Elizabeth II, tampouco para maquiar Lady Di. “Poder produzir mulheres desse calibre já era a recompensa”, defende. “Depois, no máximo, ganhávamos um presente da embaixa

da ou do Itamaraty”, complementa.

No entanto, o maquiador viu a lista de clientes triplicar quando a cidade tomou conhecimento de sua visitinha profissional à suíte da rainha. “Brasília foi muito boa comigo. A monarca, no fim das contas, também. Vida longa às duas”, deseja o beauty artist.

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