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CARTA ABERTA A DOM ADAIR JOSÉ GUIMARÃES

Quando a fé é instrumentalizada pela política, os pobres e a democracia pagam o preço.

Excelentíssimo e Reverendíssimo Dom Adair José Guimarães,

Escrevamos-lhe como cristãos/as e ministro/as da Igreja, profundamente preocupados com os rumos que determinados discursos políticos vêm assumindo em setores do episcopado brasileiro. Nossa preocupação não nasce de uma defesa incondicional de qualquer partido, mas do compromisso com o Evangelho de Jesus Cristo, com a dignidade humana e com a missão profética da Igreja, chamada a permanecer ao lado dos pobres, dos injustiçados e de todos os que têm seus direitos ameaçados.

A liberdade de expressão e a pluralidade de opiniões são valores fundamentais da democracia. Os bispos, como cidadãos e pastores, têm o direito de se manifestar sobre a realidade política. Entretanto, esse direito não os dispensa da responsabilidade moral de verificar os fatos, evitar a disseminação de informações enganosas e distinguir a defesa do Evangelho da promoção de projetos político-partidários. A autoridade religiosa não deveria ser utilizada para conferir legitimidade moral a posições políticas sem o necessário discernimento crítico.

É justamente por essa razão que suas manifestações públicas em defesa de posições identificadas com a direita e a extrema direita brasileira merecem uma reflexão séria e fraterna, mas também firme.

  1. A memória das vítimas da pandemia não pode ser apagada

Dom Adair, como podemos falar de defesa da vida sem recordar o sofrimento de milhões de brasileiros durante a pandemia da Covid-19? Nosso país enfrentou uma tragédia que deixou centenas de milhares de famílias enlutadas, expôs as desigualdades sociais e revelou a vulnerabilidade de uma população que dependia do Sistema Único de Saúde e de políticas públicas responsáveis.

A memória desse período exige respeito às vítimas, solidariedade às famílias e avaliação rigorosa das decisões das autoridades públicas. Não podemos banalizar o sofrimento vivido nem permitir que conveniências ideológicas apaguem as responsabilidades políticas que precisam ser examinadas à luz dos fatos.

A defesa da vida, tão frequentemente invocada em determinados debates religiosos, não pode ser seletiva. Ela precisa alcançar também os idosos, os trabalhadores, os pobres, os indígenas, as pessoas em situação de rua e todos aqueles cuja vida foi colocada em risco pela negligência, pela desinformação ou pela insuficiência de políticas de proteção.

O Evangelho não nos permite escolher quais vidas merecem ser defendidas de acordo com nossa preferência partidária. Jesus se identifica com os pequenos e vulneráveis: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25,40).

  1. Os ataques à democracia não podem ser tratados como simples divergências políticas

Também causa preocupação a utilização da expressão “presos políticos” para se referir, indistintamente, às pessoas condenadas pelos ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília.

É necessário distinguir a defesa dos direitos fundamentais dos acusados e condenados da tentativa de deslegitimar a responsabilização por atos criminosos. Toda pessoa tem direito ao devido processo legal, à ampla defesa, à individualização da pena e ao respeito às garantias constitucionais. Isso não autoriza transformar automaticamente pessoas condenadas por crimes contra o Estado Democrático de Direito e por atos de depredação do patrimônio público em vítimas de perseguição política.

Os ataques às sedes dos Três Poderes não foram simples manifestações de descontentamento. Representaram uma grave agressão às instituições democráticas brasileiras. A democracia pode e deve ser criticada, aperfeiçoada e fortalecida, mas não pode ser destruída em nome de um projeto autoritário.

Como pastor, o senhor tem uma responsabilidade particular ao empregar palavras que alcançam milhares de fiéis. Quando expressões como “presos políticos” são utilizadas, corre-se o risco de confundir a consciência das pessoas e de relativizar a gravidade dos ataques à ordem democrática.

A Igreja não deve exigir privilégios para aliados políticos. Deve defender a justiça para todos, independentemente de partido, posição ideológica ou condição social.

  1. O combate imaginário ao comunismo e a demonização do adversário

Outro ponto que exige esclarecimento é a insistência no combate ao comunismo como se o Brasil estivesse prestes a se transformar em um regime comunista caso Luiz Inácio Lula da Silva seja novamente eleito, permanecendo na Presidência da República.

