Conheça João Jessl, o nazista que morou em Goiás na mesma época que Cora Coralina

Lápide de João Jessl | Foto: Frederico Godim

Túmulo de imigrante austríaco ligado ao nazismo revela capítulo pouco conhecido da Cidade de Goiás nos anos 1930.

Entre as lápides históricas do Cemitério São Miguel, na Cidade de Goiás — onde está o túmulo da poetisa Cora Coralina —, um monumento chama atenção por ostentar um dos símbolos mais associados à barbárie do século XX: a suástica.

A lápide pertence a Johann (João) Jessl, morto em 28 de dezembro de 1936, aos 33 anos, na então capital goiana. A inscrição registra: “Aqui descansa nosso João Jessl – 13 de agosto de 1903 – em Feldkirchen, Áustria – 28 de dezembro de 1936, Goiás”. Logo abaixo, uma suástica foi gravada na lápide.

Embora pouco conhecido, Jessl teve sua trajetória resgatada pelo historiador Frederico Tadeu Gondim na dissertação de mestrado intitulada “A Suástica de João Jessl: Memória e Imaginário no Cemitério São Miguel da Cidade de Goiás”, defendida em 2021 na Universidade Federal de Goiás (UFG).

O estudo detalha a vida do austríaco no Centro-Oeste brasileiro. Jessl chegou a Goiás para trabalhar como eletricista na primeira concessionária de energia elétrica da cidade, a Empresa de Força e Luz de Goiás (razão social Guedes, Ratto & Cia.). Segundo a pesquisa, foi acolhido pela comunidade vilaboense, onde passou a ser conhecido como “Hans” e também como “João, o Alemão”.

A trajetória de Jessl começou com a emigração da Áustria, em 1925, motivada pela crise econômica que atingiu o país e a Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Ele desembarcou no Brasil pelo Porto de Santos em 28 de dezembro de 1925 — exatamente 11 anos antes da data de sua morte. Após viver alguns anos em São Paulo, fixou-se em Goiás em 1928.

Diferentemente de muitos imigrantes que se dedicavam às lavouras de café, Jessl possuía formação técnica e atuava como eletricista. A ida para Goiás pode ter ocorrido por indicação profissional, com emprego previamente assegurado na concessionária de energia.

Na empresa, teria desempenhado função estratégica, intermediando contatos com fornecedores estrangeiros, como a Siemens-Schuckert, de onde eram importados equipamentos e manuais para a rede elétrica local. 

Na mesma época, um assentamento alemão estava se formando em Goiás, a Colônia de Uvá, que poderia ter facilitado a integração social de outros imigrantes germânicos na cidade, como Jessl. Apesar disso, não existe relação direta entre Jessl e os colonos, mas historiadores apontam para um possível contato entre as partes. 

Morte e legado

Jessl morreu em 1936, vítima de ataque cardíaco, três anos antes do início da Segunda Guerra Mundial, deflagrada pela invasão alemã à Polônia, em 1939.

 À reportagem, o pesquisador em História da Universidade Estadual de Goiás (UEG), campus Cora Coralina, Euzébio Carvalho, avalia que a presença da suástica na lápide deve ser compreendida dentro do contexto da época.

Segundo ele, até 1938, o Partido Nazista atuava legalmente no Brasil, sendo proibido apenas durante o Estado Novo, por decisão de Getúlio Vargas. Ao mesmo tempo, o movimento facista da Ação Integralista Brasileira (AIB), de Plínio Salgado, ganhava força na juventude branca e nas elites brasileiras. “Declarar-se adepto do nazismo e fascismo era um fato histórico permitido até a proibição do movimento”, afirma.

Carvalho ressalta que a trajetória de Jessl está inserida em um período de intensa transição política e ideológica em Goiás e no Brasil. Entre 1928 e 1936, a antiga capital enfrentava uma crise de identidade diante da construção de Goiânia e da iminente transferência do centro administrativo do Estado.

“Nessa época, havia grande resistência à mudança da capital. Era um assunto delicado, pois envolvia a perda de serviços, órgãos públicos e do próprio status político da cidade”, explica.

O pesquisador também contextualiza o cenário nacional do início do século XX, marcado por políticas excludentes e repressão a manifestações culturais negras. “Expressões culturais afro-brasileiras, como a capoeira, o samba e religiões de matriz africana, eram proibidas por lei. O Brasil daquele período buscava se afastar de sua identidade negra”, pontua.

Nesse ambiente, ideologias racistas e supremacistas encontraram espaço em diferentes setores da sociedade, principalmente nas elites. Como reflexo dessa herança, Carvalho menciona episódios recentes de pichações com suásticas em muros e até em túmulos judaicos na cidade, mas que também ocorrem em outras cidades do Estado.

Para ele, a história de João Jessl deve servir como alerta sobre as escolhas políticas e ideológicas feitas em determinado contexto histórico e seus possíveis desdobramentos. “Quando alguém, no presente, adere a um projeto político, precisa ter consciência dos impactos e das consequências futuras dessa escolha”, conclui.

FONTE: JORNAL OPÇÃO

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