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Médico suspeito de causar a morte de 42 pacientes e lesões em outros 114 no RS é solto menos de uma semana após ser preso

Na segunda-feira (18), Justiça concedeu um habeas corpus para o João Batista do Couto Neto. Ele foi preso, na quinta (14), enquanto atendia em um hospital no interior de São Paulo.

O médico João Batista do Couto Neto, suspeito de causar as mortes de 42 pacientes e lesões em outros 114 em Novo Hamburgo, na Região Metropolitana de Porto Alegre, foi solto por volta das 14h30 desta terça-feira (19), menos de uma semana após ter sido preso em um hospital de Caçapava, no interior de São Paulo. A informação foi confirmada ao g1 pela defesa do investigado.

Na segunda-feira (18), foi concedido um habeas corpus a Couto. A decisão está sob segredo de Justiça.


Em 30 de novembro, a Polícia Civil indiciou o médico por homicídio doloso (quando há intenção de matar) em três inquéritos. De acordo com o delegado à frente do caso, Tarcísio Kaltbach, os indiciamentos são decorrentes de apurações envolvendo a morte de dois homens e uma mulher.

A defesa de João Batista do Couto Neto afirmou que considera a “decisão acertada”. Segundo o advogado Brunno de Lia Pires, a prisão era “absurda e arbitrária”. Ele conclui que “além de uma medida de justiça, foi um gesto de humanidade”.

Registros profissionais regulares no RS e SP
O Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio Grande do Sul (Cremers) informou que “tomou as medidas cabíveis e instaurou os procedimentos legais”, que incluem a abertura de sindicância e de processos ético-profissionais. O Cremers acrescentou que João Batista do Couto Neto está com registro regular, podendo exercer atividade médica sem impedimentos.

Em fevereiro deste ano, João Couto se registrou no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp). Em nota, a autarquia informou que “embora ele possua registro secundário no estado de São Paulo, segundo a Resolução do Conselho Federal de Medicina, como todas as acusações são fora do nosso estado, cabe às autoridades e ao Conselho do Rio Grande do Sul apurar os fatos”. (Leia a íntegra abaixo)

Desde outubro deste ano, não há medida cautelar que impeça que João Couto volte a realizar cirurgias e intervenções invasivas. Havia uma decisão da Justiça, prevendo a proibição por 120 dias, cujo prazo expirou. “Embora não haja mais restrição, ele optou por não realizar [cirurgias], ao menos por ora”, sustenta o advogado do médico.

Inquéritos policiais
Segundo o titular da 1ª DP de Novo Hamburgo, ainda restam 39 investigações de homicídio e 114 de lesão corporal envolvendo o cirurgião. A conclusão de novos inquéritos dependem do envio de laudos por parte do Departamento Médico Legal de Porto Alegre.

“Procedimentos complexos, farta documentação a ser analisada, laudos a serem recebidos pelo Instituto Médico Legal (IML)”, explica o delegado.

Relatos de ex-pacientes
“Engoliu palito de dente”

Um paciente de 52 anos, que prefere não ser identificado, afirma que um pequeno desconforto no umbigo o levou ao consultório de João Couto Neto em um hospital em Novo Hamburgo. O tratamento de hérnia umbilical teve o acréscimo de uma retirada de pedra na vesícula. O homem foi liberado no mesmo dia. No entanto, em casa, ele disse que a recuperação foi um dos piores momentos da sua vida.

“Eu passei muito mal, uns dois dias, muito mal. Era vômito, vômito. Dor, muita dor. Dor que eu não desejo pra ninguém”, afirma.

Ele voltou ao hospital e foi submetido a uma nova cirurgia pelo médico. A companheira do paciente desconfiou da justificativa dada por Couto. O cirurgião teria sugerido que um palito de dente engolido poderia ter causado a lesão.

“Me perguntou se ele tinha o hábito de mastigar palito de dente, que ele poderia ter engolido um palito e ter furado. Eu disse que ele não tinha esse hábito”, conta.

Foi então que eles decidiram mudar de médico e de hospital. “Eu me desesperei, perdi a total confiança, até porque eu já ouvia de funcionários lá dentro me incentivando a trocar, porque a fama dele dentro do hospital não era boa”, diz a companheira do paciente.

“Tinha um câncer muito raro”

A motorista Simone Ferreira Campos afirma que foi operada há 11 anos pelo médico para retirar um nódulo no intestino.

“Retirou do meu intestino, segundo ele me falou quando eu voltei da anestesia, 10 centímetros para cima do nódulo e 10 centímetros para baixo do nódulo do meu intestino, pois eu teria um câncer muito raro que ele não saberia como tratar”, conta.

No entanto, após uma biópsia, foi comprovado que a paciente não tinha câncer.

“Veio como endometriose. Então, não tinha nenhum tipo de câncer, nenhum problema do meu intestino”, diz.

Fazia quase 30 cirurgias por manhã

Uma técnica de enfermagem que trabalhou no mesmo hospital que João Couto diz que o número de cirurgias diárias que o médico fazia chamava a atenção da equipe.

“Ele fez em uma manhã, 27 cirurgias, uma manhã só. Não é possível, porque teria que ficar parado esperando um paciente atrás do outro na mesma mesa. Não tem como, até porque a aparelhagem não é suficiente para isso, a instrumentação não é suficiente para isso”, afirma a profissional, que prefere não ser identificada.

Nota do Cremesp
O Cremesp informa que o médico João Batista do Couto Neto é do Rio Grande do Sul e possui registro principal e ativo no CREMERS.

Embora ele possua registro secundário no Estado de São Paulo, segundo a Resolução do Conselho Federal de Medicina, como todas as acusações são fora do nosso Estado, cabe às autoridades e ao Conselho do Rio Grande do Sul apurar os fatos.

RESOLUÇÃO CFM Nº 2.306/2022

§ 1º A competência para instaurar sindicância, apreciar seu relatório e, se for o caso, instaurar PEP e sua instrução é do CRM onde o fato punível ocorreu, ainda que o médico não possua inscrição na respectiva circunscrição ou, mesmo que fosse inscrito, já tenha se transferido para a circunscrição de outro CRM.

Caso o Cremesp receba uma denúncia contra o médico, ele será investigado também quanto ao seu exercício em São Paulo. No entanto, só poderia cassá-lo nos termos do ordenamento jurídico e referendada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM)

Fonte: g1

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