O Partido dos Trabalhadores não é um partido comunista. Sua história, seu programa e sua atuação institucional devem ser examinados concretamente, e não reduzidos a rótulos ideológicos. Da mesma forma, a existência de políticas sociais, programas de distribuição de renda ou mecanismos de proteção dos trabalhadores não significa, por si só, a implantação do comunismo.

É legítimo discordar do PT, porém a retórica anticomunista, quando empregada para transformar adversários políticos em inimigos da fé, compromete o diálogo democrático e favorece a polarização. O Evangelho não nos autoriza a declarar que Deus está de um lado do espectro político e o demônio do outro.

A missão da Igreja não é batizar uma ideologia, mas discernir, à luz de Jesus Cristo, tudo aquilo que promove ou ameaça a dignidade humana. Esse discernimento precisa alcançar tanto as propostas da esquerda quanto as da direita, sem privilégios nem condenações prévias.

  1. A defesa de uma família política exige o mesmo rigor moral aplicado aos adversários

A proximidade discursiva com o bolsonarismo também suscita uma questão incontornável: por que determinados setores religiosos demonstram tamanha disposição para condenar adversários políticos, mas nem sempre empregam o mesmo rigor ao avaliar os integrantes do campo ideológico que apoiam?

A família Bolsonaro e pessoas de seu entorno foram objeto de investigações, denúncias e controvérsias públicas relacionadas a diferentes suspeitas de irregularidades. Cada caso precisa ser examinado conforme suas provas, seu estágio processual e as decisões judiciais correspondentes.

A coerência cristã exige que a corrupção seja combatida onde quer que apareça: nos governos de direita, de esquerda ou de centro. A honestidade não pode ser exigida dos adversários e relativizada entre os aliados.

Dom Adair, se a preocupação é verdadeiramente moral, o critério deve ser universal. A ética cristã não pode se converter em instrumento de perseguição a uns e proteção de outros. Quando isso acontece, a credibilidade do testemunho eclesial fica comprometida.

  1. A opção preferencial pelos pobres não combina com a defesa acrítica de projetos excludentes

A Doutrina Social da Igreja ensina que a economia deve estar a serviço da pessoa humana, e não o contrário. A propriedade, a liberdade econômica e a iniciativa privada possuem uma função social e não podem ser justificativas para a exploração dos trabalhadores, a concentração abusiva de riquezas ou a destruição dos bens comuns.

A realidade brasileira continua marcada pela fome, pela desigualdade, pela precarização do trabalho, pela falta de moradia digna e pela violência que atinge especialmente os pobres, as mulheres, a população negra e os povos indígenas. Diante desse cenário, é legítimo perguntar: quais projetos políticos efetivamente enfrentam essas feridas? Quais propostas asseguram direitos, ampliam oportunidades e protegem os mais vulneráveis?

Não basta denunciar genericamente o comunismo. É preciso apresentar caminhos concretos para superar a pobreza e combater as estruturas que produzem exclusão. Não basta invocar a família. É necessário defender as famílias trabalhadoras contra a fome, o desemprego, a ausência de saneamento, a precariedade da saúde e a insegurança alimentar.

A opção preferencial pelos pobres, reafirmada pelo magistério latino-americano, não é uma preferência partidária. É uma exigência do seguimento de Jesus. Entretanto, ela nos obriga a avaliar os programas econômicos e sociais a partir de seus efeitos concretos sobre a vida dos mais vulneráveis, e não a partir da identidade ideológica de seus defensores.

  1. A Casa Comum não pode ser sacrificada aos interesses econômicos

A mesma coerência deve orientar nossa relação com a criação. A crise climática, o desmatamento, a mineração predatória, a contaminação das águas e a expulsão de comunidades de seus territórios não são temas secundários para a fé cristã.

Na encíclica Laudato Si’, o Papa Francisco recorda a relação profunda entre a degradação ambiental e a injustiça social. Os mais pobres são, frequentemente, os primeiros a sofrer as consequências de um modelo econômico que concentra benefícios e distribui prejuízos entre as populações vulneráveis.

Por isso, qualquer projeto político deve ser avaliado também por seu compromisso com a proteção dos biomas, os direitos dos povos originários, a agricultura familiar, os trabalhadores e as comunidades ameaçadas por empreendimentos predatórios.

Não é coerente defender valores cristãos no discurso e permanecer indiferente quando a Casa Comum é degradada e os pobres pagam a conta. A conversão ecológica exige coragem para questionar os interesses econômicos que transformam a natureza e a própria vida humana em mercadorias.

  1. A missão profética da Igreja não é servir à extrema direita nem à extrema esquerda

A Igreja não existe para funcionar como extensão de partidos políticos. Sua missão é anunciar Jesus Cristo, denunciar as estruturas de pecado, promover a reconciliação e defender a dignidade de cada pessoa.

Isso não significa neutralidade diante da injustiça. Pelo contrário: significa liberdade profética para denunciar qualquer governo ou movimento que ameace a democracia, viole direitos humanos, estimule o ódio ou abandone os pobres.

A tradição latino-americana oferece testemunhos luminosos dessa missão. Dom Hélder Câmara, Dom Pedro Casaldáliga, Dom José Maria Pires, Dom Paulo Evaristo Arns e São Óscar Romero, entre tantos outros, recordam-nos que a fidelidade ao Evangelho pode exigir o enfrentamento dos poderes políticos e econômicos.

A Teologia Latino-americana não propõe a submissão da Igreja a um partido. Ela nos convida a partir da realidade dos pobres, escutar o clamor dos povos e discernir a presença de Deus na história. Como nos recorda o profeta Isaías, o verdadeiro culto não pode estar separado da prática da justiça (Is 58,6-10).

É nesse horizonte que precisamos avaliar a atuação pública dos pastores. Quando um discurso episcopal se aproxima de maneira acrítica de um campo político, demoniza seus adversários e minimiza os erros de seus aliados, torna-se necessário perguntar se a voz profética da Igreja não está sendo substituída pela voz da polarização.

  1. Um apelo à conversão pastoral e ao compromisso com a verdade

Dom Adair, esta carta não pretende negar sua dignidade pessoal nem desrespeitar o ministério episcopal que lhe foi confiado. Pretende, antes, recordar que toda autoridade eclesial deve prestar contas, em sua consciência e diante do povo de Deus, da maneira como exerce sua missão.

Por isso, fazemos-lhe um apelo público:

Que reveja as manifestações que possam alimentar a desinformação, o medo e a hostilidade contra adversários políticos.

Que distinga a defesa legítima dos direitos dos condenados da negação da gravidade dos ataques à democracia.

Que aplique aos aliados políticos os mesmos critérios éticos e jurídicos que utiliza para julgar seus adversários.

Que abandone a demonização do PT e de outros setores políticos por meio de acusações genéricas, privilegiando a análise objetiva de fatos e propostas.

Que coloque a defesa da vida, dos trabalhadores, dos pobres, dos povos indígenas e da Casa Comum acima de qualquer alinhamento partidário.

Que escute as comunidades eclesiais, os agentes das pastorais sociais e os cristãos que, em meio às dificuldades cotidianas, procuram viver a fé por meio da solidariedade e da luta por justiça.

A crítica à sua atuação pública não é uma negação da Igreja. É justamente porque amamos a Igreja e desejamos que ela seja fiel ao Evangelho que não podemos permanecer indiferentes quando sua autoridade corre o risco de ser associada a projetos de poder.

O Brasil não precisa de pastores que transformem a política em guerra religiosa. Precisa de homens e mulheres de fé que promovam o diálogo, defendam a democracia, combatam a corrupção sem seletividade e se comprometam com a superação das desigualdades.

A Igreja não pode esquecer que Jesus não escolheu o caminho dos poderosos para legitimar seus privilégios. Ele se aproximou dos pobres, acolheu os excluídos, confrontou a hipocrisia religiosa e anunciou um Reino no qual a justiça, a misericórdia e a verdade não podem ser separadas.

Dom Adair, o senhor tem o direito de defender suas convicções políticas, mas não está dispensado da responsabilidade de fundamentá-las na verdade e de considerar as consequências de suas palavras para a consciência dos fiéis. O ministério episcopal não deve ser instrumento de propaganda ideológica, mas serviço à unidade, à justiça e à paz.

Que a fidelidade ao Evangelho seja sempre maior do que a fidelidade a qualquer partido. Que a opção pelos pobres não seja substituída pelo medo do comunismo. Que a defesa da vida não seja seletiva. E que a democracia, a dignidade humana e a Casa Comum jamais sejam sacrificadas em nome de interesses eleitorais ou de projetos de poder.

A história julgará nossas escolhas. O Evangelho, porém, já nos oferece um critério: “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7,16).

Com espírito crítico, responsabilidade cristã e compromisso com a verdade,

Cristãos e cristãs comprometidos/as com o Evangelho, a democracia e o amor preferencial aos pobres.

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